19/08/2020

Em tempos de RESSENTIMENTO E DEPRESSÃO, o que nos dizem os mitos e a deusa Deméter?

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30/05/2019 - Por: Sylvia Mello Silva Baptista

Os deuses da Grécia Antiga sempre nos parecem muito próximos dos humanos, com suas emoções e reações aos fatos olímpicos ou terrenos. Sendo assim, se considerarmos que eles podem ser vistos como manifestações arquetípicas, ou seja, formas universais pelas quais personificamos aquilo que buscamos entender, ousei pensar em alguns deles que, se humanos fossem, demonstrariam alguns sentimentos como o ressentimento, ou o estado de depressão. Falemos, portanto, de uma divindade que podemos considerar, a partir de sua história, como “Deusa Ressentida” e que entra num estado que nomearíamos como depressivo, dentro do linguajar médico tão difundido nos dias atuais: Deméter. Vejamos.

            O ressentimento se forma a partir de uma violência, tendo como base a exclusão. É uma prisão no passado. A própria palavra já diz: re-sentir leva-nos a sentir de novo, e de novo e de novo. Vamos ao mito para entender o que acontece. Podemos adentrar a história identificando o excesso de apego da deusa à condição de mãe, a sua dor bem como sua dificuldade em lidar com a perda da filha (da filha ideal, da expectativa que depositou nela), o olhar da deusa para a falta, a alternativa da espiritualidade como caminho, o humor como “solvente” da imobilidade.

DEMÉTER

      O nome Deméter significa mãe da terra, ou Terra-Mãe. É filha de Crono e Reia, portanto, pertencente à segunda geração dos deuses olímpicos. Enquanto Reia representa a terra arada, Deméter é a terra cultivada, essencialmente o trigo, e é quem ensina aos homens a arte de semear e colher o cereal, e fabricar o pão.

Sendo o pão o alimento universal, Deméter está ligada a todo ciclo da vida, e é por isso relacionada à Terra e à Natureza. Na feitura do pão, desvenda uma dimensão humana e transformadora que transcende a natureza.

      Deméter foi devorada por Crono e devolvida à luz por Zeus, na manobra que este, juntamente a Reia, realizou para libertar os irmãos. O devoramento será um mitologema (um tema mítico que se repete) presente nesse mito. Essa é a primeira violência de algumas que a deusa será vítima. Fará uma identificação com o pai agressor, e seu percurso incluirá a sua relação com o feminino ferido e a necessidade de reparar sua autoestima, e resgatar o valor do feminino.

      A segunda violência que sofre é o estupro de Posídon. Teve com ele dois filhos: o cavalo alado e falante Árion, e Despoina (a Senhora), cujo nome só era conhecido pelos iniciados nos Mistérios de Elêusis. Pare, portanto, um masculino animal, uma criatura antropomórfica, que necessita ser humanizada, e um feminino misterioso, quase sem corpo ou consistência. São promessas de desenvolvimentos desses princípios.

      Com Iásion, um mortal que conheceu no casamento de Cadmo e Harmonia, concebeu Plutos, o deus da riqueza, num campo arado três vezes. Com ele aproxima-se da mortalidade, este que será outro mitologema no seu caminho. A vivência com Iásion traz alegria a Deméter e ira a Zeus, que o fulmina e cega seu filho. Essa é a terceira violência da qual é vítima.

      Zeus também a desejou e perseguiu, e com ela copulou sob a forma de serpente, gerando Core (a Jovem), o grão.

      Dessa forma, Deméter está ligada aos três deuses olímpicos que reinam sobre os três mundos: os irmãos Zeus, Posídon e Hades (na companhia de quem Core se transformará em Perséfone), além de um mortal, indicando que seu mito fala de uma totalidade. Seus rebentos também apontam nesse sentido.

      Mas podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o centro do mito trata da relação de Deméter com sua filha Core, na qual a Deusa da terra arada é definida como a Mãe. Não há Deméter sem Core; não há Core sem Deméter. Vamos a ele:

MITO

      Core passeava com Atena e Ártemis quando seu tio Hades raptou-a, com a conivência de Zeus, seu pai. Este atraiu sua atenção com uma flor de narciso, e Hades a levou para o mundo ctônico nas profundezas da terra. O mito de Deméter se inicia, pois, com o rapto de Core. Sua identidade, como veremos pelas suas reações, está colada na maternidade.

      Deméter fica desesperada com o desaparecimento da filha. Vaga por nove dias com duas tochas ardentes. No banquete que Tântalo faz aos deuses para testar a sua onisciência, oferecendo seu filho Pélops assado, Deméter está tão aturdida que não se dá conta do interdito aos deuses de comer carne humana, e engole um pedaço da escápula do mortal.

      Se humana fosse, falaríamos, na linguagem analítica, em “atuação”, um  devoramento, quem sabe na tentativa canhestra (um ato falho?) de integrar literalmente a morte que precisa vivenciar para sair da simbiose com a filha. Deméter está narcotizada pela dor, narcisicamente lamentando a própria sorte, sem condições de perceber o outro. Sua desatenção já sinaliza o que identificamos como depressão.

      No Hino Homérico a Deméter, o deus sol Hélio pede à deusa:

“Põe termo a teu grande lamento e essa cólera insaciável em teu coração” (p.71). Isso dá indícios de uma deusa ressentida, e uma outra consciência clamando espaço. Deméter carrega consigo a dor da separação e do abandono, e o desejo de vingança e retaliação.

      Depois do desespero vem a raiva:

Deméter, enfurecida com Zeus e Hades, decide não voltar ao Olimpo e abdicar de suas funções até Core voltar. Há aí um início de caminho que envolve a escolha.

      Depois da raiva, vem a depressão:

Deméter transfigura-se em uma velha, esconde sua aparência divina e vai a Elêusis. Senta-se na Pedra sem Alegria e ali fica, num estado catatônico de imobilidade e tristeza. Esse é o momento de instalação de um estado depressivo; a alegria está projetada na filha ausente. Os cuidados com o corpo são esquecidos, a alimentação fica prejudicada, e retira-se do coletivo. O envelhecimento após uma perda é algo visível.

      Declara chamar-se Doso (Dós) ao ser interrogada pelas filhas do  rei local, e ter escapado de piratas. Coloca-se, assim, também como vítima de um rapto imaginário. Ainda está identificada com a filha, também raptada. Aceita cuidar de Demofonte, filho recém-nascido da rainha Metanira, quando as irmãs do bebê a convidam ao palácio. Senta-se em silêncio em um banco, com seu véu, e se consome em dor pela filha, até a criada Iambe (ou Baubo) a fazer rir com seus chistes maliciosos e gestos obscenos.

      A perspectiva de cuidar de um bebê possibilita Deméter sair da Pedra sem Alegria, ou da posição petrificada em que se colocou. Mas logo tem uma recaída. No palácio permanece sentada cabisbaixa, sem comer ou beber. Não tem forças para dar conta da tarefa. Aceita-a, mas é uma decisão mental; não consegue transformar isso em ação. O bebê não é a sua Core. Nega o trono real; nega comida e água; nega o vinho ofertado; nega os prazeres do conforto, da saciedade e da alegria, como se punisse a si mesma. Essa é uma vivência bastante típica dos estados deprimidos e de luto. A libido está ausente, ou atrofiada.

      O humor obsceno é o que a tira do torpor, do efeito narcótico da depressão. E ele vem carregado de energia sexual, o que a reaviva. O riso a re-conecta com a vida, com a sua natureza mais instintiva. Vamos entendendo, assim, que a tarefa maior de Deméter, ao longo de seu mito é o desapego, o exercício da doação, e a aceitação da morte.

      Depois que ri, ela sabe o que quer para si ao pedir que lhe preparem uma bebida de nome kikéon, ou cíceon, que significa mistura, agitação, perturbação. É necessário colocar-se em movimento (o vinho a anestesiaria ainda mais).

      Podemos considerar o humor como um “solvente” do ressentimento “demeteriano”. Deméter precisa do deus Hermes, ou o que ele representa no seu aspecto trickster (traquinas, brincalhão), expresso na figura de Iambe, para fazê-la sair da paralisia depressiva causada pela perda da filha, e da sua identidade de mãe (devoradora).

      No palácio, Deméter tenta imortalizar Demofonte em rituais noturnos com o fogo da lareira. Nova tentativa de negação da morte, frustrada pela mãe do bebê, Metanira, que não desejava um imortal. Desmascarada, a deusa exige que levantem a ela um templo. Ali Deméter se instala, mas decide impedir que toda semente brote. Ainda atua a sua mágoa. Os deuses todos, encabeçados por Zeus, vão visitá-la e presenteá-la, na intenção de que desista de sua vingança, mas tudo em vão. Atitudes paternalistas não a fariam desistir de sua greve. Não quer nada de Zeus, a não ser sua filha de volta.

      Zeus incumbe Hermes de falar com Hades, para que devolva Core, agora já transformada pelas experiências no mundo subterrâneo, na deusa Perséfone. A sabedoria do senhor do Olimpo fê-lo compreender que com o feminino ferido não há negociação. Teria que pedir a quem convive com a morte, o sacrifício do desapego e da separação voluntária. Deméter ainda espera Core.

      Hades não se contrapõe à ida de Perséfone a Deméter e atende o pedido de Hermes (Zeus), mas antes dá à esposa grãos de romã que esta come. Perséfone recebe com  ingenuidade (ou com sabedoria) o gesto, o que a atará ao esposo a cada um terço do ano.

      Com esse ato, Hades planta o novo, o terceiro em Perséfone. Morre definitivamente Core neste momento. É preciso semear o terceiro elemento para a saída da simbiose. É o segundo rapto, ou o coroamento do primeiro.

      Depois do inconformismo vem a constatação da morte:

No abraço de reencontro, Deméter intui que Hades teria plantado na filha a semente que as separaria.  Não há o que fazer, a não ser aceitar. A filha que voltou é outra. Mãe e filha conversam sobre o rapto. A deusa Hécate – a única que ouviu os gritos de Core no momento da aparição de Hades –  junta-se a elas, formando o trio feminino da jovem, da mulher madura e da velha.

      No Hino Homérico a Deméter, nesse momento surge sua mãe Reia, avó de Perséfone, pedindo à Senhora da Vegetação que, em nome de Zeus, voltasse à estirpe dos deuses, e ali ficaria com a filha por 2/3 do ano, retornando ao esposo no terço faltante. (ou, em algumas versões, metade - metade) Pede também que não mais se zangue com Zeus e dê por encerrada a sua ira. E Deméter obedece.

      Somente aí Deméter faz as pazes com sua natureza feminina, deixando que a vida circule novamente. A semente morreu para germinar e brotar.

      Pode-se considerar que o mito traz a imagem de Deméter como um feminino ferido pelo masculino invasor, bem como um feminino materno invasivo e devorador; polos de uma mesma expressão divina: Deméter foi violentada por Posídon e por Zeus, com quem gerou Core. Zeus, fulminou Iásion por quem ela esteve bastante encantada, e com quem foi capaz de rir e amar. E como se não bastasse, foi propiciador do rapto de sua filha. Ao mesmo tempo, a deusa nutre a dependência de Core na relação mãe-filha, desejando eternizar seu lugar de mãe. O mito traz uma deusa que vive a morte, a desilusão, a perda. Demonstra como nesse cenário, que evidencia os ciclos, a depressão faz parte naturalmente. Como deusa da natureza, da terra cultivada, representa a condição de permanência, na qual a ação, o trabalho, a opus precisam incidir para que a vida se movimente. A partir das imagens, podemos depreender muitas leituras simbólicas, enriquecendo assim nossa compreensão da humanidade em nós. Quem é Deméter em mim?, podemos indagar. Onde, no meu comportamento funciono como Core? Em que momento do meu caminho de vida receio morrer e renascer? Entendo o estado depressivo que enfrento como algo patológico ou como um momento de um ciclo onde há perda e luto? Como me apego/desapego dos meus ressentimentos?

      Mais reflexões a respeito dos mitos gregos e de possíveis leituras a partir da psicologia analítica de C. G. Jung e a psicologia arquetípica de James Hillman  podem ser encontradas no livro de minha autoria, Venenos e Antídotos – Ensaios sobre a clínica junguiana e mitologia grega (2019), editora Appris.

Referências Bibliográficas

ALVARENGA, M.Z.  e cols. Mitologia Simbólica – Estruturas da Psique e Regência Míticas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega, v. I e III. Rio de Janeiro: Vozes, 1990.

GRAVES R. Os Mitos Gregos, v.2. Portugal: Publicações Dom Quixote, 1990.

KERÉNYI , K. Os Heróis Gregos. São Paulo: Cultrix, 1998.

KERÉNYI , K. Os Deuses Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997.

RIBEIRO Jr., WILSON, A. (org.). Hinos Homéricos. São Paulo: Editora Unesp, 2010.


 

Sylvia Mello Silva Baptista: Graduou-se em Psicologia na PUC-SP(1983). Possui mestrado em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1993). Analista Junguiana pela SBPA-IAAP(2006), faz atendimento clínico de adultos em consultório particular. Tem experiência em Psicologia Clínica, com ênfase em Psicologia Analítica (C.G.Jung), técnicas expressivas e calatonia. Dá supervisões e ministra aulas em grupos de estudos e na Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. Coordena o Núcleo de Mitologia e Psicologia Analítica (MiPA) na SBPA e o Núcleo de Mitologia Grega na Areté (Centro de Estudos Helênicos).