10/08/2020

Colégio Regina Coeli: memórias de uma estudante veranense

Tags: BLOG

10/08/2020 - Por: Marina Matiello

O Colégio Regina Coeli, situado em Veranópolis, no Rio Grande do Sul, é considerado uma referência em educação no município, principalmente por ter sido fundado pelas Irmãs de São José, que contribuíram com a formação de sujeitos do ensinar e do aprender. Por muito tempo, foi a principal (e por muitos anos, a única) escola particular no município e, apesar de ter alterado seu estatuto, de confessional-católico, para comunitário, as marcas deixadas pelas religiosas ecoaram por muitos anos, influenciando na percepção e nas práticas pedagógicas da escola.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A escola torna-se, no decorrer do desenvolvimento humano, um lugar de referência, em que se entrecruzam tempos, espaços, rotinas, mas também afetos, relações e aprendizagens. A marca que a escola deixa em cada ser é única e diferente, além disso, produz lembranças coletivas, compartilhadas com os diferentes sujeitos que participaram da história da instituição.

            O resgaste dessa história é algo pessoal e coletivo. No caso do Colégio Regina Coeli, produziu, na autora, registros que impulsionaram uma pesquisa, para compreender e narrar alguns dos tantos acontecimentos ocorridos em tempos e espaços delimitados, com sujeitos do ensinar, do aprender e, ainda, administrativos. É com o olhar de uma ex-estudante veranense que o Colégio Regina Coeli é apresentando aqui.

            O período de estudo da autora, no referido colégio, foi de 14 anos e meio, contabilizando o estágio no Curso de Magistério, no ensino médio. Aos 17 anos, no ano de 1998, finalizou a educação básica na escola, porém as lembranças, sejam elas positivas ou negativas, estimuladoras ou desafiadoras, permaneceram vívidas na memória dessa estudante. Entre uma lembrança e outra, a presença das irmãs de São José, mesmo no período em que a escola não era mais confessional-católica, mas já possuía estatuto comunitário, provocou perguntas e curiosidade. Afinal o Regina Coeli, sempre foi conhecido no pequeno município de Veranópolis[1] como “o colégio das Irmãs”, apesar de elas não estarem mais à frente da instituição desde 1969. No entanto, mesmo com estatuto de comunitário, teve o intuito de permanecer com valores e práticas de um colégio confessional-católico.

PERCEPÇÕES SOBRE O COLÉGIO REGINA COELI: CONFESSIONAL CATÓLICO OU COMUNITÁRIO?

            A história do Colégio Regina Coeli inicia com a chegada das irmãs de São José de Chambéry em Veranópolis – Rio Grande do Sul, em 1917. As irmãs já estavam atuando no estado em outros municípios, desde 1899, ano em que fundaram uma escola em Conde D’Eu (atualmente município de Garibaldi). A partir de então fundaram escolas em Antônio Prado (1900), Caxias do Sul (1901), Flores da Cunha (1901), até chegarem em Veranópolis (1917). Posteriormente, foram fundadas outras instituições de ensino, inclusive de formação religiosa, além disso, dedicaram-se à saúde e à pastoral.

            Os municípios em que as irmãs se instalaram, citados anteriormente, pertencem à Região de Colonização Italiana, com características culturais semelhantes, devido ao processo migratório, que povoou as colônias. Apesar de não haver identificação cultural com a proveniência das Irmãs de São José de Chambéry, cuja congregação foi fundada na França, havia irmãs de diferentes nacionalidades, formadas inclusive no Brasil, e ainda, deveria se considerar a religiosidade, que era reconhecidamente presente nos migrantes italianos. Assim, muitos pais, especialmente pertencentes à elite das colônias (municípios), poderiam escolher, caso houvesse condições, uma escola confessional-católica para seus filhos estudarem, em uma época em que os valores e a disciplina eram bastante valorizados.

O colégio era destinado especialmente às meninas e moças de Veranópolis e da região, já que atendia em regime de internato ou externato. Os meninos estavam presente nos livros de matrículas desde o início, no entanto, por muito tempo, apenas no pré-primário (educação infantil) e no primário (séries iniciais), já que Veranópolis contava também com o Colégio Divino Mestre, dos irmãos Maristas, destinado ao público masculino.

Apesar de as Irmãs estarem em Veranópolis, atuando na educação, desde 1917, no Colégio São José, em 1948, o prédio construído especialmente para o colégio foi inaugurado e, a partir desse momento, a escola passou a denominar-se Regina Coeli. Apesar de o colégio ter passado da condição de confessional católico para comunitário em 1969, a direção da escola ficou a cargo das Irmãs de São José até o ano de 1976. A partir de 1977, a escola passou a ser dirigida por leigos, até os dias atuais.

              É importante destacar que, durante todo o seu percurso histórico educacional, o Colégio Regina Coeli sofreu alterações no seu nome. As diferentes denominações receberam influência da legislação educacional. No início, a escola denominava-se São José, em 1917, passando a chamar-se Escola Regina Coeli em 1946, quando iniciaram movimentos que culminariam na inauguração do prédio construído especificamente para a escola, em 1948. O nome prestava uma homenagem à Rainha do Céu. Em 1948, foi criado o Curso Ginasial.

              Em 1954, com a criação do Curso de Formação de Professoras do Primário e do Pré-primário, foi denominada de Escola Normal Regina Coeli. Em 1975, com a reforma do então 2º Grau, a escola passou a oferecer os cursos de Magistério e Auxiliar de Escritório. Em 1980, é denominada Escola de 1º e 2º Graus Regina Coeli. A partir de 1999, passou a designar-se Colégio Regina Coeli.  De Colégio São José, passando para Escola Regina Coeli, Ginásio, Escola Normal ou Escola de 1º e 2º Graus Regina Coeli, observa-se, na comunidade veranense, assim como se constatou nas entrevistas com os sujeitos escolares, que a escola é referenciada geralmente com o nome de Colégio Regina Coeli, ou simplesmente, Regina Coeli.

              Até 1969, o Regina Coeli foi administrado por irmãs, que atuavam também nas salas de aula. No entanto, com a percepção do número reduzido de Irmãs de São José e de Irmãos Maristas, a comunidade assumiu os dois educandários confessionais-católicos do município: a Escola Normal Regina Coeli e o Ginásio, e a Escola Técnica Divino Mestre. Para tal, foi criado o Cecovea, que é uma entidade filantrópica, sem fins lucrativos, que não remunera seus dirigentes voluntários. Tais dirigentes são eleitos pelo Conselho Deliberativo, que é composto por pais, alunos maiores e, eventualmente, por colaboradores aprovados por Assembleia Geral. 

              A escola já tinha estatuto de escola comunitária no período em que a autora desse breve relato foi estudante, no entanto, as percepções eram diferentes. A justificativa pode ser encontrada nas práticas cotidianas, já que muitas foram mantidas, mesmo após a transição; pelo corpo docente, que foi sofrendo alterações gradualmente e, especialmente, pela presença das irmãs no prédio escolar e realizando atividades específicas até 2000. Essas atividades eram especialmente relacionadas à religiosidade e a aulas extracurriculares, assim como é inevitável lembrar-se da Irmã Carmelita, que auxilia no horário de entrada e de saída da escola, tocando o sino, e que distribuía pirulitos produzidos por ela, em datas especiais, com formato de chupeta. A maioria das irmãs passavam uma imagem de disciplina e seriedade, já a Irmã Carmelita, era lembrada por seu afeto e sua doçura, presente no comportamento e no doce pirulito. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

              Durante seus mais de cem anos de história, o Colégio Regina Coeli contribuiu, e continua contribuindo, com a educação do município, permitindo que muitas histórias sejam narradas. Essas histórias foram (e continuam sendo) construídas e vividas por sujeitos da comunidade educativa: professores, alunos, funcionários, Irmãs ou autoridades. São permeadas por novas descobertas, novos métodos, outras transformações e permanências, novos desejos e realizações. Histórias que fazem parte da construção do município e que narram a vida do povo veranense. Histórias que fazem parte da história da autora, que a ajudaram a se constituir como sujeito e, especialmente, como uma (sempre) estudante veranense. Memórias vívidas, sons, cheiros, colegas, professores, espaços, materiais e, especialmente, afetos e aprendizagens, fazem parte dessas boas lembranças.

              Considerando o percurso histórico, as representações, as influências, assim como as práticas das Irmãs de São José, do Cecovea e de todos que colaboraram para a construção e permanência da escola no município de Veranópolis, é possível afirmar que o Colégio Regina Coeli se tornou uma referência em educação. Referência para a autora e para os milhares de estudantes que pertenceram ou pertencem à escola.

[1] O município, com população aproximada de 25 mil habitantes, está localizado na Serra Gaúcha, a 705 m de altitude, distante 170 km da capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Tem, atualmente, como limites: Bento Gonçalves ao sul, Cotiporã a oeste, Antônio Prado e Nova Roma do Sul a leste, e, ao norte, faz divisa com Vila Flores e Fagundes Varela.

Leia mais sobre o assunto no livro: Colégio Regina Coeli: De Escola Confessional à Comunitária 


 

Sobre a autora: Marina Matiello éDoutora em Educação pela Universidade de Caxias do Sul (2019), mestra em Educação (2013), graduada em Pedagogia (2003) e Psicologia (2008) pela Universidade de Caxias do Sul (2013), especialista em Psicologia Institucional pela Universidade Castelo Branco (2005). Integra o grupo de pesquisa História da Educação, Imigração e Memória (GRUPHEIM). Tem experiência na área da Educação e da Psicologia, destacando-se as seguintes atuações: Secretária Municipal da Educação de Caxias do Sul, diretora do Colégio Nossa Senhora de Lourdes – Farroupilha, docente de graduação da Faculdade da Serra Gaúcha, orientadora educacional em escolas de Caxias do Sul. E-mail: marinamatiello@hotmail.com