19/02/2021

A magia dos Contos de fadas

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19/02/2021 - Por: Maria José Paiva Moreira

Partindo das premissas de que a nossa vida é uma história que vai se desenrolando dia a dia e de que nossas aventuras pessoais são ricas em tramas e dramas, frustações e realizações, essas desencadeiam um turbilhão de emoções que precisamos gerir e lidar. Seguimos a cada dia escrevendo o roteiro da nossa própria história. Portanto, ler ou ouvir contos escritos por outras pessoas nos ajuda a pensar a nossa existência sob o ponto de vista do outro. Uma história pode desencadear muitas reflexões sobre nossos temores e/ou frustações. Além de nos convidar a visitar o lugar do outro, conhecer diferentes perspectivas e confrontá-las com a nossa nos permite efabular.

 Portanto, trago uma reflexão acerca da leitura de contos de fadas aos ouvidos miúdos como fator imprescindível ao imaginário infantil, uma vez que a maioria dos contos de fadas apresenta uma situação inicial de tranquilidade, que posteriormente é quebrada por uma perda ou falta, desencadeando toda a trama da história e, ao final, o bem sempre vence o mal e a paz é restabelecida.

Com o início desta pandemia, novas realidades emergem em diversas áreas e todas elas, direta ou indiretamente, respingam no cenário educacional, visto que as crianças foram as mais afetadas e as escolas fecharam suas portas, limitando a convivência social dos pequenos, tão somente, a seu meio familiar. Por mais que a escola tenha tentado chegar às casas, mediadas por recursos tecnológicos, as crianças perderam a interação com seus pares, a troca, o compartilhar de ideias que tanto enriquecem e fomentam a aprendizagem em todas as áreas; especialmente, perderam as rodas de leitura diárias, tão rotineiras em todas as salas de educação infantil e séries iniciais.

Diante do exposto, cabe a nós, enquanto pais ou educadores, voltar um novo olhar sobre as aprendizagens, especialmente da leitura, trazendo os contos de fadas de volta aos ouvidos dos nossos pequenos, não só para entreter ou incentivar o gosto pela leitura, mas como uma forma de aumentar a autoestima das crianças, mostrar que as dificuldades podem ser vencidas, ajudá-las a elaborar melhor os sentimentos negativos, tão comuns na infância, a lidar com o medo e a insegurança, o abandono e a frustação, a rejeição, a inveja, o sentimento de inferioridade, a raiva, a vingança etc. Sempre bom lembrar que quando as crianças se identificam com um conto ou trecho dele, pedem para ler e reler a história ou trecho diversas vezes até que consigam externar aquele sentimento que fora ecoado pelas linhas do texto.

Nunca antes na história as crianças tiveram exposição a tanta tecnologia. Assim, diante deste cenário, os tradicionais contos de fadas precisam ser trazidos de volta, pois jamais foram tão importantes e necessários na vida das crianças como agora. Urge que elas aprendam que, na vida real, as pessoas não são como as personagens dos desenhos e de jogos eletrônicos que quase nunca morrem, ou quando morrem, revivem. Só os contos de fadas têm esse poder de mostrar que na vida tudo tem um começo, meio e fim, de ajudá-las a discernir o certo do errado, o bem do mal, de renovar as esperanças e ensiná-las a lutar por seus ideais. Os contos de fadas sobrevivem ao tempo porque trazem valores e sentimentos que transpassam a história da humanidade e são imutáveis, falam direto na alma das crianças pela estrutura de sua narrativa e personagens que contribuem com ensinamentos sobre a essência da vida humana.

Além de divertirem as crianças, os contos estimulam sua curiosidade e potencializam suas competências linguísticas, cognitivas e de oralidade, e enquanto transmitem valores e fomentam reflexões acerca de sua realidade, permitem sonhar com um final feliz, mudar destinos e transformar realidades, ainda, revelam que é possível vencer obstáculos e sair vitorioso, desenvolvem a esperança no melhor que há por vir e incitam a lutar por seus ideais, por seu final feliz. Só os contos de fadas têm o potencial de proporcionar o desenvolvimento de tantos valores no rico terreno da infância, pois possuem significantes e significados de acordo com as vivências, dificuldades e necessidades de cada leitor/ouvinte. Um mesmo conto é capaz de mover estruturas totalmente distintas em cada leitor.

Além do mais, as crianças, enquanto brincam, efabulam o tempo todo, dão vida a personagens inanimados, conversam com amigos imaginários, representam papéis, criam cenários, imaginam figurinos e contextos, e fazem isso com muita naturalidade, pois brincar e interagir, para elas, é tão importante como se alimentar, o que acaba ajudando-as na compreensão de mundo, por isso, ouso dizer que os pequenos são verdadeiros mestres na arte da efabulação. Cabe às instituições escolares e às famílias aproveitarem essa característica natural das crianças para incentivarem o gosto pela leitura e a escrita, mesmo antes de estarem alfabetizadas.

Quer saber mais?  Leia: Do Conto ao Reconto: estratégias lúdicas no percurso da autoria.