13/05/2021

Os lineares da exposição, da contaminação, da proteção e seus limites

Tags: BLOG

12/05/2021 - Isabel Cristina de Abreu Fochesato

Contaminação. Em virtude da pandemia da Covid-19, essa palavra ficou cada vez mais recorrente em nosso cotidiano no último ano e o medo de nos contaminar alterou a forma como o mundo vive. Um vírus de altíssima contaminação, que pode causar a morte, fez com que tivéssemos que recalcular rotas, cessar contato físico e pausar projetos. As relações tiveram que ser revistas. A segurança e a proteção da população e dos profissionais essenciais tiveram que ser colocadas em primeiro lugar, para tentarmos conter a disseminação da doença.

Recentemente, a Netflix lançou o filme “Radioatividade”, abordando os feitos da cientista Marie Curie, os quais também estão relacionados à exposição e à contaminação. A cientista descobriu a existência de um novo elemento químico: o rádio. Contudo, manuseou o elemento em seu laboratório durantes anos sem saber de sua toxidade e alto poder de contaminação. O rádio, se utilizada de maneira correta, pode ser bastante eficaz no tratamento de câncer, por exemplo, porém, se utilizada por outro viés, pode se tornar uma arma nuclear capaz de matar milhares de pessoas em poucos segundos.

Nessas duas situações expostas, a contaminação é perceptível de uma maneira concreta e objetiva, mas e quando isso não acontece? De que maneira o profissional deve se proteger? Na psicoterapia, a relação entre analista e paciente acaba criando, ainda que de forma inconsciente, vínculos e ligações. Na Psicologia Analítica, paciente e terapeuta trabalham em conjunto para buscar o melhor para o paciente e adentrar em sua psique com o intuito de aprimorar a busca pelo autoconhecimento. Ou seja, trata-se de uma relação em que é necessário o contato, não físico, mas comunicativo.

A partir do momento em que há esse contato com o material psíquico do paciente, o psicoterapeuta está sujeito ao contágio, que ocorre por meio da relação paciente/terapeuta. O material de trabalho do psicólogo é o paciente, assim, o vínculo que o profissional estabelece com o paciente pode ser fonte de risco para sua saúde.

Assim como Marie Curie e os profissionais da área da saúde que precisam se proteger e se equipar adequadamente para evitar a contaminação, o psicoterapeuta também precisa refletir a respeito das questões de insalubridade que envolve seu trabalho. A psicoterapia tem um trabalho voltado e focado no outro, ou seja, é fundamental que se estabeleçam limites para que o profissional não perca e não confunda sua identidade com a identidade de quem está tratando, bem como não imponha sua personalidade e crenças ao paciente. Trata-se de uma constante busca pelo resgate da identidade do psicólogo e há uma linha tênue em que ambos, tanto paciente como terapeuta, devem estar protegidos para evitar ao máximo essa contaminação.  

É ao longo do processo que acontece o contágio — Marie Curie se contaminou enquanto manipulava material radioativo, os profissionais de saúde podem se contaminar enquanto cuidam de um paciente com Covid e o psicólogo se contamina na conexão que surge entre ele e o paciente. Para sua “proteção”, é necessário que o profissional de psicologia volte o olhar para si mesmo, para que possa ajudar a cuidar do outro. Para que isso seja possível, ele deve entender que as periculosidades de seu trabalho não estão nos objetos manipulados, mas nas relações em que ambos estão inseridos, no contexto profissional, podendo resultar em contaminações.

Embora a contaminação ocorrida no ambiente de trabalho do psicólogo seja subjetiva e não palpável, existe um fator em comum em todos os tipos de contaminações citados neste texto: o processo de contaminação resulta também em um processo de transformação. O sofrimento, o sacrifício, a renúncia, a entrega e a doação são fatores necessários para que existam mudanças. E nesse sentido, Marie Curie não poderia estar mais certa: “as coisas que nos enfraquecem, são as coisas que nos fortalecem”.

Para ler mais conteúdos da autora confira a obra A Segurança no Trabalho Psicoterápico


Isabel Cristina de Abreu Fochesato é especialista em Psicologia Analítica e psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Especialista em Auditoria Interna Controladoria de Gestão pelo Instituto Superior de Pós-Graduação – ISPG-PR e graduada em Administração pela Universidade de Caxias do Sul – UCS-RS. É membro analista do Instituto Junguiano do Paraná –IJPR/Associação Junguiana do Brasil – AJB, filiada à International Association for Analytical Psychology – IAAP. Possui formação em Orientação Profissional e de Carreira, trabalha com Análise Junguiana, Psicologia clínica infantil e Orientação Profissional Processual.