A Doce cosmologia Mbyá-Guarani: Uma Etnografia de Saberes e Sabores

Ref: 3958405

Este livro é o resultado de oito anos de pesquisas etnográficas entre o grupo indígena Mbyá-Guarani.


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ISBN: 978-85-8192-012-2


Edição: 1


Data de publicação: 00/00/0000


Número de páginas: 514


Peso: 200 gramas


Largura: 21 cm


Comprimento: 27 cm


Altura: 2 cm


1. Mártin César Tempass.

Este livro é o resultado de oito anos de pesquisas etnográficas entre o grupo indígena Mbyá-Guarani. Articulando bases teóricas situadas na interface entre a Etnologia e Antropologia da Alimentação, o livro A doce cosmologia Mbyá-Guarani: uma etnografia de saberes e sabores é uma rica e inovadora contribuição aos estudiosos das duas áreas, mas também uma agradável leitura para o público em geral. Os muitos dados da pesquisa etnográfica, acrescidos de um criterioso levantamento bibliográfico, fomentam minuciosas análises do sistema culinário Mbyá-Guarani e, a partir disso, permitem uma ampla compreensão da sociedade e da cosmologia dos Mbyá-Guarani. A partir dos resultados de campo, este livro nos faz repensar a participação indígena no processo de formação da culinária brasileira, colocando em xeque noções tidas como consolidadas como as que ignoram qualquer produção de doces entre os grupos indígenas. Os alimentos tradicionais dos Mbyá-Guarani apresentam a predominância de sabores doces. O presente livro evidencia como, a partir da produção/obtenção, preparação, distribuição e consumo de comidas doces, estes indígenas se constroem como pessoas igualmente doces e, mais do que isso, constroem também, através de relações dóceis com seres da natureza e da sobrenatureza, um mundo doce e ideal para viverem.

O saboroso trabalho de Mártin César Tempass, A doce cosmologia Mbyá-Guarani: uma etnografia de saberes e sabores, traz-nos uma importante e cuidadosa etnografia de longos anos junto a estes coletivos ameríndios nas suas interações pelo Rio Grande do Sul, este pequeno pedaço de seu grande, potente e sem-fronteiras território tradicional e imemorial. Fruto de experiências ricas de convívio e trocas, e de uma apurada e criteriosa pesquisa de campo, principalmente efetuada no caminho, alicerçado em um estilo de escrita ao mesmo tempo preciso, erudito, honesto e bem humorado, o livro faz-nos degustar, apreciar e avaliar uma série de elementos fundamentais para o entendimento de seu sistema xamânico-cosmológico e de sua ontologia, em relação direta com suas práticas de alimentação: pretéritas e atuais, ideais ou inseridas no penoso e dramático momento presente de sua história. 

Para muito além de percorrer as legítimas temáticas do processo histórico avassalador do colonialismo interno que impôs e continua impondo expropriações de toda ordem aos coletivos mbyá, o que, aliás, é muito bem retratado no livro, a leitura da obra permite-nos percorrer a riquíssima rede de seres que habitam o cosmos mbyá, revelando-nos a articulada, densa, produtiva e, por vezes, perigosa relação entre divindades, animais, vegetais, minerais e humanos, todos dotados de perspectiva, pois possuidores de subjetividade, intencionalidade e cultura, e que interagem constantemente em domínios não separados, com fronteiras porosas e intensamente franqueáveis. 
Mártin César Tempass mostra-nos como estas relações se produzem através da obtenção, processamento, consumo e concepção de alimentos, discutindo e analisando como estes atos cotidianos são reveladores da constituição e permanência de corpos e pessoas mbyá, percebidos como imperfeitos neste mundo também imperfeito. 
Igualmente, a obra nos remete a uma ampla argumentação, baseada não só em sua etnografia, mas em uma competente revisão bibliográfica, no sentido de demonstrar a forte presença dos doces na culinária mbyá-guarani, ao contrário do expresso pela grande maioria da produção acadêmica sobre o tema. Para tanto, o autor revisita os clássicos da literatura nacional que expuseram, comentaram e avaliaram a presença dos doces na culinária de coletivos ameríndios no Brasil colonial, concluindo pelo desejo e intencionalidade dos Mbyá-Guarani em obter, produzir, preparar e consumir alimentos doces através de comportamentos doces.

Tenho acompanhado a trajetória intelectual do autor nos últimos anos, desde sua presença nos espaços acadêmicos da graduação em Ciências Sociais, do mestrado e do doutorado em Antropologia. Igualmente, orgulho-me de ter tido alguma participação na sua formação como cientista social e etnólogo. Entretanto, sem nenhuma dúvida, minha satisfação mais plena reside na certeza da contribuição fundamental do trabalho de Mártin César Tempass, tanto por suas qualidades teóricas como metodológicas, em colocar em destaque as práticas alimentares como elemento central para a compreensão da ontologia e do sistema sociocosmológico mbyá, colocando em evidência as relações produtivas que se processam entre seres oriundos de vários domínios cosmológicos, que se comunicam, interagem e trocam propriedades.