03/02/2021

Diferença e aceitação

Tags: BLOG

03/02/2021 - Luís César Alves Moreira Filho 

A solidariedade e a empatia em relação à luta de classes constituem um conflito de interesses, Habermas questiona a proposta de classe em Karl Marx com a identidade de grupo da ação ritual de Durkheim. A divisão de trabalho entre proletariado e burguesia acabam em subdivisões, pois a categoria econômica colocada como classe possui subdivisões em grupos, nesse caso a mesma categoria profissional não tem unidade de grupo.

A proposta é questionar a cultura em suas diversas expressões, inclusive as concepções de direita e esquerda. Nas ciências sociais reconstrutivas de Habermas ficam questionadas a objetividade da ciência que abarca a capacidade de interferência sobre algo, pois o fato não é alterado e independe do discurso e da verdade. A alienação e a ideologia ficam em Karl Marx questionadas, afinal, Habermas propõe a reconstrução do materialismo histórico, confronta o socialismo utópico com o socialismo histórico e reflete nas bases da ciência, como questiona a tradição associada à história.

A concepção de ciência foi tomada por Durkheim dentro dos rigores da época, Habermas ao considerar os problemas dos rigores científicos por causa das opiniões que fogem dos critérios da razão, questionou a objetividade que cada um acha ter. Afinal, a psicologia em sua universalidade científica explora o que cada um acha sobre essa dificuldade, os conflitos em diversas vertentes de pesquisa nessa área resultam que o problema objetivista está em afirmar uma realidade isenta de interpretação, algo que não ocorre. A dependência da interpretação existe independente do querer, a liberdade resulta em crença diante das imagens de mundo. O processo de epistemologia depende da interpretação, nesse caso, o problema não é o objeto, mas o modo como cada um percebe a realidade. O mundo da vida e o sistema acabam mediados pela ideologia, sem definir a origem da ideia por meio do conceito, sendo que tanto Kant quanto Hegel são reelaborados a partir da interação.

Como a falha da objetividade decorre de um problema de percepção, a própria razão deixa de estar centrada no sujeito, pois os critérios independem das necessidades pessoais e precisam ser aceitos. A ciência não é uma validade de interesse pessoal, mas universal dentro da verificação e, desse modo, precisa ser transmitido por meio de ensinamentos. O processo científico não é unilateral, precisa de comprovação e que possa ser passado para frente de modo acumulativo, não é tomado como privilégio dentro da aprendizagem. Cabe uma crítica social, afinal, o acesso à educação não cria privilegiados, mas aponta uma falha no setor em suas políticas públicas e na proliferação da desinformação como política de controle social.

Kant e Hegel apontam que o progresso ocorre por meio do conhecimento, Habermas retoma a perspectiva com uma crítica cultural, pois o progresso cultural não acompanha o progresso técnico, o descompasso gera a comunicação distorcida entre mundo da vida e sistema. Faz necessário aceitar os limites que a realidade impõe a todos. Como não cabe a ética utilitarista da luta de classes da maioria do proletariado contra a minoria burguesa, nesse caso insere a inclusão do outro diante da diferença e aceitação. A diferença decorre da falta de assimilação em um confronto com a realidade, desse modo, a consciência de classe acaba questionada entre grupo e classe. A reconstrução não é um questionamento da aplicação científica das ciências exatas, biológicas e humanas, mas uma nova abordagem a partir do que se tem no presente.  Questiona a percepção, confronta a realidade e desmonta a subjetividade, pois os fatos não se alteram, consequentemente, o negacionismo faz parte de um processo de alienação diante das condições de vida, um mecanismo de defesa.

Sem reduzir a psicologia à filosofia, pois cabe a filosofia interpretar textos sem estabelecer intervenções e controles, a cultura filosófica acaba na cooperação com a ciência. O confronto com a realidade reflete em um compromisso ético questionável perante a diversidade moral, além da não aceitação moral dentro da diferença diante da ética do outro. Alguns podem dizer que a hierarquia se constitui imoral, pois entende como exploração, apesar do termo “imoral” não existir, pois uma moral distinta faz parte de outra ética e não a faz “imoral”, reflete somente uma crítica cultural em termos de comportamento. Os critérios de imposição ética resultam também num processo de descrição, pois as pessoas precisam justificar o motivo do controle de seus corpos.

A divisão de trabalho não pode ser simplificada entre proletariado e burguesia, pois a ciência é complexa e o conhecimento depende do consenso sobre o fato, cuja ideologia dos envolvidos dependem da comunicação, então a linguagem é um fator de desenvolvimento. A filosofia como interpretação de textos, permite uma provocação, afinal, acaba como apoio a antropologia e arqueologia, pois a linguagem como fator de desenvolvimento coloca limites nos processos de interação, questiona a história natural perante a falta de universalidade de uma linguagem adquirida no nascimento em contextos culturais. Nega uma ciência isenta de interesse, pois ela é uma construção cultural ao questionar a relação método e metodologia.

Para saber mais sobre o tema, conheça a obra: Trabalho e globalização numa perspectiva do mundo da vida adaptado ao sistema.


 

Luís César Alves Moreira Filho é doutorando em Ciências Sociais, Unesp – Marília, com a pesquisa: “A condição e o lugar das ciências sociais no pensamento de Habermas”. Possui graduação e mestrado em Filosofia na mesma instituição, título da pesquisa no mestrado: “Identidade do eu e normatividade social em Habermas”. Com atuação fragmentada e diversificada na área de educação, as investigações versam sobre o pensamento social, em especial, a teoria crítica de Habermas sobre: eu, razão, constituição do eu, identidade do eu, sociedade, consciência moral, normatividade, intersubjetividade e soberania. As políticas públicas e o questionamento ideológico da ciência passam pela ética (discurso), direito (normatividade) e história (pensamento).