26/11/2020

Sexualidade, desenvolvimento humano e violências na sociedade brasileira

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26/11/2020 - Hugo Higino Perez de Andrade

A sexualidade é um tabu que ainda não é abordado de forma direta e cotidianamente na sociedade brasileira. O conservadorismo e as políticas neoliberais dificultam ainda mais a ampliação do debate e das discussões que se propõem a compreender a sexualidade como uma dimensão presente na vida humana, desde a infância até a velhice. Nesse sentido, não dialogar sobre um tema tão presente em nossas vidas acaba por favorecer atitudes e posturas agressivas, pela falta de informação ou por vezes pela pretensa ideia de que a sexualidade pode ser exigida por meio de força, coação ou violência, oriunda do imaginário social machista.

Corpos que não ocupem o lugar de privilégio em nossa sociedade acabam por serem alvos de investidas violentas com a finalidade de satisfação de desejo, sexual ou de poder sobre o outro. Assim sendo, frequentemente notícias de abuso sexual, violência de gênero e exploração sexual, seja de crianças ou de mulheres, são veiculadas na grande mídia, demonstrando o quão alarmante é ignorarmos o diálogo sobre ao desenvolvimento da sexualidade saudável como um direito de todos.

Ao longo do ano de 2019, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) recebeu cerca de 159 mil registros de violência sexual, sendo que 17 mil dos registros dizem respeito ao abuso de criança e adolescentes. Esses números são reflexo de políticas educacionais conservadoras que impedem o debate científico e saudável sobre questões de sexualidade nas escolas. Esse cenário cria um quadro de vulnerabilidade para crianças e adolescentes pela desinformação, muitas vezes a ferramenta utilizada para se efetuar a violência.

A família não se sente preparada para conversar com seus filhos e filhas sobre sexualidade. Espera-se que as instituições de ensino cumpram esse papel de educar sexualmente as crianças e adolescentes. Todavia, os profissionais da educação também não se sentem capacitados. O problema é que o tema da sexualidade humana ainda é um tabu, principalmente quando se trata de sexualidade infantil.

Para que possamos vislumbrar uma mudança nesse cenário, é preciso naturalizar as discussões e os debates sobre a sexualidade humana e, principalmente, sobre a sexualidade infantil. A partir do diálogo e de constantes debates sobre a temática será possível construir uma sociedade mais segura para mulheres, crianças e adolescentes. Não será ignorando os fatos ou dados que o problema será resolvido. É preciso primeiramente disposição para abertura ao diálogo, e somente assim será possível avançar na construção de uma sociedade que respeitem os mais vulneráveis.

Para saber mais sobre a temática da sexualidade infantil e o desenvolvimento humano conheça a obra Psicologia e crítica feminista: do percurso teórico-metodológico à prática.


Hugo Higino Perez de Andrade é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), mestre em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso/Rondonópolis (UFMT/CUR). Psicólogo Clínico, possuí experiência na atenção básica em saúde mental pelo SUS, atuando com psicoterapia individual e de grupo. Tem experiência docente envolvendo psicologia educacional, psicologia educação e sexualidade e psicologia do desenvolvimento humano. Tem interesse em temas como: psicologia do desenvolvimento humano; teorias feministas; teorias queer; infância e contemporaneidade, educação sexual e psicologia e relações étnico-raciais.