09/04/2021

A pandemia do Coronavírus aprofunda as desigualdades entre homens e mulheres na produção científica brasileira

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09/04/2021 - Erineusa Maria da Silva 

Já se tornou bastante evidente, por diversos dados oficiais, que a pandemia do Coronavírus tem agido como uma lente de aumento sobre as desigualdades sociais, aprofundando-as fortemente. Exemplo disso é a violência contra as mulheres, uma das mais impactantes expressões dessas desigualdades, que teve um aumento substantivo em 2020. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), do balanço de dados sobre a violência contra a mulher recebidos pelos canais de denúncia do Governo Federal, em 2020, foram registradas 105.671 denúncias, contra um pouco mais de 90 mil no ano de 2019. Do total de registros, 72% são referentes à violência doméstica e familiar contra a mulher.

Outra expressão do aprofundamento das desigualdades é no caso da produção científica brasileira. Apesar de já sofrer com a perda em recursos públicos desde o ano de 2014, com a pandemia vemos que a produção científica foi afetada fortemente, principalmente quando é feito um recorte de gênero nos dados dessa produção. O impacto foi mais brutal para as mulheres. Se antes já podíamos perceber dissimetrias, a partir da pandemia elas pioraram bastante, pois foi quando a mulher passou a trabalhar compulsoriamente em home office e teve que assumir um verdadeiro pacote além desse trabalho. Muitas mulheres cientistas passaram a dar conta dos/as filhos/as, a acompanhar sua educação em casa, a cuidar das refeições, da limpeza da casa e das roupas, a cuidar de pais e mães adoecidos/as – sem contar ter que dar conta de suas próprias angústias advindas do momento de incertezas gerado pela pandemia.

Segundo dados de um levantamento feito pelo projeto brasileiro “Parent in Science”[1] com cerca de 2 mil acadêmicos/as, das mulheres sem filhos/as, 40% não conseguiram concluir seus artigos, enquanto ocorreu o mesmo com apenas 20% dos homens. Já dentre as mulheres com filhos/as, 52% não concluíram seus artigos, enquanto, na mesma condição, ocorreu com 38% de homens.

A revista de Ciências Sociais “Dados”, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj)[2], publicou um estudo que demonstra que, durante a pandemia, as mulheres estão escrevendo mais artigos científicos em coautoria, ao contrário dos homens. “A média de manuscritos com as primeiras autoras mulheres entre 2016 e 2020 foi de 37%, mas esse patamar caiu substantivamente para 13% neste trimestre. Além de o menor percentual histórico do período analisado, trata-se de menos da metade da média para os anos considerados”.

Essas desigualdades, no entanto, não são conjunturais, mas fazem parte das desigualdades estruturais forjadas pela cultura patriarcal. Como diversos estudos têm apontado, as desigualdades sociais de gênero, fruto de construção histórico-social, encontra na educação escolar um lugar privilegiado de desconstrução.

A educação de gênero tem sido apontada como uma possibilidade de provocar deslocamentos nessas construções. Apesar das disputas em torno dessa pauta na atualidade, gerando uma cruzada contra o próprio gênero, é possível notar um movimento pedagógico de gênero acontecendo nas escolas, em especial desde o início do século XXI. Fortalecer esse movimento certamente nos compele a caminhar na direção da desconstrução de relações desiguais de gênero e, quiçá, em uma produção científica mais igualitária entre homens e mulheres.

Para saber como as professoras têm produzido esse movimento pedagógico de desconstrução nas escolas leia: O movimento pedagógico de gênero nas escolas: o que e como fazem as professoras?, de Erineusa Maria da Silva.

[1] Para mais informações, ver em:  https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/05/26/pandemia-pode-acentuar-disparidade-entre-homens-e-mulheres-na-ciencia.htm?cmpid=copiaecola&cmpid=copiaecola

[2] Para mais informações, ver em: http://dados.iesp.uerj.br/pandemia-reduz-submissoes-de-mulheres/


Erineusa Maria da Silva – é capixaba, doutora e mestra em educação pelo PPGE/Ufes. Professora e coordenadora da licenciatura em Educação Física do Cefd/Ufes. Coordenadora do Núcleo Interinstitucional de Estudo e Pesquisa em Gênero e Diversidade (Nupeges) e autora do livro O movimento pedagógico de gênero nas escolas: o que e como fazem as professoras?.