19/08/2020

A criança e a natureza

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08/05/2020 - Por: Minuska Lima

As áreas verdes como ambientes imprescindíveis para o bem-estar, a aprendizagem e o desenvolvimento saudável das crianças

A partir da era industrial, os modos de o ser humano lidar com a natureza transformaram-se drasticamente. Expandiu-se amplamente o propósito ambicioso de dominar o mundo natural, que passou a ser considerado como se não tivesse vida própria. A concepção da terra como um organismo vivo, bem como o sentido de afinidade e equilíbrio entre ser humano e natureza vivenciados na antiguidade, passaram a ser desqualificados. Implantou-se a supremacia da capacidade racional que privilegia “as esferas do cálculo e da técnica, da precisão e da determinação” (ARAÚJO, 2008, p. 29), a cultura ocidental passou a desqualificar as dimensões que compõem o campo da sensibilidade humana.

Essa lógica resultou em diversas consequências expressas nas graves questões que assolam o planeta, dentre elas a destruição do mundo natural e o afastamento do ser humano da natureza, sua origem e sustentação. Os seres humanos, de modo geral, cercados por paredes, pisando em pisos cimentados, distanciados do seu próprio corpo, lidando com alimentos e produtos industrializados com cheiros, sabores e texturas artificiais que limitam a sensibilidade, não se percebem como parte integrante e dependente de um todo planetário.

Esse modo de vida vem atingindo fortemente as crianças, ao longo dos tempos. A sua retirada dos espaços naturais, especialmente nos centros urbanos, é uma das características da cultura contemporânea. É-lhes negado o direito de vivenciarem a interação íntima com o mundo natural, condição essencial para o seu desenvolvimento saudável e para suas aprendizagens.

O reencontro do ser humano com a natureza, sua origem, o respeito à terra enquanto casa coletiva dos humanos, dos animais e vegetais, coloca-se como um dos caminhos para o enfrentamento da crise generalizada pela qual passa o planeta. Desse modo, a capacidade de amar e cuidar do Planeta Terra e de todas as suas formas de vida é uma competência que precisa ser urgentemente priorizada nos diversos processos formativos.

O convívio com o mundo natural é um dos direitos inalienáveis das crianças, pois este lhes possibilita experiências imprescindíveis de prazer e alegria e favorece aprendizagens diversas, em especial, elas podem aprender modos sensíveis e éticos de lidarem com todas as formas de vida presentes ao seu redor.

Desde a primeira infância, as crianças necessitam estar em espaços nos quais possam viver experiências que as mantenham vinculadas às coisas da natureza. Para isso, é fundamental que tenham oportunidades de estarem nas áreas verdes, onde possam brincar e se movimentar amplamente, segundo seus interesses e desejos, possam desfrutar da infinidade de ambientes e materiais, imaginando e inventando livremente, possam contemplar, se encantar, enfrentar desafios e aprender.

Faz parte da infância o prazer na integração com os demais seres e elementos da natureza. As crianças sentem necessidade de pegar as coisas, de experimentar sensorialmente o que lhes rodeiam, de pisar o chão, se lambuzar, de criar... como curiosas aprendizes, elas amam as atividades ao ar livre, amam subir em árvores, tomar banhos de mar e rio, caminhar nas matas, ajudar a preparar alimentos, cuidar de animais. Ao vivenciarem cada experiência, elas usufruem de bem-estar e alegria, constroem diversas habilidades e infinitas aprendizagens. Freinet (1998, p. 181), afirma, “não há nada que seja mais benéfico para as crianças do que a natureza, porque oferece uma gama inesgotável de recursos, ao mesmo tempo uma série de barreiras intangíveis que lhes dão a medida exata de suas possibilidades e de suas potências”.

O princípio que cria e sustenta a vida, que pulsa nos elementos e fenômenos naturais, é a mesma força presente nas crianças, expressa em curiosidade, criatividade, movimento e encantamento. A natureza oferece condições para o desenvolvimento amplo da imaginação e criatividade infantil, a partir de espaços e materiais orgânicos, assim como favorece a saúde das crianças, especialmente pelo bem-estar e a movimentação intensa que as áreas verdes propiciam. O mundo natural contribui para a manifestação da potência e da inteireza das crianças.

Grande parte da cultura infantil hoje é inventada com base nos valores mercadológicos, tais como a supervalorização do produto industrializado, o consumo excessivo, a descartabilidade, dentre outros. Essa cultura tem efeitos diversos na formação das identidades das crianças. Quando elas não têm acesso a outras alternativas, assimilam essas perspectivas como únicas possíveis, como “naturais”, perdem a possibilidade de descobrir e experimentar as suas próprias singularidades e a diversidade do mundo natural, de fazer contato com o orgânico.

O desenvolvimento da sensibilidade é uma condição essencial do nosso processo de humanização. As experiências com as coisas da natureza (seres, materiais, processos etc.) favorecem a construção e o aprofundamento do saber sensível, ou seja, o saber corporal, intuitivo e afetivo que atua de forma complementar e inseparável com o saber racional.  Os ambientes naturais são espaços férteis para construção e ampliação da nossa sensibilidade, pois favorecem a sofisticação da percepção pelo refinamento dos cinco sentidos e dos sensos perceptivos mais profundos a partir das infinitas experiências sensoriais e reflexivas possíveis na interação com a vida da natureza.

Nessa perspectiva, tornam-se urgentes experiências que nos levem a ultrapassar a separação entre ser humano e natureza, que nos levem a aprender que “como seres vivos deste planeta, dependemos vitalmente da biosfera terrestre” (MORIN, 2001, p. 50) e a construir “novas formas de pensar a existência humana sobre a terra” (TIRIBA, 2006, p. 15), com base no respeito à diversidade cultural e biológica.  É fundamental, portanto, possibilitar às crianças tanto o acesso ao patrimônio cultural construído pela humanidade quanto o encontro íntimo com o mundo natural e com seu corpo.

Uma das principais funções das diversas instituições que cuidam da infância é oferecer às crianças experiências que possibilitem essa integração, tais como: experiências de brincar livremente na natureza, de criar com a diversidade de materiais aí presentes, indo além do consumo dos brinquedos industrializados. Experiências com plantios, cultivos e colheitas, com jardins e alimentos, que incluem vivências sensoriais e estéticas amplamente incentivadas nesses ambientes. Experiências de interação com os animais, aprendendo a cuidá-los e a amá-los. Experiências de cozinhar juntos, costume ancestral de compartilhar e celebrar a vida e seus frutos, envolvendo-se com a estética das cores, com os cheiros, consistências e formas dos alimentos, além de aprender sobre a composição, combinação, transformação e cuidados com os alimentos. Experiências de fazer arte com materiais orgânicos, nas quais possam expressar livremente seus pensamentos e sentimentos. Experiências de relaxamento e aquietamento em ambientes naturais, de exercitar o silêncio. “Estar na natureza nos reconcilia com nosso ser” (BARBIERI, 2012, p 119). E outras experiências propostas pelas próprias crianças de contato com outros elementos sustentadores da vida na terra: Água, Fogo, Terra e Ar.

O convívio amoroso das crianças com a natureza mobiliza a construção de conhecimentos de diferentes âmbitos, favorece a conexão entre o pensar e o sentir, e, muito especialmente, possibilita que a criança atue e se expresse genuinamente, interpretando e recriando o mundo, podendo escolher modos de vida que certamente incluirão posturas solidárias e éticas diante da vida.

Referências

ANTONIO, Severino. Uma nova escuta poética da educação e do conhecimento: diálogos com Prigogine, Morin e outras vozes. São Paulo: Paulus, 2009.

ARAÚJO, Miguel Almir Lima de. Os sentidos da Sensibilidade: sua fruição no processo do educar. Salvador: Ufba, 2008.

BARBIERI, Stela. Interações: onde está a arte na infância? São Paulo: Blucher, 2012.

BORBA, Angela Meyer. Infância e Cultura nos tempos contemporâneos: Um contexto de múltiplas relações. Revista TEIAS, Rio de janeiro, ano 6, n. 11-12, jan./dez. 2005.

CAPRA, Fritjof. O Ponto de mutação. São Paulo: Ed. Cultrix, 2006;

DUARTE JÚNIOR. João Francisco. O Sentido dos Sentidos: a educação (do) sensível. Curitiba: Criar Edições, 2001.

FREINET, Célestin. Ensaio de psicologia sensível. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra. São Paulo: Peirópolis, 2000.

GUTIÉRREZ Francisco. Ecopedagogia e Cidadania Planetária. São Paulo: Cortez, Instituto Paulo Freire, 1999.

MORIN, Edgar. Ciência com consciência.  8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand, Brasil, 2005.

MORIN, Edgar. Sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo; Brasília: Cortez; Unesco, 2001.

PELIZZOLI, Marcelo L. Homo Ecologicus: Ética, Educação ambiental e práticas vitais. Caxias do Sul, RS: Educs, 2011.

SHELDRAKE, Rupert. O renascimento da Natureza: O Reflorescimento da Ciência e de Deus. São Paulo: Cultrix, 1991.

TIRIBA, Léa. As crianças da natureza. Brasília: Portal do MEC, 2010.

TIRIBA, Léa. Crianças Natureza e Educação Infantil. Tese (Doutorado) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2005.


Izenildes Bernardina de Lima: Conhecida como Minuska Lima, é pedagoga, mestre em Educação, pela Universidade Estadual de Feira de Santana, tem formação em Xamanismo, é pesquisadora da relação da criança com a natureza desde 2005. Atuou por 14 anos como coordenadora de educação infantil na Secretaria de Educação de Camaçari, Bahia, onde esteve à frente da criação e coordenação de projetos voltados para formação de educadores da educação infantil e para inovação de práticas. É idealizadora e coordenadora do Projeto Sou Natureza, em Valente, Sertão da Bahia. Atua, desde 2007, com consultoria em educação infantil e com formação de educadores em instituições públicas e privadas.