04/05/2021

Sentidos e Desafios do “Viver com HIV”

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30/04/2021 -   Felipe Cazeiro

Historicamente, as infecções por HIV e a epidemia de aids no continente americano e europeu foram construídos a partir de um amplo repertório moral e estigmatizante. A máxima sustentadora do prenúncio da infecção foi pautada por uma articulação jornalístico-biomédica-midiática que veiculou o HIV como “Câncer Gay” nos Estados Unidos e na França, e “Peste Gay” ou “Peste Rosa” no Brasil por conta da incidência majoritária em homens homossexuais. Tal consigna foi registrada e autenticada também, pelo campo médico, como GRID – Gay Related Immune Deficiency (CARRARA & MORAES, 1985; DANIEL & PARKER, 1991; CAMARGO JR., 1994; BASTOS, 2006).


Diante dessa veiculação e até que se houvesse uma compreensão mais fidedigna sobre esse vírus, que ainda era desconhecido e resultante de um grande pânico moral, social e sexual, muitas violências e violações foram cometidas por todo o planeta.


Desse passado aterrorizante aos dias atuais, muito se avançou no campo científico e biomédico no que tange a fisiopatologia do HIV, suas formas de infecção e transmissão, e para que se pudesse desenvolver melhores e mais eficazes formas de tratamento, prevenção e profilaxias. Paralelamente, tal avanço não se estendeu ao campo social, pois não foi furtivo em eliminar o estigma que acompanha o HIV/aids nestas quadro décadas de epidemia, criando barreiras à saúde, educação, para a adesão ao tratamento e informação sobre o HIV, para as práticas de testagem, prevenção combinada e profilaxias, e especialmente para o controle e incidência do HIV em populações em situações de vulnerabilidade social (OPAS/OMS, 2017).


Neste sentido, o estigma da aids configura-se como um dos principais determinantes sociais da saúde impactando as condições reais de existência frente a essa condição e suas respostas: Uma questão social muito mais do que biomédica! O preconceito e a discriminação seguem atingindo as pessoas que vivem com HIV, segregando-as nos espaços sociais propiciando uma vida mais sozinha, alheia e anônima.


No caso da população LGBT+, principal população atingida pela epidemia da aids nos 80 e muito recorrente no imaginário social do estigma da aids, além de lidarem com o fator da discriminação do HIV também lidam com o preconceito em relação à sua identidade de gênero e orientação sexual, caracterizando o que podemos chamar de um duplo estigma ou estigma suplementar.


Após quatro décadas da identificação dos primeiros casos do que posteriormente foi classificado e identificado como HIV/aids, ainda se faz necessário estabelecer ações que consigam superar o estigma e a discriminação que persegue, em várias partes do mundo, as pessoas soropositivas, transformando a aids-epidemia em uma aids-social.


Portanto, reconhecer e promover o espaço da temática da sexualidade e do gênero, das questões étnicas e raciais, bem como das infecções e respostas ao HIV considerando os distintos marcadores sociais da diferença, a partir de um resgate histórico, é também humanizar a aids e possibilitar maiores avanços na construção de novas histórias e abordagens, que permitam transformar a visão e a intervenção sobre o que as pessoas entendem dessa “doença”.
Esse reconhecimento promove o “entre-lugar” de intersecção em que o “velho” e o “novo” se encontram para então (re)criarem outras linguagens e realidades possíveis, visto que, como nos lembra Antônio Bolívar (2007), “é contando nossas próprias histórias que damos a nós mesmos uma identidade. Nós nos reconhecemos nas histórias que contamos sobre nós mesmos”.
Mas que história se quer contar no futuro? Ou, então, que prelúdio se almeja para as próximas décadas – da vida – com o HIV? Antônio Bolívar (2007) nos ajuda a responder a essa questão afirmando que a possibilidade de constituição dessa história está na integração entre ela e todos os componentes – ou seja, sem a exclusão do passado que a pessoa considera essencial para descrever, compreender ou representar a situação atual e enfrentar prospectivamente o futuro.


Quiçá esse seja um primeiro passo para promover mudanças nas práticas instituídas de segregação, discriminação, violência e ausência de direitos. Quando aqueles que padecem narram, eles são ouvidos e reconhecidos em suas vulnerabilidades. Precisamos ouvir o que têm a dizer as pessoas que vivem com HIV, os sentidos e desafios de existência no mundo com essa condição.

Assim, para saber mais sobre o tema, conheça a obra Por um manifesto pela vida: histórias posit(HIV)as de gays, mulheres trans e travestis.


Referências

BASTOS, F. I. Aids na terceira década. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2006.
BOLÍVAR, A. O esforço reflexivo de fazer da vida uma história. Pátio, Porto Alegre, ano 11, n. 43, p. 12-15, ago./out. 2007.
CAMARGO JR., K. R. Aids e a Aids das Ciências. História, Ciências, Saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 35-60, 1994.
CARRARA, S.; MORAES, C. “Um mal de folhetim”. Comunicações do Iser, Rio de Janeiro, v. 4, n. 17, p. 28-31, 1985.
DANIEL, H.; PARKER, R. Aids: a terceira epidemia. São Paulo: Iglu, 1991.
OPAS/OMS. Folha informativa – HIV/aids. [online]. OPAS – Organização Pan-Americana de Saúde (Brasil). 2017. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5666:folha-informativa-hiv-aids&Itemid=812. Acesso em: 15 jan. 2020.

 


Felipe Cazeiro Doutorando e mestre em Psicologia (UFRN), graduado em Psicologia (UFMT), psicólogo, pesquisador na Aids Healthcare Foundation (AHF – Brasil) e professor-orientador na Maestría em Estado, Gobierno y Políticas Públicas na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso – Brasil). Atua na promoção da saúde e cidadania de pessoas LGBTQIA+, população negra e pessoas vivendo com HIV/aids.