21/05/2021

TÉCNICA DO INSETO ESTÉRIL (TIE) COMO MÉTODO PARA O CONTROLE DA BROCA-DO-CAFÉ (Hypothenemus Hampei)

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21/05/2021 - Anna Luisa Araújo & Gilson Silva Filho

 

INTRODUÇÃO

O Brasil é referência mundial na produção de café, pois é o país que mais produz o grão no mundo (OLIVEIRA, 2012). De acordo com dados do IBGE, o Brasil produziu mais de 3 milhões de toneladas de café em 2016. Porém, apesar da alta produtividade, a broca-do-café, Hypothenemus Hampei (FERRARI, 1867), ainda é uma das pragas que mais preocupa os produtores e acomete grande parte da produção cafeeira (MIRANDA et al., 2003). A broca causa tanto danos quantitativos, pois ocasiona maior queda dos frutos do pé e redução do peso dos grãos, quanto qualitativos, alterando o padrão de aparência do grão e de sabor da bebida (REIS, 2014). Os ovos da fêmea são depositados sobre o fruto, que, ao eclodirem, penetram e colonizam o interior da fruta. Porém, na maioria dos casos só infestam e destroem uma semente, a outra fica disponível como reserva alimentar para os hospedeiros (SILVA et al., 2014).

O controle efetivo era obtido por meio do agrotóxico endosulfan, que foi proibido em uma decisão tomada em comum acordo pela Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura em julho de 2013, devido aos danos causados ao meio ambiente e à intoxicação de pessoas que manuseavam o produto. Com a proibição, os produtores tiveram grandes perdas, pois outros aditivos químicos não apresentavam o mesmo resultado que o endosulfan proporcionava, que variava de 70 a 100% de eficiência (REIS, 2014). Sem o controle da praga a lavoura pode ser totalmente comprometida (ABIC, 2018). Após a proibição do uso do inseticida, em 2014, o Estado de Minas Gerais decretou estado de emergência devido à infestação descontrolada do inseto nas propriedades de cultivo de café e à grande perda dos cultivares (BRASIL, 2014 apud SILVA, 2014).

Uma alternativa utilizada por alguns produtores que promete ser mais eficiente no controle da praga e menos prejudicial ao meio ambiente é conhecida como Boveril, um inseticida biológico, em que conídios do fungo Beauveria bessiana são pulverizados sobre as plantas, e ao germinarem sobre a superfície do inseto-alvo, penetram em seu tegumento proporcionando a colonização do fungo e a liberação de toxinas dentro do organismo do besouro, o que reduz sua atividade metabólica até ocasionar a morte (ABIC, 2018).

Novas técnicas estão sendo criadas e avaliadas como alternativa para uma maior eficiência no controle do inseto sem gerar impactos ambientais ou contaminação humana. Partindo dessa expectativa, o estudo torna-se viável, visto que apresenta uma alternativa ecologicamente correta para o controle da broca-do-café com a Técnica do Inseto Estéril (TIE). Trata-se de um método que já é utilizado para o controle de outros insetos e tem apresentado resultados positivos (SILVA, 2014).

 

METODOLOGIA

O estudo em questão tem como objetivo realizar uma pesquisa bibliográfica sistemática sobre a viabilidade do controle biológico da broca-do-café (Hypothenemus hampei) mediante a Técnica do Inseto Estéril. O estudo será realizado com dados obtidos em artigos científicos no site da Cielo e publicações on-line de institutos de pesquisa vinculados à produção de café no Brasil, tais como a ABIC e IBGE. Acessados entre os dias 23 de abril e 3 de maio de 2018.

 

DESENVOLVIMENTO

A broca-do-café, Hypothenemus hampei, é a principal praga que acomete as lavouras de café no mundo inteiro. Trata-se de um inseto da Ordem Coleoptera e Família Scolytidae que foi identificado e catalogado em 1867, pelo entomologista austríaco Ferrari. Há registros dos primeiros ataques da praga às lavouras do gênero Coffea desde 1901, sendo que entre o período de 1913 e 1921 houve uma infestação descontrolada que destruiu praticamente toda a produção de café da África Equatorial. No Brasil, há relatos de que a broca-do-café havia chegado em São Paulo no ano de 1913 junto a sementes importadas da África e de Java; e no ano de 1924 foram identificados os primeiros prejuízos deixados pela praga nas lavoras brasileiras (SOUZA; REIS, 1997 apud LAURENTINO, 2004). Após décadas da introdução do inseto no Brasil, a broca-do-café ainda preocupa os produtores. Novas tecnologias estão sendo desenvolvidas para seu controle efetivo e possível extinção da praga (NEVES, 2002).

Uma característica comum dos insetos é que o ciclo de vida desses animais é muito curto e a procriação resulta em um número muito alto de descendentes. Tais fatores determinam uma variabilidade genética extensa, o que prejudica a eficiência dos inseticidas utilizados (HEMINGWAY; RANSON, 2000 apud SPENCER; ARAÚJO, 2017).

Não há registros de que a Técnica do Inseto Estéril tenha sido utilizada como forma de controle para a broca-do-café. Porém, trata-se de uma biotecnologia que já é utilizada e mostrou-se eficaz para outros insetos. Desde 1912, radiações ionizantes são utilizadas por entomologistas (SPENCER; ARAÚJO, 2017) e em 1955 o cientista E. F. Knipling criou a Técnica do Inseto Estéril e obteve resultados positivos no controle da reprodução da mosca-da-bicheira ou mosca varejeira, Cochliomyia hominivorax. No Brasil, a TIE, associada ao controle biológico, tem apresentado resultados eficazes no combate de algumas espécies das moscas-das-frutas (Diptera: Tephritidae) (PARANHOS, 2005).

Na TIE, os insetos são expostos à radiação ionizante, o que ocasiona: “infecundidade nas fêmeas, aspermia ou inativação nos machos, incapacidade de acasalar, mutação letal dominante nas células reprodutivas dos machos ou das fêmeas” (GALLO et al., 2002 apud SPENCER; ARAÚJO, 2017). Machos e fêmeas estéreis são liberados em um determinado ecossistema para se reproduzirem com os insetos selvagens. Após sucessivas solturas e acasalamentos, haverá uma significativa redução do nascimento de descendentes até a provável extinção (SPENCER; ARAÚJO, 2017).

 

 

REFERÊNCIAS

 

ABIC. Associação Brasileira da Indústria do Café. Notícias: Controle Biológico da Broca do Café Obtém Sucesso em Lacuna Deixada Por Agrotóxico Banido. 2018. Disponível em: http://abic.com.br/controle-biologico-da-broca-do-cafe-obtem-sucesso-em-lacuna-deixada-por-agrotóxico-banido/.  Acesso em: 23 abr. 2018.

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Brasil. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pesquisa/15/11863. Acesso em: 23 mar. 2018.

SPENCER, P. J.; ARAÚJO, M. M. Técnica do Inseto Estéril: Uma Ferramenta no Manejo Integrado de Pragas. Biológico, São Paulo, v. 79, n. 1, p. 1-7, jan./jun. 2017. Disponível em: http://www.biologico.sp.gov.br/uploads/docs/bio/V79_1/62a9756e-b268-4f36-b07b-b1bfa306131a.pdf. Acesso em: 29 abr. 2018.

LAURENTINO, E.; COSTA, J. N. M. Descrição e caracterização biológica da broca-do-café (Hypothenemus hampei, Ferrari 1867) no Estado de Rondônia. Porto Velho: Embrapa Rondônia, 2004. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/916028/1/doc90brocadocafe.pdf. Acesso em: 30 abr. 2018.

MIRANDA, J. C. et al. Bioecologia   da   Broca-Do-Café,   Hypothenemus  hampei (Ferrari, 1867) (Coleoptera: Scolytidae), no Agroecossistema Cafeeiro do Cerrado de Minas Gerais. Ciênc. agrotec., Lavras, v. 27, n. 2, p. 422-431, mar./abr. 2003.

NEVES, P. M. O. J; HIROSE, E. Técnica para Criação e Manutenção da Broca-do-Café, Hypothenemus Hampei (Ferrari) (Coleoptera: Scolytidae), em Laboratório. Neotrop. Entomol., Londrina, v. 31, n. 1, jan./mar. 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/%0D/ne/v31n1/11194.pdf. Acesso em: 30 abr. 2018.

OLIVEIRA, I. P. et al. Cultura de Café: histórico, classificação botânica e fases de crescimento. Revista Faculdade Montes Belos, v. 5, n. 4, ago. 2012.

PARANHOS, B. A. B. Técnica do Inseto Estéril e Controle Biológico: Métodos Ambientalmente Seguros e Eficazes no Combate às moscas-das-frutas. In: SIMPÓSIO DE MANGA DO VALE DO RIO SÃO FRANCISCO, 1., 2005. Disponível em: https://www.agencia.cnptia.embrapa.br/recursos/OPB63ID-egwWrmJdPY.pdf. Acesso em: 26 abr. 2018.

REIS, P. R. Monitormento e Manejo da Broca-do-Café. Revista Cultivar Grandes Culturas, ano XV, n. 178, mar. 2014. Disponível em: http://www.grupocultivar.com.br/acervo/367. Acesso em: 23 abr. 2018.

SILVA, I. W. et al. Controle Massal da Broca-do-café com Armadilhas de Garrafa Pet Vermelha em Cafeeiro. Pesq. Agropec. Bras., Brasília, v. 49, n. 8, p. 587-597, ago. 2014. Disponível em: www.scielo.br/pdf/pab/v49n8/0100-204X-pab-49-08-00587.pdf. Acesso em: 23 abr. 2018.

 

 


 

 

Anna Luisa Araújo - Graduanda do Curso de Ciências Biológicas do Centro Universitário São Camilo-ES. E-mail: anna.antoniazzi@gmail.com

 

Gilson Silva Filho - Professor Ooientador. Professor do Centro Universitário São Camilo-ES. E-mail: gilsonsilva@saocamilo-es.br