12/03/2019

Educação Profissional (para quê?)

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12/03/2019 - Por: Sara Rozinda Martins Moura Sá dos Passos

 

Como está se desenvolvendo a educação de nossos jovens? Que tipo de escola eles estão frequentando? Não posso responder por todas as regiões brasileiras, mas na periferia do Rio de Janeiro, sobretudo na Baixada Fluminense, os jovens estão abandonando a escola. Em todos os municípios periféricos, as escolas públicas que antes possuíam cursos noturnos abarrotados de alunos, hoje estão vazias. Estão fechando à noite porque não têm mais alunos.

Muitas são as razões para este fato: a violência que campeia livremente pela Baixada. Jovens são baleados dentro de escolas, na saída ou na entrada. Uma violência diária e gratuita; o recrutamento de jovens pelo tráfico com a promessa de uma vida melhor, com grande acesso aos bens de consumo; o envolvimento de adolescentes com homens ligados ao tráfico e a consequente gravidez precoce. Os cursos noturnos destinam-se aos jovens e adultos que trabalham durante o dia e que querem dar continuidade aos estudos. Contudo é um modelo escolar que não agrada, pois mesmo os cursos técnicos priorizam a teoria à prática. Se a escola não tem significado para os alunos, eles a abandonam. Simples assim.

Nesse contexto, vislumbro como uma solução para os jovens da periferia o oferecimento da educação profissional, considerando que educação, ciência e tecnologia são fatores que formam a base do desenvolvimento das nações em todo o mundo. A busca por esse desenvolvimento exige profissionais qualificados, com formação educacional adequada e capacitação para operar equipamentos sofisticados. Sendo assim, a educação profissional apresenta-se como elemento estratégico para a construção da cidadania e para melhor inserção de jovens e trabalhadores no mundo do trabalho, repleto de grandes transformações e marcadamente tecnológico.

É importante destacar que não se trata de uma educação profissional concebida como simples ajustamento às demandas do mundo do trabalho, ou pior, como política assistencialista aos pobres e desvalidos da sorte, como já ocorreu. Quero evidenciar a necessidade de uma educação profissional estratégica, que atenda a jovens e adultos interessados no saber-fazer operacional e tecnológico.

O discurso educacional dominante, no que tange ao binômio educação-trabalho, visa à substituição do trabalho mecânico, repetitivo e sistemático (fordismo/taylorismo) pelo trabalho com características mais criativas, inovadoras, empreendedoras, com uso de tecnologia (toyotismo). Ou seja, refiro-me à educação profissional que objetiva o trabalhador polivalente, multi-habilitado, portador de conhecimentos mais elevados e traços comportamentais exigidos pelo trabalho participativo e cooperativo. Assim, não se trata só do saber, mas também de saber-fazer e saber ser pessoa e profissional.

Nesse sentido, é importante destacar três fatores. Primeiro, a elevação da escolaridade e da qualificação profissional é de importância inquestionável para que os cidadãos enfrentem as mudanças ocorridas no modo de produção capitalista, e isso vai exigir que a ação e a prática docente a ser oportunizada em sala de aula seja crítico-transformadora, visto que não se pretende uma educação profissional neutra, ingênua, apolítica, simplista ou descontextualizada. Segundo, as relações entre educação, trabalho e formação profissional não podem ser vistas como soluções capazes, por si mesmas, de gerar empregos ou alavancar processos econômicos. “Novos empregos são gerados quando há políticas adequadas de crescimento das economias e por novos investimentos produtivos”1. Novos postos de trabalho e o aumento do número de empregos dependem, entre outros fatores, de processos estruturais de organização da produção, da estrutura do mercado de trabalho, da estrutura ocupacional e dos mecanismos macroeconômicos e políticos que regulam o funcionamento das economias capitalistas nos âmbitos nacionais e internacionais. São os mecanismos de crescimento econômico, como por exemplo: as políticas de desenvolvimento, de criação de novos empregos, de distribuição de renda, que criam novos postos de trabalho e até mesmo novas ocupações. Terceiro, a questão da empregabilidade diante de tanto desemprego.

Nessa linha de argumentação, a formação profissional (enquanto prática social) é uma realidade condicionada e determinada, e não condicionante de qualificação social para o trabalho e para o emprego. A relação entre educação e trabalho acontece num contexto histórico de movimentos contraditórios, pois, ao mesmo tempo em que convivemos com grandes transformações no campo da tecnologia e das formas de comunicação, convivemos também com o aumento do desemprego e da diversificação das especializações, com a redução de oportunidades de emprego estável e com a proliferação do emprego temporário e por conta própria.

Para Kuenzer2, muitos confundem a relação entre educação e trabalho com a relação entre escola e trabalho, como se o processo de produção e reprodução do conhecimento ocorresse no interior da escola. Essa falácia, segundo a autora, precisa ser desmistificada. O saber profissionalizante não é produzido na escola, mas no interior das relações sociais em seu conjunto. O ponto de partida para a produção do conhecimento são os homens em sua atividade prática, ou seja, em seu trabalho, compreendido como todas as formas de atividade humana através das quais o homem apreende, compreende e transforma as circunstâncias ao mesmo tempo em que é transformado por elas.

Portanto, o lócus da produção do conhecimento para a formação profissional está nas inúmeras formas de produção e distribuição do saber, resultantes do confronto cotidiano do homem com o modo de produção, que apresenta questões que o obrigam a desenvolver formas próprias de pensar e fazer, experimentando, discutindo, analisando, descobrindo. É no modo de produção que o trabalho é, ao mesmo tempo, determinante de qualificação e de desqualificação do trabalhador.

Segundo Kuenzer3, a escola é apenas uma parte neste conjunto de relações responsáveis pela produção e distribuição do conhecimento. Ela não é depositária do saber científico e tecnológico de ponta, dominado pelo capital; quando muito, ela democratiza alguns princípios teóricos e metodológicos que poderão, no exercício do trabalho, permitir essa apropriação. Dificilmente a teoria aprendida na escola corresponde à dinamicidade que acontece no mundo do trabalho.

Muitos são os teóricos que estudam a relação entre educação e trabalho, evidenciando a escola como aparelho ideológico. Gonzalez (1996)4 destaca Gramsci como referência obrigatória, devido à sua crítica à dualidade do sistema de ensino – uma escola profissionalizante para os pobres e uma escola propedêutica para os ricos – aspecto em que se sintoniza com as ideias de Weber, para quem a educação não se restringe ao espaço da escola, que é reconhecida como aparelho ideológico. Também Bourdieu denuncia a limitação dos alunos oriundos das classes desfavorecidas, escancarando a desigualdade social e discutindo a educação sob a perspectiva sociológica da reprodução.

Não é meu objetivo desfiar um rosário com todas as contribuições acadêmicas dos autores, mas pontuar as mudanças que ocorreram no mundo e que ocasionaram transformações no modo de produção (trabalho), na educação e, sobretudo, na formação profissional. Dentre outros fatores, destacamos o grande salto tecnológico por meio da automação, da robótica e da microeletrônica; a mundialização dos mercados; a deslocalização da produção para outros mercados; a multiplicidade e a multiplicação de produtos e serviços; a tendência à conglomeração de empresas; a mudança na forma de concorrência e a cooperação interindustrial (parceria estratégica entre empresas). Esses fatores contribuíram para as transformações dos modos de gestão do trabalho e, consequentemente, exigiram mudanças na formação profissional.

Hoje, a formação de um trabalhador é polivalente. São exigidas muitas competências que se constroem sobre uma ampla base de educação geral. É uma formação que tem por finalidade contribuir para a superação da dualidade entre trabalho intelectual e trabalho manual, alcançando-se, assim, a formação integral, mediante a inserção do processo educativo nas relações sociais e a participação ativa e consciente dos que nele atuam (professores e alunos) no processo de transformação social.

Assim, entendo o trabalho como princípio educativo, em que a educação pode atingir todos os indivíduos sem distinção de classe. Ou seja, uma educação profissional que visa não só a preparar o profissional competente, mas também o cidadão socialmente responsável e o sujeito-político comprometido com o bem-estar coletivo.

Pelo exposto, quero enfatizar dois pontos. Primeiro, que o estreitamento das relações entre educação e trabalho, entre poder público e instituições de educação profissional, estabelecendo parcerias, é um caminho possível e viável, desde que exista vontade política para se gerar ações afirmativas para oportunizar a educação profissional e a redução das desigualdades sociais, fator muito importante para o desenvolvimento dos municípios da Baixada Fluminense. Isso pode e deve ser feito. Segundo, que é preciso superar a prática pedagógica de uma educação profissional que dicotomiza os conteúdos (conhecimentos a serem transmitidos) e a experiência dos educandos, configurando um hiato entre conhecimento e vida prática. Uma educação profissional significativa para os alunos.

Uma vez que não tenho como resolver os problemas que perpassam a segurança pública, vou ater-me à causa da evasão escolar devido a pouca significância da escola, especialmente a noturna. Urge que essa escola traga uma proposta inovadora, efetiva e eficiente, que rompa de uma vez por todas com as práticas conservadoras, acríticas, descontextualizadas, ingênuas e simplistas. E mais! Com o desenvolvimento de aulas em oficinas de aprendizagem, em laboratórios específicos, com a utilização de workshops. Aulas interativas com desenvolvimento de projetos integrados. Trabalhos interdisciplinares que possam promover a integração entre teoria e prática por meio da metodologia de projetos e da resolução de problemas. E, principalmente, com professores que se percebem como orientadores dos processos de aprendizagem, isto é, como aqueles que articulam e mobilizam conhecimentos, valores, comportamentos, habilidades, ferramentas e atitudes para a resolução de situações-problema encontradas no mundo do trabalho.

Em suma, a educação profissional tem dupla missão: formar cidadãos e, ao mesmo tempo, formar mão de obra qualificada para o mercado de trabalho, resgatando pessoas excluídas desse exigente mercado (baixa escolaridade ou ausência de formação profissional adequada).

Se não for assim, o que resta aos jovens e adultos da periferia?

 

1MORAES, Carmem Sylvia Vidigal. O que há de novo da Educação Profissional no Brasil. Trabalho & Educação – Revista do NETE, Belo Horizonte, n.3, jan/jul, 2001.
2KUENZER, Acácia Zeneida. Ensino de 2º Grau: o trabalho como princípio educativo. São Paulo: Cortez, 1998.
3Idem.
4GONZALEZ, Wania R. C. Competências: uma alternativa conceitual? Rio de Janeiro: SENAI-DN/CIET, 1996.


Sara Rozinda Martins Moura Sá reside no Rio de Janeiro, é doutora e mestre em Educação, licenciada em Pedagogia e Letras (Português-Literatura), professora efetiva aposentada do município e do estado do Rio de Janeiro. Diretora e Coordenadora Pedagógica em instituições públicas e particulares, envolvendo desde a educação infantil ao ensino superior. Projetou e implantou cursos técnicos na rede pública e particular. Membro do conselho editorial da Revista Ensaio: avaliação e políticas públicas em educação/RJ e consultora técnica do Colégio Renovação, em Vitória/ES. Tem artigos acadêmicos publicados em anais da Reunião Nacional da ANPEd, simpósios nacionais e internacionais da ANPAE e nos encontros do ENDIPE.