08/06/2021

Qual é a utilidade da psicologia junguiana em Educação?

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21/05/2021 - Céline Lorthiois

 

A pedagogia junguiana conquista um número cada vez maior de educadores e outros interessados. No entanto, para muitas pessoas, ela parece um pouco enigmática, complexa e distante dos problemas educacionais atuais. Será que Jung, que era psiquiatra, posicionou-se acerca da educação? Para responder a essa dúvida, proponho esclarecer aqui alguns pontos básicos dessa pedagogia.

De início, apresentarei opiniões de Jung sobre a educação. Em seguida, veremos como são aplicados alguns conceitos junguianos fundamentais na Pedagogia Profunda. E responderei à pergunta: Jung em educação traz resultados?

 

A educação dá-se pelo exemplo, diz-nos Jung. Trata-se de um exemplo sutil e contagioso, mas quando é positivo, melhor seria chamá-lo de influência. O autoconhecimento do educador e seu empenho para integrar esse conhecimento, material para a construção da sua personalidade, contribuem para transformar o contágio negativo em influência. Pois, explicava Jung, aquilo que o educador é, e não tanto aquilo que ele diz ou faz, é absorvido pelo aluno.

Essa importante colocação, no entanto, apresenta algum perigo, na medida em que facilmente posso achar que sou uma personalidade exemplar, apesar de não o ser; e provavelmente, então, meu “exemplo” atingirá negativamente os meus alunos. Pois quanto menos o educador preocupa-se em se conhecer, mais o seu “exemplo” é visto como contágio, uma vez que não tendo domínio sobre aspectos escuros ou insuspeitados dele mesmo (sua sombra), esses facilmente serão atribuídos aos outros, no caso, projetados sobre seus alunos. Isso irá emperrar o processo de desenvolvimento deles, prendendo-os em amarras alheias, das quais não possuem a chave para se libertar. Por exemplo, uma educadora, quando se deparava com uma pessoa com sobrepeso, mal conseguia comunicar com ela, visto que só enxergava nela o “defeito”, o sobrepeso! Se uma criança magérrima voltasse de férias com alguns gramas a mais (que só ela enxergava), ela logo comentava o fato. Por outro lado, ela se relacionava muito bem com pessoas/crianças magras. Ela tinha horror ao sobrepeso. Ela mesma tinha sobrepeso, que provavelmente mal aceitava e cujo repúdio projetava nos outros.

Por outro lado, Jung distingue o que ele chama de educação coletiva consciente, baseada em métodos, regras e princípios. Essa educação, diz ele, é necessária, mas não favorece o desenvolvimento das individualidades. Então, se for exclusiva, essa educação formará pessoas diminuídas em relação às suas possibilidades de se diferenciarem do entorno, do coletivo. Mas isso não ocorrerá sem sofrimento para as crianças assim impedidas de crescer na sua totalidade. Por exemplo, quando a escola valoriza mais a capacidade dos alunos arcarem com tarefas rotineiras e, para alguns, maçantes, (realizar tarefas apostiladas, por exemplo) do que o exercício pessoal de talentos artísticos, entre eles o de ser feliz, ou a aprendizagem espontânea de assuntos atraentes, mas que não fazem parte do currículo, isso gera indiscutível sofrimento no aluno. Esse é o tipo de educação que impera em instituições de ensino mais tradicionais e rígidas, e, no seu extremo, seria o tipo de formação desejada em regimes totalitários, uma formação de pessoas receptivas a apelos coletivos.

Oposta a essa educação coletiva, Jung aponta a educação individual em que regras e métodos não têm tanta relevância; ela seria necessária para quem padece na educação coletiva e para portadores de necessidades especiais.

Na Pedagogia Profunda, a educação individual é preponderante, sendo que a educação para o coletivo (educação coletiva consciente) ocupa um lugar secundário, na medida em que é consequência do cuidado oferecido ao indivíduo. A educação individual nasce da atenção que a criança pode prestar às suas necessidades e características. Tendo suas características respeitadas e sendo ajudada a atender às suas necessidades até aprender a atendê-las, ela mesma, naturalmente, aprende a respeitar as necessidades e características do outro; esse desenvolvimento natural torna-se, portanto, base para o convívio solidário.

Nesse processo, todos os conceitos junguianos têm relevância, na medida em que esclarecem a complexidade do ser humano; eles nos acompanham sempre, na nossa maneira de ver os educandos e de lidar com eles, e são eles que nos guiam, nós educadores, no nosso infindável processo de individuação. Seguem alguns desses conceitos, com exemplos de sua atuação.

Os conceitos de animus e anima: animus é o elemento masculino interno da mulher e anima, o elemento feminino interno do homem. Esses aspectos são inconscientes, de início. Quando um menino brinca de bonecas, provavelmente está revelando um aspecto de anima atuando nele; se for aceito pelo entorno e pela criança, esse aspecto o ajudará a se desenvolver casando aspectos internos, femininos, com aspectos mais conscientes e masculinos. O fato de ele pôr suas bonecas para dormir e sair de perto delas para construir uma cabaninha, por exemplo, revela a harmonia desse tipo de desenvolvimento. Do mesmo modo, uma menina, ao acordar, em um estado ainda meio sonolento, visualiza a fabricação de um atirador e, mais tarde, ela o fabrica. Em seguida, ela vivencia sua feminilidade serenamente, ao fazer uma tiara ornada de flores.

Anima e animus são arquétipos. Esses, por sua vez, podem ser definidos como imagens primordiais que geram comportamentos humanos, de modo individualizado e não padronizado. Outros exemplos de arquétipos são a Mãe, o Pai, o Filho, a Criança, o Herói, o Curador... Cada arquétipo ativa seu oposto, formando uma polaridade; assim, o arquétipo do Pai ativa o arquétipo do Filho, o arquétipo do Curador ativa o do Doente... De modo que, se eu me encontro na situação consciente de um Filho, no meu inconsciente fica ativado o arquétipo do Pai, da Mãe; o Filho remete também ao arquétipo da Criança, do Sol, do Herói, sendo que não dá para definir exatamente quais os arquétipos estão ativados em uma situação dada, pois arquétipos diferentes possuem aspectos em comum.

Voltando para os dois exemplos dados, diria que o ser menina (arquétipo feminino) na vida consciente mobiliza seu oposto, o arquétipo masculino (animus) no inconsciente e, inversamente, o ser menino na vida consciente mobiliza o arquétipo feminino (anima) no inconsciente. Se esses opostos estiverem impedidos de se manifestarem, eles recairão no inconsciente, aumentando a sombra da pessoa. Pois, explicava Jung, o que não é aceito à luz da consciência vai para o lado do escuro, da sombra, do mal.

 A sombra – vimos um exemplo ilustrando esse conceito no início do texto – consiste em aspectos da pessoa que ela desconhece e que escurecem sua percepção do outro; a sombra pode conter também aspectos que os pais consideravam inaceitáveis e que foram reprimidos pela criança.

Os conceitos de anima, animus, sombra e arquétipos apontam a necessidade de comunicação entre consciência e inconsciente. Na escola, no que diz respeito aos conteúdos escolares, quando os alunos têm o desejo de adquiri-los, o inconsciente, que contém todas as experiências da humanidade, com certeza, sustenta o processo de ensino-aprendizagem e contribui para permitir essa comunicação entre consciente e inconsciente. No entanto, espaços de livre expressão serão sempre bem-vindos para favorecer essa comunicação e, assim, eventuais situações de indisciplina e de violência serão sanadas com essa providência, que também atua no sentido de manter ou resgatar a integridade psicológica dos alunos

Assim, a comunicação entre consciente e inconsciente não se dá apenas no plano da dinâmica do indivíduo. Múltiplas são as vias de comunicação entre consciências e áreas inconscientes das pessoas envolvidas numa situação. Isso leva em consideração: a consciência do educador de que a polaridade arquetípica mestre/aluno atua tanto nele quanto nos seus alunos, ou seja, que o aprender desencadeia nos alunos o desejo de ensinar, e que o ensinar faz surgir no professor o desejo de aprender, mantém viva a chama do entusiasmo do educador e sustenta o desejo de interagir e crescer das crianças.

Esses conceitos auxiliam o educador a apreender o significado de atos, posturas, gostos e desgostos, sejam eles juvenis ou adultos, nossos ou alheios. Desse modo, a Pedagogia Profunda propõe juntar pedagogia e psicologia junguiana, também chamada de profunda, em benefício dos educandos, das pessoas.

Na Pedagogia Profunda, os educadores destacam-se por confiarem na sua intuição; eles também ganham força para suportar eventuais olhares e falas irônicas de outros professores, que mal entendem os espaços de liberdade outorgados às crianças, espaços para atividades mais contemplativas ou mais agitadas, espaços para a repetição de atividades que encantaram, espaços a serem livremente ocupados pela criança e nos quais ela é ouvida e olhada.  

Em escolas ou em ambientes nos quais as atividades são mais dirigidas, é possível criar bolhas de Pedagogia Profunda. Para isso, o educador sana, nele mesmo, suas carências, lida com seu desespero, sua falta de alegria, por exemplo, e, em seguida, ele ousa aplicar aquilo em que acredita; e constata que funciona. Ou seja, a Pedagogia Profunda não lida diretamente com problemas de aprendizagem, porque quando as dificuldades são básicas, tais como falta de acolhimento do aluno, bullying, agressividade, é preciso sanar a base, e então o ensino pode ocorrer, lembrando que aprender, em si, não é detestável, muito pelo contrário. Os conteúdos possuem atrativos e aguardam o apetite do aluno para serem saboreados!

Além disso, são recorrentes, na Pedagogia Profunda, as recomendações de observar o aluno para compreendê-lo e segui-lo nos seus interesses, de desenvolver a empatia e de oferecer todo o contato possível com a natureza. Pois bem, uma professora de adolescentes que cumpriam medida socioeducativa, constantemente atacada por eles com falas odiosas e assustadoras, mostrava-se incapaz de encontrar uma postura para lidar com eles, nem para, ao menos, proteger-se deles.

Mas, um dia, ao ver um menino brincando com um raio de sol que incidia na sua mão durante uma aula, a professora deu-se conta de que a rotina desses adolescentes consistia em deslocamentos entre salas de aula, dormitório e refeitório, pontuados por ruídos de correntes e de cadeados sendo abertos ou fechados. Essa tomada de consciência mudou completamente a postura da moça, e despertou nela benevolência e serenidade. Essa transformação positiva da professora influenciou a turma, transmitindo-lhe essa benevolência e essa serenidade. Ou seja, um aluno acendeu uma luz ao brincar com um raio de sol, essa luz acendeu a compreensão da professora, que possibilitou a instauração de relações pacíficas entre a turma e a educadora.

Para não andar às cegas no mundo da educação, vale não desanimar diante da complexidade do ser humano; o legado de Jung, que tem aplicabilidade em todas as áreas da atividade humana, é um meio para apreender essa complexidade e para reativar a confiança dos que se dedicam à tarefa de educar, no mais amplo sentido da palavra.

Para saber mais sobre o tema, conheça a obra Crianças-Pedagogas e seus Educadores na Pedagogia Profunda.

 

 


 

Céline Lorthiois - Pedagoga formada pela PUC/SP), com especialização em Cinesiologia pelo Sedes Sapientiae (SP); mestre em psicologia da educação (PUC/SP),   focalizadora de Danças Circulares. Idealizadora da Pedagogia Profunda, pedagogia junguiana, que divulga e ensina em cursos livres e em instituições de ensino.