09/10/2018

Trabalho Doméstico e Maternidade: Obstáculos à Consolidação das Carreiras Femininas?

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09/10/2018 - Por: Marusa Silva

 

A modernidade trouxe no seu imaginário a crença no desenvolvimento, nas oportunidades para todos, na consolidação da cidadania universal e na construção de uma sociedade mais justa. No entanto, observa-se que a promessa moderna não se concretizou em todos os cenários e nem mesmo para todos os indivíduos, como é, por exemplo, o caso das mulheres.

A História nos ensina que ela se faz de avanços e retrocessos e que a manutenção de determinadas lógicas e posições se perpetua por muito tempo. Esse é o caso da relação entre trabalho doméstico/cuidados e consolidação da carreira feminina. A função da maternidade vai muito além de gestar e amamentar uma criança. É, na verdade, todo o trabalho social de criar, educar e acompanhar os pequenos. Apesar do avanço em várias frentes como as leis que protegem as gestantes e as mães, da consolidação do movimento feminista e da entrada cada vez maior de mulheres no mercado de trabalho, a lógica da maternidade e do trabalho doméstico ainda é envolta em um imaginário social que coloca a mulher como a principal responsável por essas tarefas. Mas qual seria o problema disso? Qual é o impacto dessa responsabilidade, quase exclusivamente feminina, para as mulheres? É sobre essas questões que esse texto pretende se debruçar.

Em um passado não tão remoto, as mulheres eram direcionadas a desempenhar o papel que cabia a elas na sociedade, ou seja, o papel de esposa e mãe. Com o passar do tempo e com muita luta social elas passaram a ocupar cada vez mais o espaço público, fazendo-se presentes nos bancos escolares, nas universidades e no mercado de trabalho. Entretanto a presença mais constante das mulheres na esfera do mercado não foi acompanhada de uma igualitária divisão das tarefas domésticas e da conscientização de outros membros da família (maridos, companheiros, filhos) de que é sua função também cuidar do lar e de tudo que diz respeito a ele.

O resultado desse cenário foi a acumulação de tarefas por parte das mulheres. Pesquisas recentes sobre o mercado de trabalho mostram que as mulheres no Brasil gastam em torno de 18,6 horas semanais com as tarefas domésticas e de cuidados, enquanto para os homens o dispêndio de horas para a realização dessas mesmas tarefas é, em média, 10,4 horas semanais. De posse desses dados conseguimos compreender por que a mesma pesquisa aponta que, em 2016, 38,8% das mulheres ocupavam cargos de chefia no Brasil. Para os homens, nesse mesmo período, o percentual era de 62,2%1, mesmo sendo as mulheres aquelas que mais estudam em nosso país, uma média de 8 anos a mais que os homens. Outro fator simbólico da posição de desigualdade da mulher no mercado é o rendimento. Pesquisas apontam que a diferença salarial pode chegar até 1/3 do salário masculino, quando ocupando a mesma função.

Esse cenário demonstra que a dedicação às tarefas domésticas cria obstáculos para que as mulheres possam se dedicar à carreira e impactam nas suas condições de trabalho, fazendo com que elas optem por estratégias como trabalhar em tempo parcial ou compreender o trabalho fora do lar como complementar e não como uma carreira.

A acumulação dos distintos papeis – a saber, profissional, esposa e mãe –, sem contar com uma divisão igualitária dessas tarefas, torna as mulheres mais suscetíveis a desistir da carreira e ainda a desenvolver problemas de saúde como ansiedade e depressão. A dupla, às vezes tripla, jornada de trabalho traz inúmeras consequências ao volume e qualidade de sua produtividade. Como já havia sido afirmado por Michelle Perrot2, a noção de carreira não é algo feminino, ao contrário, foi construída em uma lógica masculina pois demanda certa abdicação da maternidade e do casamento.

É claro que, nos dias atuais, concebemos a possibilidade de conciliação harmônica entre carreira e família, mas isso se torna problemático porque gerimos nossa vida social por uma crença sexista de que cabem à mulher as tarefas do lar e de cuidado da família. Enquanto os homens não se conscientizarem de que devem assumir sua parte no trabalho doméstico e na criação e cuidado com os filhos, teremos mulheres ansiosas, cansadas e se desdobrando para alcançar o imperativo da modernidade que se resume em felicidade e realização. A felicidade de construir uma família e a realização profissional.

Para saber mais sobre o tema, conheça a obra A Relação (in)Tensa entre Patroas e Empregadas, de Marusa Silva (2018).

[1] Pesquisa divulgada pelo IBGE sobre Mercado de Trabalho. Disponível em: http//:www.ibge.org.br.

[2] PERROT, Michelle. O que é um trabalho de mulher. In.: PERROT, Michelle. As Mulheres ou o Silêncio da História. São Paulo: EDUSC, 2011.


Foto: Arquivo pessoal do autor

 

Marusa Silva: Doutoranda em Sociologia Política pela Universidade Estadual do Norte Fluminense – Darcy Ribeiro (Uenf) –, professora de Sociologia da Universidade Candido Mendes – Campos dos Goytacazes – e professora de História do ensino fundamental e da EJA (Educação de Jovens e Adultos) da rede pública municipal de São João da Barra (RJ).

Atualmente integra a equipe de pesquisadores do Atelier de Estudos de Gênero (Ategen), vinculado ao Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce-CCH) da Uenf.