06/04/2021

Por uma pedagogia consciente e solidária

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06/04/2021 - Marcelo Bomfim

Os meninos e as meninas de uma classe de 6º ano do ensino fundamental passaram a semana estudando, nas aulas de Ciências, questões relativas ao meio ambiente e aos recursos naturais. Como atividade final, foram instruídos pelo professor a apresentar um trabalho para ser exposto na semana seguinte pelos corredores da escola.

            Antônio optou por construir uma maquete que demonstrasse como as fábricas podem poluir os rios e o ar, bem como as consequências para os seres vivos geradas pela agressão à natureza. Para desenvolver seu projeto, ele procurou se organizar, escrevendo uma lista de materiais necessários, afinal o trabalho fecharia a média bimestral e ele não andava muito bem em Ciências.

            Outros estudantes tiveram ideias parecidas e decidiram criar cartazes, poemas, acrósticos, jornais, jogos e outras ideias que seriam realizadas de forma caprichosa e com aspecto atraente, como deveria ser para uma exposição.

            Maria Rita, no entanto, havia perguntado a todos os colegas sobre o que eles construiriam, porém não se sentiu atraída por nenhuma das ideias compartilhadas.

 Parte da sua desconexão com as ideias dos colegas se devia ao fato de ela morar em um bairro de características rurais, que a permitia andar um trecho a pé para acessar o transporte escolar e que não tinha por perto um lugar onde pudesse adquirir placas de isopor, cartolinas, cola, tintas e outros tantos materiais necessários para realizar projetos como os demais.

Mas, para além da dificuldade em acessar materiais, Maria Rita queria criar algo que fizesse sentido para ela.

            Na data da entrega dos trabalhos, os corredores da escola se transformaram em campos multicoloridos, onde cada componente buscava a aprovação de sua singularidade e importância na composição do ambiente de aprendizagem.

            O professor, junto à equipe da escola, passeava apreciando os cartazes com mensagens de proteção e atenção à natureza, jogos que instigavam o avanço ou recuo conforme as ações escolhidas, maquetes como a de Antônio, com miniaturas e detalhes bem realizados, desenhos com traços próprios à idade dos estudantes, poemas com suas rimas singelas em folhas arrancadas dos cadernos e margens desenhadas com esmero.

            Ao pararem para apreciar os trabalhos, os adultos perguntavam sobre a mensagem que os estudantes desejavam passar com aquele projeto e, um a um, todos repetiam alguns trechos dos textos estudados nas aulas de Ciências.

            O professor, por sua vez, se sentia bem consigo mesmo, afinal havia conseguido atingir seu objetivo:  a maioria dos estudantes havia aprendido a lição.

No entanto, algo o incomodava. De onde se encontrava ele podia observar que, mais adiante, Maria Rita oferecia um copo aos colegas e demais visitantes, enquanto, diante de si, havia apenas uma moringa e um papel com algo escrito. Percebeu também que alguns pegavam o copo, olhavam para o conteúdo, devolviam o copo e saíam um tanto desgostosos.

O professor concluía, ao longe, que Maria Rita havia inventado algo de última hora e que não tinha se interessado por nada do que ele ensinara.

Ao parar diante da menina, já com o semblante sério e contrariado, o professor perguntou onde estava o trabalho dela. Maria Rita mostrou a moringa e um pedaço de papel, em que se lia em letrinhas manuscritas com um capricho de criança: EXPERIMENTE A ÁGUA DE 2050.

Confirmando para si a suspeita de que a menina havia dado um jeito de improvisar algo por falta de aplicação ao trabalho proposto, o professor solicitou então que ela o servisse.

Maria Rita destampou a moringa, inclinou-a sobre o copo e nada saiu de dentro do recipiente. Imediatamente o mestre, um tanto bravo, pediu explicações à menina, que apenas respondeu: “ISTO É O QUE TEREMOS NO FUTURO SE CONTINUARMOS CONSUMINDO OS RECURSOS DA NATUREZA, COMO FIZEMOS HOJE, PROFESSOR.”.

A breve história acima escrita traz aspectos e relações que, cotidianamente, se estabelecem em escolas do nosso país.

O que podemos compreender é que o professor ministrou suas aulas, de forma geral, para toda a classe do 6º ano, utilizando-se de uma única estratégia pedagógica de ensino.

Em sua maioria, obteve a resposta esperada, porém Maria Rita fugiu à regra.

Não podemos afirmar qual foi o desfecho da história, porém um dos aspectos que mais nos chama a refletir diz respeito à compreensão de aprendizagem. Por exemplo: será que Maria Rita e Antônio aprenderam o que o professor se propôs a ensinar? Ambos aprenderam do mesmo jeito? Existe uma gradação de aprendizagem, de um mesmo objeto de conhecimento, que nos permita aferir se um estudante aprendeu mais e outro aprendeu menos? Se sim, como são definidas, grau a grau, a maior ou menor profundidade da aprendizagem de determinado assunto? Quem define tal escala? A escala muda de acordo com o objeto de conhecimento a ser tratado? Neste caso, em que ponto da escala estaria Maria Rita em relação a Antônio? No caso de um ter aprendido e o outro ter reproduzido as informações, será que todas essas questões estariam realmente resolvidas com a aplicação de uma prova? Quem se daria melhor em uma prova tradicional? O que é, realmente, a aprendizagem?

A educação escolar e a educação familiar, em que pesem suas claras diferenças, exigem consciência e, portanto, se definem como um ato.

No entanto, ter clareza de onde se quer chegar não basta e disso não se faz a consciência do ato educativo. É preciso mais. É preciso saber verdadeira e singularmente de onde se parte, qual o caminho a ser percorrido por cada um, quais os desafios a serem propostos a cada um, a colaboração que cada um pode dar no processo de socialização de ideias, quais as habilidades que serão desenvolvidas no processo e como tais habilidades desenvolvidas poderão auxiliar na transformação individual e coletiva daquela comunidade.

O desenrolar da história que abre este texto nos leva a pensar que o ato educativo não se faz por meio da apreensão da versão escolar de um determinado assunto, mas na capacidade de se conduzir o estudante por um caminho que o leve até a transformação da sua própria realidade, mesmo que ela seja, como no caso de Maria Rita, a opção consciente por não consumir mais recursos, na tentativa de alertar para a importância da preservação dos recursos naturais.

Assim sendo, o que é possível aferir na aplicação de provas que mensuram o desenvolvimento do estudante com valores entre 0 e 10, ou mesmo na apresentação de trabalhos aos moldes dos descritos na história, é o quanto o estudante é capaz de reproduzir das aulas assistidas.

Podemos dizer que se trata de um exercício narcisista do professor, que pretende se ver refletido nas respostas dos estudantes.

O ato educativo é muito mais amplo e exige do educador a imersão em uma pedagogia consciente, em que o objeto de conhecimento pode ser o caminho, mas não o fim da aprendizagem. Exige a imersão em uma pedagogia solidária, pois promover a riqueza da individualidade capaz de colaborar com a coletividade só é possível quando o professor se reveste da pele do estudante para compreendê-lo em suas dificuldades e potencialidades.

Para refletir mais sobre esse aspecto, sugerimos a leitura do livro “Movimento Asas: Um plano de voo para a educação integral”, que descreve as experiências vividas por educadores durante o exercício de implantação de uma pedagogia diversificada, solidária e democrática.


 

Marcelo Bomfim é artista-docente, bacharel e licenciado em Música Popular, pós-graduado (Latu-Sensu) em Musicoterapia e em Gestão Ambiental, contador de histórias, ator, ambientalista, tendo atuado como educador/consultor/palestrante em projetos socioeducacionais e pedagogias transdisciplinares de diversas instituições (Unicamp, Ufrn, Ufmg, Ufscar, Unicef, Sesc, Senac, Fundação Semco, Universidade Cândido Mendes, Universidad de Valparaíso, Rede Salesiana de Escola, entre outros).