13/02/2019

Caminhos estratégicos do leitor: o que é leitura e produção de sentido?

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13/02/2019 - Por: Adilson Ribeiro de Oliveira

 

São muitas as pesquisas que se dedicam a compreender os complexos processos envolvidos na produção de sentido na atividade de leitura. Sob diversos ângulos e amparadas em abordagens variadas, a preocupação pode recair sobre os efeitos de sentido desencadeados, sobre a influência do contexto de interação, sobre os papéis desempenhados pelo leitor e pelo autor, sobre os gêneros textuais e por aí vai... São realmente inúmeras as possibilidades de tratamento do tema. E trata-se mesmo de empreendimento importante: vivemos em uma sociedade dita letrada, ou seja, em cujas práticas sociais de uso da escrita as pessoas precisam se orientar, utilizando sua capacidade de compreender, interpretar, utilizar textos escritos de forma a, por exemplo, atingir seus objetivos de participação ativa na sociedade.

Em minhas pesquisas, especificamente, procuro não delimitar tipos e gêneros textuais com os quais lido para compreender a produção de sentido. Venho apostando, diferentemente, no estudo de estratégias, procedimentos, habilidades, competências que normalmente são acionados na atividade de leitura de modo geral e que, consequentemente, possibilitam elaborações por parte do leitor que lhes permitem a construção do sentido para atender a determinados objetivos, em determinadas situações, em determinadas condições. Evidentemente, não desconsidero o fato de que gêneros e tipos textuais também determinam o acionamento de estratégias específicas, habilidades próprias e assim por diante, mas prefiro concentrar a atenção naquelas que poderiam ser consideradas necessárias para qualquer gênero/tipo de texto.

Um primeiro aspecto a salientar, nesse quadro, é que o viés que adoto para compreender a produção de sentido em leitura foca processos de referenciação, ou seja, atividades discursivas em que o sujeito lida com os objetos de discurso, operando sobre o material linguístico à sua disposição e realizando escolhas significativas com a finalidade de construir propostas de sentido também significativas dentro de um quadro referencial construído sociocognitivamente. Assim, a referenciação diz respeito à possibilidade que possui a linguagem de não somente construir o universo a que ela se refere, mas também mediar (em conjunto com outras semioses, de outras práticas sociais) as relações que se estabelecem entre sujeito e realidade.

Pode parecer um tanto paradoxal, em uma perspectiva como esta que adoto, em que se defende a ideia de referenciação como movente, instável, referir-se a habilidades, procedimentos e estratégias de leitura. Na verdade, não o é. Embora movente e instável, a produção de sentido na leitura revela-se em um processo dinâmico em que os leitores, dentro dessa mobilidade, articulam conhecimentos de ordens diversas que lhes permitem escolher determinados caminhos e não outros na produção de sentido. Daí a importância de se discorrer sobre esses conceitos.

Habilidades, destrezas, técnicas, estratégias, embora mantenham, ao lado das semelhanças, algumas diferenças, são geralmente tratados simplesmente como procedimentos. Parto do princípio de que o procedimento abarca a ideia de estratégia, ou seja, procedimentos de leitura são desenvolvidos quando se ativam determinadas estratégias que, organizada e articuladamente, contribuem para o desenvolvimento da atividade de leitura. Não desconsidero, reitero, o fato de que tipos e gêneros de textos diferentes requerem procedimentos e estratégias de ordens diversas e que isso interfere decisivamente nos efeitos de sentido produzidos na atividade de leitura. No entanto, para os propósitos a que venho me dedicando, prefiro tratá-los, já que são indispensáveis à leitura de qualquer tipo e gênero de texto, de uma maneira mais geral, não me atendo às especificidades inerentes aos tipos e gêneros textuais; ou seja, considerando os procedimentos e as estratégias como escolhas que permitem, de um modo geral, a referenciação e a consequente produção de sentido na atividade de leitura, e que se adaptam a diferentes situações.

O entendimento normalmente adotado é o de que um procedimento seja um conjunto de ações ordenadas e finalizadas, isto é, dirigidas à consecução de uma meta. Acrescento que, em se tratando de uma atividade sócio-cognitivo-interacional, como procuro compreender a leitura, trata-se de um conjunto de ações de linguagem que, (co)ordenadas, organizadas e articuladas favorecem a consecução de uma meta, ou objetivo, e permitem, em sua execução, (re)dimensionamentos e (re)posicionamentos que regulam a compreensão, isto é, a produção de sentido.

Assim pensando, pode-se falar em procedimentos mais ou menos gerais, mais ou menos estáveis, em função de ações de linguagem, envolvidos no processamento da leitura que, independentemente dos tipos textuais e gêneros de texto/discurso, permitem ao leitor as escolhas pertinentes aos objetivos que se pretende alcançar. Por isso, para não ser radical ao tratar desse assunto, prefiro referir-me ao que podemos denominar relativa instabilidade.

Um exemplo para essas considerações poderia ser o seguinte: ao caminharmos pelas ruas da cidade, ao observarmos os sinais de trânsito, ao decidirmos qual o melhor trajeto, estamos lidando com procedimentos. No primeiro caso, a ação é completamente automatizada; no segundo, a ação é controlada por instruções; no terceiro, usamos nossa capacidade estratégica em função do resultado que desejamos alcançar. Ora, não é difícil perceber que, nos três casos, ativamos ações (co)ordenada, organizada e articuladamente com o propósito de atingir um objetivo. A diferença, nos três, é o grau de automação, controle e processamento estratégico que possibilita a consecução do objetivo.

Daí advém a noção de estratégia, cuja principal característica é o fato de não definir, não detalhar e não prescrever totalmente o curso de uma ação, apenas sugerindo caminhos mais adequados a seguir, escolhas mais pertinentes aos objetivos a alcançar. Sua essencialidade está no fato de que envolve autodireção – um objetivo a alcançar e a consciência de que ele existe – e autocontrole – a supervisão e avaliação do comportamento em relação ao objetivo que lhe deu origem e da possibilidade, caso seja necessário, de modificá-lo.

O desafio do leitor, em um entendimento como esse – que considera aspectos de ordem cognitiva, mas não os desvincula daqueles de ordem social e interativa – reside no fato de que a leitura só pode ser entendida num processo em que o sujeito, ao ler, está participando desse processo – que é social e histórico – cujo fim é a produção de sentido, ou efeitos de sentido. E isso só acontece a partir da ativação de operações cognitivas – como as descritas anteriormente – desencadeadas de um lugar social: dessa forma, alguns sentidos são possíveis de serem construídos e outros não, de acordo com o quadro de referências posto na interação. Daí o permanente jogo da linguagem – a dialogicidade – em que há naturalidade ou opacidade dos sentidos. Daí, também, o fato de que os textos sempre apresentam várias possibilidades de leitura, mas que cada leitor, de acordo com o quadro de referências construído na interação – a posição que ocupa, o modo como é interpelado, por exemplo – construirá determinadas propostas e não outras. Daí, também, minha defesa de que a emergência de representações sociais durante a atividade de leitura interfere sobremaneira nos percursos referenciais e, consequentemente, nas propostas de sentido desencadeadas.

Desse modo, na atividade de leitura, como prática interacional, nos percursos interpretativos do sujeito, emergem crenças, valores – em termos mais específicos, representações – que se dobram ao sabor dos processos referenciais, fazendo atualizar – na memória, por exemplo – e funcionar – nas escolhas e/ou propostas assumidas – determinados efeitos de sentido, os quais não são nem totalmente abertos, porque circunscritos em um quadro de referências, nem totalmente fechados, porque produzidos nas negociações próprias da dialogicidade constitutiva da linguagem. É assim, portanto, que se pode entender a atividade de leitura sob perspectiva que, embora perceba como fundamentais as operações e mecanismos da cognição humana na produção de sentido – tais como a memória, a inferência, a verificação –, não descarta o fato de que, sendo processo, aí entram em jogo, também, aspectos de ordem social e interativa e que esses aspectos são determinantes na gestão do sentido, nos movimentos do sujeito na linguagem e nos gestos de leitura que são desencadeados no processo.

Dito de outro modo, o grande desafio consiste no fato de que a atividade de leitura envolve, por um lado, um conjunto de operações cognitivas que vão desde a descodificação do aparato simbólico até sua (re)organização mental, em que os sujeitos, por outro lado, operam com o material linguístico à sua disposição e realizam escolhas significativas dependentes de variáveis sociais, culturais e circunstanciais envolvidas na atividade e cuja finalidade é a de construir propostas de sentido significativas dentro do quadro de referências posto na interação.

Claro que a questão – e uma boa discussão a respeito –, dada sua complexidade, não se esgota com facilidade. Mas esse é, sem dúvida, um bom trajeto para se compreenderem os caminhos do leitor.

Para aprofundamento sobre a perspectiva, conheça a obra Todo mundo só pensa naquilo: representações como elemento constitutivo de competências de leitura (Editora Appris, 2017, 196p).


Adilson Ribeiro de Oliveira é professor de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal Minas Gerais (IFMG – Campus Ouro Branco). Possui metrado em Pedagogia Profissional (ISPETP – Cuba), doutorado em Letras (PUC Minas) e pós-doutorado em Ciências da Educação (Universidade de Lille, França), com pesquisas no campo da Linguística Aplicada, envolvendo temáticas relacionadas à leitura e produção de textos. Ultimamente, dedica-se a estudos sobre o letramento acadêmico e sobre o teste de letramento em leitura do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes).