30/11/2020

Poesia concreta: poesia natural ou poesia artificial?

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26/11/2020 - Angela Maria Gasparetti.

A poesia é uma linguagem que pretende ultrapassar os limites da língua, deseja ir além do contrato estabelecido por ela. E o poeta, desde os tempos mais remotos, sabe que a palavra apenas não é capaz de penetrar no espaço complexo do universo, não é capaz de representar o real, e somente o representa quando se liberta do contrato, das regras e das leis semânticas, gráficas e verbais estabelecidos pela língua. Nessa perspectiva, a poesia denominada concreta procura realizar todo o esforço de construção de uma dimensão icônica associada à plasticidade, estabelecendo-se como arte poética que é.

A contribuição de Max Bense, em sua obra Pequena Estética (2009), ao tratar sobre um conceito geral de poesia, faz uma importante distinção entre poesia natural e poesia artificial. Para ele, poesia natural pressupõe um eu lírico com sua consciência poética pessoal, em que cada palavra expressa obedece a um processo ontológico e, consequentemente, a posição estética, atribuída a cada uma delas, pode ser entendida como reflexo do mundo em que se insere esse eu lírico. É, portanto, uma poesia assimilativa, na medida em que conduz o leitor a um sentido, a um significado.

Ao classificar a poesia como artificial, Bense (2009) afirma que ela não exige um eu lírico, não direciona a uma interpretação, pois o escrever se desenvolve em um espaço textual, repositório vocabular de base, em que a palavra é fruto do trabalho de um poeta artífice que, em vez de direcionar o leitor a um sentido, convida o leitor a tornar-se também um artífice, um produtor, uma vez que lê, produzindo, e não assimilando.

É nessa concepção de poesia artificial de Bense (2009) que a poesia concreta se instala. Ao ser construída, a realização material das palavras ou das sequências de palavras não visa, como na poesia natural, à formação do conteúdo semântico, que, geralmente, é portador do estético, porém, coincide com a estética, e o conteúdo semântico não é considerado para essa finalidade. Assim, suas componentes não comunicativas, em maior número que na poesia natural, “mostra(m) que a informação estética, diferentemente da semântica, não é codificável, mas realizável” (BENSE, 2009, p. 185).

Feita a conexão entre poesia artificial de Bense (2009) e a concreta, passemos a um rápido estudo dessa última.

Proposições teórico-críticas da corrente concretista, iniciadas por Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, em 1956, alteraram significativamente o conceito de poesia e, consequentemente, o contexto da poesia brasileira.

Mallarmé com sua obra Un Coup de Dés Jamais N'Abolira le Hasard, de 1897, torna-se precursor das vanguardas contemporâneas voltadas para a exploração da camada material do significante e a espacialização visual do poema sobre o papel, e, com ele, encontramos vários escritores importantes para o surgimento da poesia concreta, como James Joyce, Ezra Pound, e. e. cummings e, no Brasil, Oswald de Andrade, João Cabral de Melo Neto.

Assim, pressupostos importantes são apresentados por Augusto de Campos (2006), no texto que se intitula Poesia Concreta (Manifesto). Os mais significativos que podem ser destacados:

- a valorização da linguagem e, [...], a aceitação da palavra como elemento que tem vida, história, personalidade;

- a abolição do verso;

- a apresentação “verbivocovisual” do poema (isto é, valores gráficos e fônicos relacionais das palavras, mais o uso “do espaço como elemento de composição, justapondo palavras e experiências de maneira inusitada”);

- a transgressão da sintaxe, isto é, a ruptura da sintaxe lógico-discursiva em favor de uma conexão paronomástica entre termos utilizados no poema, dando origem a “um campo magnético de possibilidades”; (CAMPOS, 2006, p. 71).

 

Para Bosi (1994), essas inovações da poesia concreta estão agrupadas em campos, uma vez que é o significante dessa poesia que ocupa o primeiro plano, ou seja, o verbal e o visual. É possível, por meio desse delineamento do autor, traçar um caminho para a leitura ou possíveis leituras de poemas concretos, quer no sentido horizontal, quer no vertical. Esse uso da sintaxe espacial e da palavra isolada, cujo significante-significado se quer dar uma nova dimensão, abre novas possibilidades para que haja o rompimento das fronteiras entre as artes verbais, sonoras e plásticas, encaminhando-as para uma maior percepção do todo espaciotemporal, em que está envolvida a sensibilidade do leitor.

Algumas chamadas de ordem: palavras soltas no espaço ou superpostas, poemas coloridos, interação das artes, visão planetária da criação, a “sagrada liberdade”, o envolvimento com a materialidade do verbo, como se pode observar no poema-objeto produzido pelo poeta Augusto de Campos e pelo artista plástico Julio Plaza, na obra Poemóbiles[1]:

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Fonte: http://www.augustodecampos.com.br/poemas.htm. Acesso em:

Ora, se a poesia sempre buscou superar os limites impostos pela palavra para tocar o real, ressignificando sua trajetória em termos de criação, observamos, na poesia concreta, o aproveitamento da materialidade da linguagem, de sua informação estética. Ela traça uma ponte ao unir literatura e arte, na medida em que procura a espacialidade visual das palavras e seus sinais gráficos, posicionando-se no limiar entre literatura e artes visuais. É aí que a palavra se liberta de seu referente. A potencialidade visual e a presença física que os poetas concretos dão ao texto, o tornam, ao mesmo tempo, imagem e objeto, portanto, poesia inovadora.

Acesse a obra da autora: A Leitura Performática da Obra Poemóbiles, de Augusto de Campos e Julio Plaza

Referências:

BENSE, Max. Pequena estética. In: CAMPOS, Haroldo de. Pequena estética. Tradução de J. Guinsburg e Ingrid Dormien Koudela. São Paulo: Perspectiva, 2009.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994.

CAMPOS, Augusto de. Poesia concreta (Manifesto). In: CAMPOS, Augusto de; PIGNATARI, Décio; CAMPOS, Haroldo de. Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos 1950-1960. Cotia: Ateliê, 2006, p. 71.

CAMPOS, Augusto de; PLAZA, Júlio. Poemóbiles. 3. ed. São Paulo: Annablume, 2010.

Poema Abre (1968). Disponível em: http://www.augustodecampos.com.br/poemas.htm.  Acesso em: 01 nov. 2020.

[1] Ver estudo da obra Poemóbiles, de Augusto de Campos e Julio Plaza em: GASPARETTI, Angela Maria. A leitura performática da obra Poemóbiles, de Augusto de Campos e Julio Plaza. Curitiba: Editora Appris, 2020.

 


Angela Maria Gasparetti possui mestrado em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde também participa do Grupo de Estudos de Poética: Interconexões Diacrônico Sincrônicas na Poesia Brasileira e Portuguesa (PUC-SP/CNPq). Com formação em Letras (Português e Inglês) e Pedagogia (Supervisão e Administração), fez especialização em Tecnologias Interativas Aplicadas à Educação (PUC-SP). Sua formação possibilitou-lhe atuar como professora efetiva do ensino fundamental e médio das redes públicas da prefeitura do município e do estado de São Paulo. Na última década, tem lecionado em cursos de licenciatura em Letras e Pedagogia e, ainda, em cursos de pós-graduação na área de Educação.