23/04/2021

Artes marciais e artes cênicas: onde elas se encontram?

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23/04/2021 - Débora Zamarioli

Antes de responder à pergunta título deste texto, temos que olhar para as transformações que ocorreram no teatro russo e europeu ao longo do século XX, as quais influenciaram significativamente a preparação e formação dos atores e atrizes ocidentais na contemporaneidade: a modernidade, as grandes guerras, as revoluções, os sofrimentos e anseios desse período histórico influenciaram sobremaneira a forma de se pensar e de fazer teatro, construindo as bases para muitas das práticas desenvolvidas ainda hoje no ocidente. É com o ator, encenador e pedagogo russo Constatin Stanislávski (1863-1938) que vemos florescer a área que conhecemos hoje como Pedagogia Teatral . Contemporaneamente, este é um campo plural composto por diversas práticas e discursos. No entanto, é possível identificar que a partir de Stanislávski diferencia-se a prática do ator/atriz sobre si mesmo(a) e o espetáculo. Ou seja, habilidades solicitadas ao ator e à atriz para a criação de um espetáculo ou de uma personagem, tais como precisão corporal e vocal, concentração, atenção e tempo-ritmo, são treinadas e aprimoradas nos encontros com os(as) diretores(as), mas também, tornam-se elementos a serem observados e desenvolvidos no dia a dia dos(as) intérpretes. De maneira geral, podemos compreender que a grande inovação legada pelo diretor russo foi a sistematização desse trabalho contínuo do ator e da atriz sobre si mesmo(a).
 
Na jornada moderna de inovação e renovação da linguagem teatral europeia, ao longo do séc. XX, diversos diretores encantaram-se e buscaram inspiração no encontro com diferentes filosofias e formas do teatro oriental. Para desenvolver seu sistema de preparação de atores e atrizes, Stanislávski aproximou-se de conceitos e práticas do Yoga. O encenador e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) desenvolveu a teoria do “efeito de distanciamento” influenciado pela Ópera de Pequim, em especial pela interpretação do ator chinês Mei Lanfang. O ator e teatrólogo francês Antonin Artaud (1896-1948) encontrou no teatro tradicional balinês seu anseio para a construção de uma nova linguagem baseada em signos e não em palavras.
 
Na esteira desses deslocamentos interculturais, já na segunda metade do séc. XX, o diretor italiano Eugenio Barba (1936) inaugurou o campo de estudo da Antropologia Teatral: é aqui que as artes cênicas ocidentais e as artes marciais orientais aproximaram-se e criaram novas perspectivas para a preparação de atores e atrizes de teatro no ocidente. Em resumo, a Antropologia Teatral se debruça sobre o território empírico dos problemas do(a) ator/atriz, isto é, sobre as bases materiais que constroem o treinamento para que atores e atrizes criem ações, personagens e espetáculos. De acordo com Barba, “a antropologia teatral é, portanto, o estudo do comportamento sociocultural e fisiológico do ser humano numa situação de representação” . A partir da observação e da vivência em diversas formas dos teatros tradicionais codificados da Índia, China e Japão, por exemplo, o diretor italiano reuniu “princípios comuns” das técnicas corporais destas linguagens estrangeiras com a finalidade de compreender o que governa a vida do ator e da atriz em cena.
Esta vasta e rica experiência de treinamento de atores e atrizes se espalhou por diversos países do ocidente e influenciou fortemente pesquisas, linguagens, cursos de formação e formas de preparação de intérpretes para o teatro. Diretores(as) e pedagogos(as) que tinham treinamento em artes marciais orientais começaram a experimentar sistemas de luta ou a extrair princípios desses sistemas que pudessem auxiliar no treinamento de habilidades cênicas. As artes marciais orientais foram, então, integradas ao treinamento e formação de atores e atrizes ocidentais com a finalidade de obter habilidades de controle psicofísico, tais como concentração, foco, coordenação, flexibilidade, imaginação, equilíbrio, união corpo-mente, além de desenvolver a atuação não realista e as ideias de qualidades de presença e de energia, ou ainda, como treinamento e ferramenta para cenas de combate cênico.
No entanto, no final do século XX e início do século XXI a área de treinamento em atuação começa a ser repensada pela perspectiva dos estudos críticos e interculturais, questionando relações de poder, gênero, corporeidade e modos de existência. Dessas diferentes correntes de pensamento, as artes marciais, em conjunto com Yoga e meditação, passam a ser objetos de estudo filosófico dentro da área teatral. É nesta seara que o livro Uma atriz em cultivo pelas artes marciais insere-se e traz um novo olhar para o diálogo entre artes marciais orientais e o trabalho do ator/atriz sobre si mesmo(a) no contexto contemporâneo.
 
A obra escrita por uma atriz, praticante e instrutora de Kung Fu distancia-se da aplicabilidade visível das artes marciais orientais na construção de personagens e linguagens teatrais para se aprofundar no invisível das transformações que ocorrem no espírito e na personalidade do(a) ator/atriz-artista marcial. Trata-se do processo alquímico de cultivar a si mesmo(a) por meio do treinamento marcial, pois este se torna um modo de existência. Propõe-se um mergulho no pensamento cosmológico, filosófico, ético, político e corporal do sistema de luta do Kung Fu estilo Choy Lay Fut. 
 
Desde as proposições do mestre russo até hoje, os exercícios teatrais estenderam-se para a vida cotidiana do ator/atriz que se disponibiliza a passar por um tipo de educação e melhoramento de si mesmo(a) para a realização da cena teatral e para além dela. Ao longo do tempo, esta observação sobre si mesmo(a) começou a adquirir uma atitude ética por parte do(a) atuante, que passou a cultivar suas ações cotidianas para a melhor convivência em sociedade, aprimorando-se em sua “humanidade”. Quando se vive o caminho das artes marciais orientais com regularidade, permanência e determinação, modificações profundas acontecem nas formas de encontro consigo mesmo(a) e com o(a) outro(a). E o que é o teatro senão formas especiais de encontro entre humanidades? No deslocamento cuidadoso e responsável das artes cênicas para as artes marciais há a possibilidade de cultivar nossa humanidade e a de construir encontros transformadores entre atores, atrizes e o público.
 
Referências
BARBA, E.; SAVARESE, N. A Arte Secreta do Ator: dicionário de antropologia teatral. Campinas: Hucitec e Universidade de Campinas, 1995.
 
ICLE, Gilberto. Pedagogia teatral como cuidado de si: problematizações na companhia de Foucault e Stanislavski. Reunião Anual da ANPEd (30: 2007: Caxambu) ANPEd : 30 anos de pesquisa e compromisso social. Caxambu, Anais [...]. Caxambu: ANPEd, 2007.

Para ler mais sobre o encontro das artes cênicas e artes marciais te convidamos para a leitura da obra da autora link.  


Débora Zamarioli é Doutora em Teatro, mestra e graduada em Artes Cênicas, docente do curso de graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal de Santa Catarina. Instrutora e praticante de Kung Fu estilo Choy Lay Fut e Wu (Hao) Tai Chi.