08/02/2021

A preocupação com a qualidade do solo em plantios florestais

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08/02/2021 - Eleandro José Brun

A preocupação com a qualidade do solo no setor de florestas plantadas, assim como no setor agropecuário como um todo, não é algo recente, em escala de algumas décadas. Durante o transcorrer do século passado, passou-se de um modelo extrativista e predatório ao solo para um modelo conservacionista, tendo como base trabalhos de pesquisa e difusão de informações feitas por cientistas, extensionistas e profissionais de diversos setores.

As florestas plantadas não ficaram de fora desse movimento. O setor, em sua maior parte, também passou de um modelo retrógrado de cultivo do solo para plantar florestas (com uso do fogo e cultivo em área total, muitas vezes), por buscar sistemas conservacionistas e capazes de manter o solo em níveis qualitativos adequados. Nesse setor, um agravante foi – ou ainda é, em muitas regiões – o fato de as florestas serem plantadas, predominantemente, em solos de baixa fertilidade, depois de terem sido degradados por queimadas e usadas de modo inadequado para diversos fins.

Nessas constantes mudanças de uso do solo, o monitoramento do efeito dos sistemas de cultivo em evolução sempre foi de grande importância, pois indica aos pesquisadores e usuários da terra se a qualidade estava em ascensão ou declínio. As práticas silviculturais e de manejo, em constante evolução principalmente desde a década de 1960 – quando as plantações florestais começaram a se expandir no Brasil –, são as principais ações que podem levar, com o passar dos anos, a alterações na qualidade do solo.

No entanto, essa qualidade deve ser monitorada. E, para isso, indicadores eficientes, tais como o fracionamento da matéria orgânica, devem ser testados e validados, de forma que haja monitoramento do cultivo do solo em florestas plantadas e que medidas possam ser tomadas, sempre que necessário, para a não degradação do solo nas práticas silviculturais e, além disso, para a avaliação dos possíveis acréscimos ou decréscimos na quantidade de matéria orgânica armazenada.

Estudos de avaliação da qualidade do solo em agroecossistemas apontam a matéria orgânica como indicador consagrado, presente em diversos trabalhos. Porém, na maioria dos casos, os estudos têm ocorrido com culturas agrícolas. Quando se trata de espécies florestais, os trabalhos são ainda escassos, mas apontam para uma relação equilibrada entre plantação e solo – se boas práticas silviculturais forem aplicadas.

Em estudos recentes, comparando-se áreas onde há vegetação natural (Campo Nativo, Floresta Ombrófila Mista e Floresta Estacional), os plantios de Pinus taeda e P. elliottii mostraram capacidade de acumular mais serapilheira e carbono orgânico sobre o solo, os quais tendem a apresentar uma decomposição/liberação relativamente lenta devido ao menor teor de nitrogênio e consequente maior relação C/N. Nesse enfoque, cumprem dupla função: de proteção física do solo e de repositório nutricional de médio e longo prazo, incrementando a ciclagem de nutrientes.

Dados evidenciam que plantações sobre Cambissolos que sofreram, durante seu histórico de cultivo, ações como a retirada ou queima de resíduos de colheita e serapilheira tendem a apresentar menores teores de carbono orgânico particulado, demonstrando o impacto dessas ações de manejo de resíduos, independentemente se em área original de Campo Nativo ou em Floresta Ombrófila Mista. Plantações florestais sobre Argissolos, sem histórico de queima de resíduos, em final de primeira rotação, acumularam o dobro de carbono orgânico particulado no solo, em comparação ao Campo Nativo (área original dos plantios), e com valores semelhantes ao solo da Floresta Estacional.

Tais aspectos reforçam o papel das plantações de Pinus no sequestro de carbono atmosférico e sua transferência ao solo, pois os fatores mais relacionados ao estoque de carbono, nesses solos, estão associados às adições da serapilheira e resíduos de colheita, bem como à renovação de raízes – este último fator é predominante no Campo Nativo, mas é também significativo em florestas.
Os estudos realizados trazem uma percepção clara de que as práticas silviculturais nas plantações, principalmente aquelas aplicadas aos resíduos de colheita, influenciam mais fortemente a qualidade do solo do que o uso dele com floresta nativa, campo nativo ou plantação de pinus.

Para saber mais sobre o assunto, o livro recém lançado, Qualidade do solo em plantações de Pinus no Sul do Brasil – autoria de pesquisadores da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e da Universidade de Freiburg (Alemanha) –, traz uma abordagem completa sobre o tema e pode ser adquirido na Editora Appris e seus parceiros.


 

Eleandro José Brun possui graduação em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Santa Maria (2002), Mestrado (2004) e Doutorado (2008) pela mesma instituição, com período sanduíche na Universidade de Freiburg-Alemanha, na área de Silvicultura, Conservação da Natureza e Solos Florestais. Foi professor da Universidade Federal de Santa Maria, no Departamento de Ciências Florestais entre 2003 e 2005. Desde 2002, atua como consultor na área de florestas nativas e plantadas, em trabalhos voltados à conservação e produção de bens florestais madeireiros e não madeireiros, incluindo avaliação de florestas quanto ao potencial de acúmulo de biomassa e sequestro de carbono. Foi consultor do SENAR-RS, através da Cooperativa Florestal Floracoop, entre 2005 e 2008, nas áreas de licenciamento ambiental e silvicultura. Desde 2008 é professor da UTFPR Câmpus Dois Vizinhos/PR, nos cursos de Engenharia Florestal, Educação do Campo, Agronomia e Zootecnia, com atividade docente voltada à silvicultura de espécies florestais nativas e exóticas em sistemas puros e integrados de produção(SAFs). Tem experiência na área de Recursos Florestais e Engenharia Florestal, com ênfase em Silvicultura e Sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, atuando principalmente nos seguintes temas: implantação e condução de florestas, sistemas agrosilvipastoris (ILPF), ciclagem de nutrientes em florestas naturais e plantadas, sequestro de carbono, silvicultura urbana, solos florestais, meio ambiente e ecologia de florestas, mudas florestais. Foi Coordenador do curso de graduação em Engenharia Florestal no período de 2008 a 2010. De 2010 a 2016 foi Tutor do Grupo PET Engenharia Florestal no Câmpus Dois Vizinhos, com diversas atividades de extensão universitária, pesquisa e ensino voltadas à sociedade. É líder de grupo de pesquisa do CNPq na área de Recursos Florestais. Entre 2015 e 2017 foi coordenador do Programa de Pós-graduação em Agroecossistemas da UTFPR Câmpus Dois Vizinhos.