19/02/2019

Afinal, o que é Liberdade?

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19/02/2019 - Por: Tereza Erthal

 

Certamente nós nos experimentamos, e aos outros, como livres, organizando os nossos sentimentos e os nossos negócios, segundo esta noção. Todo comportamento voluntário decorre disso, assim como também o conceito de espontaneidade. Ao pensarmos em casar e ter filhos, ou em escolhas menores como erguer um braço, temos a sensação que depende de nós o que queremos fazer. Em todos os casos, temos a sensação de termos decidido livremente e que devemos aceitar a responsabilidade por essas escolhas e decisões. Elogios e culpas são distribuídos de acordo com elas. Contudo, tais experiências de liberdade estão em briga com argumentos que possamos usar para defendê-las. É bem difícil argumentar racionalmente sobre aquilo que apenas sabemos intuitivamente. Mas, no caso da liberdade e da consequente responsabilidade, algum tipo de embasamento racional é importante, pelo menos para ordenar nossos relacionamentos sociais.

Relacionamentos sociais estão previstos em lei e essas leis, por sua vez, repousam em nossas melhores teses sobre o que é certo e o que é errado fazer. Se não podemos defender a tese de que somos livres para escolher e responsáveis pelos resultados, capazes de discriminar entre o certo e o errado, agindo conforme essa decisão, estamos sendo fortemente dominados por alguma teoria entrante.

Toda discussão sobre livre arbítrio do homem tem sido encoberta pelo aspecto natureza humana ou pela ideia do lugar da humanidade no Universo. A eficácia, ou não, do nosso querer, e a questão de se de fato temos uma vontade, não são tidas como decorrentes daquilo que somos enquanto seres humanos. No passado, tais discussões corroboravam com o determinismo, indicando que a liberdade era uma ilusão. Os gregos chamavam tal determinismo de destino. Viam-se como bonecos de deuses caprichosos, que determinavam as tramas de suas vidas. (“Que destino cruel trouxe-me a este dever sangrento?”, próprio de uma tragédia grega.) Igualmente, a tradição cristã, especialmente protestante, era convencida de que nossas ações eram prefixadas. Haveria um plano divino por trás de todo o cenário de ações.

“É portanto fundamentalmente necessário e saudável que os cristãos saibam que Deus prevê, projeta e faz todas as coisas conforme Sua própria imutável, eterna e infalível vontade.” (Lutero, séc. VI).

Se formos honestos conosco, veremos que possuímos resquícios dessas influências hoje. Um exemplo disso são frases como: “estava destinado a acontecer”; “acontecerá, se Deus quiser” etc. A boa notícia é que essas noções de destino exercem pouco domínio racional sobre a mente moderna. Hoje a ciência nos diz sobre a causa das coisas, incluindo sobre o nosso comportamento. Na verdade, a ciência moderna minou nosso sentido de liberdade: pelo lugar que ela nos concede no Universo e pelo modelo dado para compreender nossa natureza humana. No universo morto de Newton, seres conscientes não têm papel para conter as forças cegas. A impotência humana faz nascer a fé cega, com perda da vontade (depressão e desespero). Nossa liberdade perde todo o sentido.

A negação da liberdade, decorrente da natureza impessoal e determinista da física clássica, reflete-se no determinismo histórico de Marx. Há um determinismo imposto de fora, por forças além do nosso controle.

Freud descobriu, na psique humana, leis e forças que espelham a física e a química de seu tempo:

Se toda atividade mental é resultado de forças mentais inconscientes que são instintivas, biológicas e físicas em sua origem, então a psicologia humana poderia ser formulada em termos de forças interagentes que eram em princípio quantificáveis, sem necessidade de recorrer a nenhuma ação vital mental integrativa, e a psicologia se tornaria uma ciência natural como a física. (Freud, em Rycroft; Psychoanalysis Observed, p. 13).

Assim, nessa visão, a psique é escrava de forças inconscientes, pois todo ato decisório é uma ilusão e a consciência não tem função. Freud contribuiu para esse tipo de pensamento, tanto na psiquiatria, quanto na psicoterapia, deixando uma marca formativa na mente popular.

As ideias de Freud e de Marx, de que nossa liberdade é refém do instinto ou da História, foram propagadas por muitos sociólogos, psicólogos e estudiosos afins. Ora, se procuro definir minha individualidade em termos clássicos, vejo-me como um emaranhado de neurônios, mas nenhum deles pode ser responsabilizado por qualquer ação que venha a desenvolver. Na física clássica fica difícil se quer dizer a palavra “liberdade”. A complexidade da causalidade é tão gigantesca que nem conseguimos sondá-la; ela está sempre presente.

Mas, na nossa visão, é impossível definir o ser humano sem confrontar o significado da liberdade. Se atentarmos para o conteúdo de nossa mente consciente em qualquer momento, assistimos a um arranjo de vários pensamentos possíveis. Essas áreas de pensamento são mais acessíveis ao adormecermos (ao entrarmos em contato conosco, depois de apagar o murmurinho do mundo, temos imagens do passado ou mesmo do presente, apontando coisas que temos que encarar), ou em estados de meditação, mas estão sempre presentes. Sem elas, não haveria base para fantasia e para imaginação. Cada ato de concentração é um ato de realização do pensamento. Quando focalizamos um pensamento, ele se torna a realidade clássica, ou figura, enquanto outros desaparecem no fundo, como sombra na noite.

Assim, cada ato de concentração expressa alguma forma de liberdade: nada determina sobre quais pensamentos possíveis iremos focalizar, contribuindo para a natureza indeterminada da escolha. Poderiam dizer que a escolha do possível seria determinada pelo alívio de uma situação e, por isso, não livre. Ledo engano. Por exemplo, se me vejo numa situação desconfortável, talvez me pegue pensando nela com a cabeça cheia de imagens sugerindo atos como gritar, quebrar o computador, parar de pensar nisso etc. Seja qual for a saída, ninguém poderá dizer que a escolha se deu devido ao desconforto, uma vez que todas as opções aliviariam tal sensação.O desconforto pedia apenas uma escolha e esta, em si, foi livre.

Respondendo com bom senso a muitas questões, sendo uma criatura racional, temos capacidade de analisar as situações e refletir sobre as suas consequências. Tanto minha liberdade, como minha responsabilidade, são vistas como provenientes de tal capacidade, e por isso negamos que os animais tenham livre arbítrio. Mas a liberdade é muito maior do que nossa fé no poder da razão! Temos o exemplo de quem quer parar de fumar: decide, invoca todos os pensamentos que demonstram quanto ruim é o ato para o organismo, mas logo depois o hábito, ou vício, vence a razão. Mas, num belo dia, para de fumar, sem nenhuma exigência. Escolheu parar. Fez sua escolha e agiu de acordo. Por quê? Nossa lógica não faz escolhas! Poderíamos dizer o contrário: são as nossas escolhas que estão associadas a um conjunto de razões ligadas a essas escolhas, que darão origem à nossa lógica. Ao fazermos uma escolha, temos uma razão para tal que a nossa lógica se utiliza para explicá-la. Essas explicações dizem algo a nosso respeito, mas não determinam a escolha em si. Precedeu a todos os “porquês”. Foi realizada num momento de liberdade e, como Kierkegaard diria, num “salto de fé”. Tal escolha é de minha responsabilidade apenas e já traz em si um fardo: faz-nos responsáveis por escolhas sobre as quais não temos pleno controle consciente (numa linguagem sartriana, uma consciência de primeiro grau).

Mas nada pode controlar a minha liberdade? Sartre diria que Não: eu sou a minha liberdade! Para exercer o controle da liberdade, pesamos as probabilidades. A probabilidade que algo ocorra está associada à quantidade de energia exigida para fazê-la acontecer. Somos livres para fazer qualquer opção, mas ao fazermos, geralmente escolhemos o mais fácil. Embora a razão não determine a escolha feita, desempenha um bom papel, pois as razões especiais, ligadas a qualquer conjunto de escolhas possíveis, influenciam a probabilidade de fazermos alguma escolha em especial. Então, a associação entre razão e escolha torna as escolhas corretas mais fáceis, mas não garante o resultado desejado.

O efeito de nosso estilo de vida, e de nosso histórico de escolhas passadas, também atua sobre o peso da probabilidade futura. Contudo, isso não significa determinismo, e sim influência. Geralmente, a “natureza” da nossa consciência leva-nos a fazer escolhas que exijam menos esforço e menos concentração. Isso é responsável pela criação de hábitos e imitações. O hábito é uma saída para os preguiçosos, com certeza. Contudo, o habitual também é necessário em nossas vidas. A habituação pode nos deixar livres para viver mais criativamente o que mais nos interessa. Mas somos sempre livres pra realizar escolhas que despendam até mais energia, assim como podemos ir contra as probabilidades.

O exercício da liberdade repousa no cerne do nosso significado enquanto indivíduos. O fardo da responsabilidade nos pertence e nem adianta negá-la. É a nossa liberdade que permitirá a nossa criatividade, chave para que nós, seres humanos, estejamos no Universo.