30/11/2020

Prefácio: Meus Poemas Teus

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30/11/2020 - Marcos Zeri Ferreira (Escritor e presidente da Academia Ribeirão pretana de Letras)

O ensaio poético de Rita Gaona é aquela caça de si mesmo em quatro paisagens; um terreno doce, às vezes movediço, “talhado suavemente pela mãe terra e pelo vento”, podendo incluir os outros dois elementos: o fogo e a água. Navega na nostalgia, avista aterramento como a buscar o cisne branco, e se pensa em segurança, como se o lago e o cisne representassem a sua solidez; num instante já não se encontram mais ali, fogem a partir de um sonho, cuja irrealidade atinge o novo tempo. Espalham com os seus moinhos de vento o quase possuir, o tocar instável de palavras soltas nos espaços negros, entre fótons de luz: “um movimento ao encontro do vazio, entre vibrações adormecidas”. Prosa e versos intercalam-se para pisar num chão no qual o homem é vítima do efêmero.

É aquele andar em círculo que o poeta percorre, experimentando a dança da forma: “capaz de construir e reconstruir a minha história”. É como se a vida moderna se envergonhasse da sua prenda maior, ao exibir no veneno da escolha, os dois frutos que formam a centelha da vida, e o seu criador deixasse o seu rebento por instantes, aos cuidados de uma magia de outra natureza desconhecida. Nesse ato multiplicam-se os questionamentos. Em “Raízes”: “muitos véus nos acompanham conduzindo-nos lentamente à reta de chegada”, que nunca se conclui, e o homem tem que se satisfazer dos despojos, em “faíscas de luzes”, sempre a buscar o clarão sem limites. Sua alma inquieta continua a caminhada, sente que as peças não se encaixam.

Gaona contenta-se com “Entremeios”, esbraveja, “sem trovões não se conhece a mansidão tão desejada”, a certeza da brisa mansa entre rajadas e calmarias. Sabe que é preciso enfrentar o guardião que exige “rasgar o que ainda o coração oculta”.

Em “alma itinerante” sente a contradição entre o amor e o desamor e a lapidação deste; supõe que esse amálgama entrelaça-se na ilusão da unidade, intui que esta não se forma sem a entrega do descontente. No Hiato “Procuro um lugar para me encaixar”. “Livres surgem”, “Atravessam meu Ser para te alcançar”, “Até encontrarem tua alma”.

Gaona vislumbra futuro: “Num tempo certo e seguro”, “Iremos juntos celebrar Meus Poemas Teus...”. Novamente, transfere para si o encontro com o outro, relembra “Histórias que se juntam” “em lembranças e desejos expressos em palavras traduzidas no agora”. É como se o amor imaginário não conseguisse apalpar a vida, tornando-a inalcançável.

Em soslaio suprime esse amor metade: “Quero o aconchego de fechar meus olhos para ver o meu próprio vazio”, seu ventre: “o berço profundo a povoar minha alma”, “gestar minha própria vida” se fazer luz para dançar no mundo. Gaona se dispõe a ousar, materializá-lo. Capitula ao fender a água com os braços, elas se desmancham, vira-se ao avesso: Como Rumi, “Eu soube enfim que o amor está ligado a mim”.

À revelia de seus projetos “a concretude se dissipa quando o abstrato assume o comando: “Estar inteira e livre como a águia”, em “Aterrissagens Temporárias” “Seja o deleite sempre à minha espera”.

Ela parte para o rincão da “Pele”. Outra tentativa de assentamento, “Que a capa do amor revelado Que a ti de presente foi dada” “Possa embalar tua alma, Teus gestos, teu viver”. Pouco a pouco vence seus próprios limites, dá asas aos seus traços, inconscientemente revelados. Entrega-se à alquimia da vida “Em sua plenitude o fogo e a terra” “Abrem espaço para o ar e a água a minha vida impregnar”. Na mudança da luz, aceita as transformações e as renova. Mas tudo vira impossibilidade. É como se a poesia moderna encontrasse em cada verso a dificuldade de conhecer na pele a vida em si, ela se torna ausente, fugidia.

Em “Cadeado”, refere-se à própria obra e “Alerta de forma pueril o substancial que a vida esconde”. É como se essa ânima oculta pudesse acordar como aviso, querer sair do sonho, da viagem atemporal, remetendo água à possibilidade do encontro, porém distante da forma “em todo momento nos instiga a conosco mesmos nos encontrar”. “Forma sem forma, nossa busca”. “Nossa origem, nossa vida!”. Em outras palavras, oferece ao amor nostálgico a capa do amor revelado, para embalar a “alma, os gestos, o viver”. É como se a impossibilidade de viver no corpo o amor, oferta-o ao numinoso: “Possa tua pele exalar o que a vida de ti espera” e “realizar o que Um dia o que tu mesmo escolhestes”.

Essa visão distinta unifica-se e no Caos recupera a lucidez e justifica: “Não sei a quem interessa ser lúcido, só sei que amores mortais nem sempre vibram ao toque desse som”.

Gaona, em “Meus Poemas Teus”, consegue aglutinar a percepção do exílio que lubrifica a poesia moderna. A vida é sempre vislumbrada, mas jamais vivida, “seguirei montando meus quadrados até espelhar minha marca original”. A escada de Babel do seu texto é o caminho mais intenso e único, no qual se vive a impossibilidade, ao mesmo tempo vislumbrando a perfeição do amor.

Acesse a obra da autora: Meus Poemas Teus


Rita Maria Gaona nasceu em Ribeirão Preto/SP, onde reside. É graduada em Serviço Social, com especialização em Políticas Sociais. Profissionalmente, dedicou vários anos ao serviço público federal. Interessa-se por estudos relacionados ao autoconhecimento. Atualmente, dedica-se aos estudos e trabalhos relacionados às Constelações Sistêmicas e Constelações Estruturais. Este é o seu segundo livro de poesias. Seus primeiros poemas publicados estão no livro Dueto Místico, escrito em parceria com Gustavo Sérgio Heil, tendo sua primeira edição em 2015. Seus poemas acontecem de forma espontânea, surgem de rabiscos que dizem sim à sua intuição.