12/02/2021

Padre José de Anchieta: santo ou algoz? Com a palavra, os indígenas

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12/02/2021 - Guilherme Lima Cardozo

Não é pouco comum, ao ouvir falar do padre jesuíta José de Anchieta, deparar-se com a alcunha de “Apóstolo do Brasil”, tendo em vista sua proeminência no processo de catequização e colonização cultural dos brasileiros. Todavia a dúvida que resta é se o padre realmente foi um “protetor” dos nativos, ou se, estrategicamente, colaborou decisivamente com o extermínio cultural dos povos brasis. A resposta exata nem a história – escrita majoritariamente pelos brancos colonizadores – pode nos dar. Apenas os próprios ameríndios, por meio dos registros sobressalentes, podem responder a essa questão.

A obra A crise do nome: Portugal e Brasil colonial sob a lente do perspectivismo conta a história da colonização no Brasil sob o ponto de vista dos indígenas, mas com as lentes nietzschianas do perspectivismo, o qual guia a interpretação do mundo por um caminho da vontade e dos desejos inerentes ao instinto. Escreve Nietzsche:

Até que a palavra ‘conhecimento’ tenha sentido, o mundo é cognoscível; mas este é interpretável de modos diversos, e não existe nele um sentido, mas inumeráveis sentidos. ‘Perspectivismo’. São os nossos desejos que interpretam o mundo: os nossos instintos com seus prós e contras. Cada instinto é uma espécie de sede de domínio, cada um deles possui a sua perspectiva, que sempre deseja impor como norma a todos os outros instintos (Nachlass/FP 1886-1887, 7[60], KSA 12.315).

Nesse sentido, o livro apresenta dois pontos de vista inteiramente divergentes acerca do processo de colonização política, cultural e espiritual dos povos brasileiros no século XVI (o do colonizado e o do colonizador), e o papel dos padres jesuítas é preponderante para que se entenda todo o processo de transformação social ocorrido no Brasil, desde a segunda metade dos 1500.

O título do livro levanta um viés menos linguístico do que filosófico acerca do tema em discussão: o papel dos nomes, dos atos de nomeação e dos batismos. Nem todos os que estudam a história da colonização do Brasil por Portugal exploram a temática do que se chama “estudo da onomástica”, ou seja, sobre os nomes. Os atos de nomeação eram um rito extremamente sagrado para muitos povos nativos, especialmente os da costa brasileira: muitos indígenas acumulavam nomes conforme os inimigos fossem mortos nas guerras de vingança, entre os mais diversos grupos. Para um nativo, ter muitos nomes significava muitos louros, casamento, status social, respeito dos mais antigos, e assim funcionava a sociedade: matando e morrendo nas guerras de vingança, angariando e cedendo nomes aos algozes necessários. Era o sistema.

Com a chegada dos jesuítas ao Brasil, esse processo corre sério risco: a tradição cristã vem pregar o perdão ao invés da guerra, a misericórdia em vez do ódio e o arrependimento como requisito primordial ao batismo, que aniquilará todos os velhos nomes em troca de um único (e último) nome cristão. Obviamente que essa ideia seria rechaçada violentamente pelos indígenas, já que a acumulação de nomes era como angariar riquezas. Aí inicia o papel essencial de José de Anchieta como tradutor e estudioso da linguagem: o jesuíta cria uma nova língua (o Tupi Jesuítico), uma gramática para o ensino desta e um novo imaginário cultural nessa nova língua, com novos nomes, novas figuras sagradas e a introdução do universo cristão na cosmologia nativa.

Para quem imagina que a relação entre indígenas e portugueses tenha sido pacífica, isso não passa de ledo engano ou inocência. Essa guerra simbólica, por meio dos processos de inovação linguística e onomástica, desencadeará o extermínio da cultura local, bem como de muitos grupos e valores ameríndios, em prol de uma pseudo língua brasileira, que nada mais foi do que a isca para a extinção de grande parte da tradição original brasílica.

Para saber mais sobre os bastidores polêmicos e efervescentes desse (des)encontro entre portugueses e indígenas brasis, conheça a obra A crise do nome: Portugal e Brasil colonial sob a lente do perspectivismo.


Guilherme Lima Cardozoé Doutor em Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica - PUC-Rio (2016), tendo sua pesquisa financiada pela CNPq; cursou Doutorado-Sanduíche (split PhD) na Universidade de Coimbra/Portugal (2016), com financiamento da CAPES; é Mestre em Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica - PUC-Rio (2013), sendo sua pesquisa financiada pela CAPES; possui graduação em Letras (Português-Italiano) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2009). Desenvolveu e participou de diversos trabalhos voluntários na área de Língua Portuguesa e Produção de Textos, com criação de oficinas de leitura e escrita. Recentemente, publicou o livro A questão da linguagem nas cartas de Paulo de Tarso, pela editora NEA (Saarbrucken/ALE), lançado na Universidade de Coimbra (POR). Atualmente é professor adjunto da Associação Carioca de Ensino Superior (UniCarioca) e professor auxiliar da Universidade Estácio de Sá (UNESA).