06/05/2021

Manifestações brasileiras pós-2013: liderança da massa ou auto-organização da multidão?

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04/05/2021 -  Giselly Guida Leite

O livro reflete sobre o modo como as manifestações brasileiras ocorridas a partir de 2013 se organizaram. A principal característica explorada exaustivamente pelo discurso hegemônico sobre as manifestações foi a ausência de liderança representativa capaz de disputar universalmente as pautas do movimento. A pergunta que proponho é se estamos diante da organização da massa ou da auto-organização da multidão. Para tanto, convém discernir o que é massa e o que é multidão, ressaltando suas diferenças específicas.

Massa é um constructo moderno dos séculos XVIII e XIX que corresponde às mudanças sociais. Assim, é um termo que se refere à demanda de mão de obra das indústrias nascentes. A massa de trabalhadores era gerida por um líder-supervisor que visava à reprodução do trabalho organizado uniformemente. A tendência desde a modernidade, séculos XVIII e XIX, foi interpretar negativamente os afetos como patológicos, criminosos e violentos. Disso decorre a crença de que movimentos sociais devem ser organizados racionalmente por um líder que conduza a massa. No entanto, são os afetos que constroem o sentimento de pertencimento, o reconhecimento da injustiça e o sentimento de exclusão.

Multidão é um termo que corresponde às diversas mudanças ocorridas no modo de vida contemporâneo, são elas: desnaturalização das hierarquias; novas tecnologias de comunicação – a internet; mudanças nas relações de trabalho; mudança nas relações de poder; e globalização. A multidão é auto-organizada pela pluralidade de singularidades que tendem a ser conduzidas mais pelo afeto. E por interpretar positivamente os afetos, o conceito de multidão resiste a ser reduzido às massas perigosas que ameaçam a ordem social. Esse constructo, portanto, valoriza a autonomia dos participantes, a auto-organização e o processo democrático de disputa nas relações de poder.

Entre pesquisadores, as opiniões divergem sobre as manifestações brasileiras iniciadas no ciclo de manifestações pós-2013 que podem ser organizadas em dois posicionamentos:

  1. Posicionamento progressista que valoriza a liberdade aproximando a interpretação das manifestações como auto-organizada pela multidão. Esse posicionamento contemporâneo interpreta positivamente os afetos.
  2. Posicionamento regressivo e conservador que interpreta as ações coletivas como massa que ameaça a ordem social, justificando a intervenção de repressão pelo poder hegemônico. Esse posicionamento conservador decorre da interpretação negativa dos afetos.

O resultado da minha pesquisa afirma que a tendência das manifestações é serem auto-organizadas pela pluralidade de singularidades que são direcionadas mais pelos afetos do que por um líder. Um exemplo disso foi a decisão de muitos brasileiros em se engajar nas manifestações de 2013 e outras depois de 2013 mobilizados pelo sentimento de solidariedade aos manifestantes que sofreram violência nas ruas. Assim, a tendência é valorizar a interpretação positiva dos afetos favorecendo a construção do sentimento de pertencimento.   

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Giselly Guida Leite é mestre em psicologia social e doutoranda em filosofia na UERJ.