22/04/2021

“Tia, me ajuda?”: ser mulher e professora na sociedade machista

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22/04/2021 - Lara Marin

Tia, me ajuda?”. Essa simples frase proferida por uma criança no ambiente escolar nos parece normal à primeira vista, mas ela nos revela traços machistas da sociedade em uma instituição que escancara diariamente aos estudantes a desimportância social do cuidado e a desvalorização da mulher profissional.

Comecemos pelo termo “tia”. A normalidade dessa inocente expressão que nos parece apenas uma demonstração de afeto infantil mostra o quanto ainda pensamos na professora como uma cuidadora da família, uma auxiliar materna ou, para os ricos, uma babá de luxo, que é presenteada com um “muito obrigado” quando o boletim está impecável, mas criticada em meio a notas abaixo da média.

Ninguém chama uma advogada, uma médica, uma empresária, uma chef de cozinha de “tia”. Paulo Freire já nos alertava o quanto essa expressão remonta a uma ideia que diminui o profissionalismo de professoras que passaram quatro anos de suas vidas em faculdades e estágios para estudar, observar o fazer pedagógico e atuar de forma tão séria e responsável quanto a de outras profissões.

Além disso, transmite a ideia de que educar é somente cuidar. O “me ajuda” somado ao “tia” ilustra a função das professoras para o cuidado de crianças e jovens. Cuidar faz parte, sim, da educação e é também tarefa das professoras, pois elas sabem que é por meio do cuidado com o outro que ensinamos as coisas do mundo, seja Português, Matemática ou os comportamentos sociais e a coletividade.

Cuidar é humanizar. As professoras têm plena consciência de que cuidar e ensinar fazem parte daquilo que é educar uma criança ou um jovem para esta sociedade carente de relações humanas. No entanto, justamente por serem reconhecidas como as mulheres que cuidam, ensinam, educam e formam os sujeitos sociais, essa tarefa parece ser desprezada pela sociedade.

O cuidado, também por ser associado à maternidade, caminha de mãos dadas com a desvalorização profissional das professoras, justamente por essas posições serem historicamente do sujeito feminino. Ser mulher torna-se o centro da desvalorização da educação. E é aí que está o machismo. O cuidar não deve estar associado às mulheres, e garantir isso é tarefa de toda a sociedade se quisermos que ela seja mais respeitosa e humana.

Da mesma forma, devemos respeitar as professoras que estão cansadas de ser presenteadas com falta de reconhecimento profissional, questionamentos descabidos, salários baixos e uma rouquidão extrema de tanto gritar para serem ouvidas sem sucesso ou de terem sua voz ignorada ou traduzida por homens – aqueles que evitam cumprir seu papel de cuidador, já que “isso é coisa de mulher”, mas que, mesmo assim, proferem seus discursos com superioridade na área educacional, julgando escolhas e ações de professoras.

É essa a ideia que fica estampada para os estudantes que crescem diariamente vendo as mulheres à sua volta serem desvalorizadas duplamente por sua profissão e por seu gênero. Enquanto a mulher professora não for reconhecida, respeitada e ouvida como profissional, estaremos colaborando para a manutenção da sociedade machista.

São Paulo, 2 de março de 2021.

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Lara Marin é mestre em Estudos Culturais pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e autora do livro A Cultura nos Livros Didáticos (Editora Appris). Além de sua atuação como pesquisadora, é autora de projetos e materiais didáticos desde 2008.