01/06/2021

Colonialismo estético e “branqueamento” cosmético da pele

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01/06/2021 -  Frantz Rousseau Déus.

         Refletir sobre impactos da colonização e da escravização na atualidade não é apenas uma obrigação para quem se compromete a um mundo melhor, mas é antes de tudo, uma necessidade de primeira ordem para entender e enfrentar os paradoxos da modernidade-colonial, que exige uma luta constante e radical contra o capitalismo. 

         O colonialismo e o patriarcalismo juntam-se ao capitalismo, (re)produzindo um sistema de opressão peculiar em que só o “homem branco” é confortável, como salienta Margaret L. Hunter (2011), ainda que as pessoas não brancas tenham participado forçadamente — produzindo riqueza que possibilitaram o desenvolvimento dos países capitalistas centrais — na criação desse mundo “branco”, em que se propiciou a emergência da brancura como símbolo de “superioridade” por excelência. Portanto, ela atua como um fantasma que opera em todas as dimensões da vida e em todos os lugares, até onde a presença física do branco é insignificante ou quase inexistente. O que atesta a pertinência da afirmação de Liv Sovik, quando narra que “a supervalorização do branco é um fenômeno mundial, com particular vigência em lugares que foram colonizados por europeus que implantaram a escravidão” (SOVIK, 2009, p. 18).
        Dito isso, um manual intitulado, em tradução livre, “Como dar luz a uma criança de pele clara: melhor guia para ter o bebê dos seus sonhos, seja qual for a cor da sua pele”, escrito pela camaronesa L. Makaa, afirma: “Não pretendo projetar a ideia de que um tom de pele claro é melhor do que a pele negra, mas para atender à necessidade que a sociedade já teve desde os tempos de civilização humana” (MANKAA, 2019, s/p). Essa necessidade não é nada menos que a busca de um pouco de brancura; digo, seja para escapar do preconceito de cor, seja para conquistar um lugarzinho no ranking das pessoas consideradas bonitas.
        É difícil delimitar onde começa a “civilização humana” a qual Makaa faz referência, porém muitos/as dos/as estudiosos/as da questão racial concordam que é mais adequado entender a categoria raça como uma construção sócio-histórica. Como salienta Peter Wade (2017), as diferenças entre os seres humanos não foram sempre baseadas nas características fenotípicas, mas seria no auge da escravização e da colonização, particularmente no final do século XVIII e XIX, com o desenvolvimento do racismo científico ocidental que o fenótipo passou a ocupar um lugar fundamental, não somente para diferenciar os seres humanos, mas também para hierarquizá-los. Tal hierarquização permitiu representar o branco como modelo padrão e ideal da perfectibilidade humana, de forma contrária, os não brancos, os indígenas e os africanos são representados como selvagens, incivilizados, feios, incompetentes etc. (DELPORTE, 2007). Essas considerações que permitiriam a Anténor Firmin (1885, p. 204) afirmar que raça é fruto da “exploração de homem por homem”. Também são elas que levam Eric Williams (2012, p. 50) a salientar que “a escravidão não nasceu do racismo: pelo contrário, o racismo foi consequência da escravidão”. As representações feitas, tanto das pessoas brancas quanto das não brancas, servem para construir imaginário coletivo racista existente nos dias atuais. Percebe-se uma estreita articulação entre escravização-raça-racismo e capitalismo.
       Baron de Vastey (1814 [1816]), na segunda década do século XIX, criticou os pensadores colonialistas e os colonos europeus que, ao recusarem compartilhar o mundo com as pessoas negras como cidadão livre, fez com que eles (colonialistas europeus) aproveitassem dos recursos materiais e simbólicos que estavam à sua disposição para produzir obras científicas no intuito não só de justificar a escravização e a colonização, mas para rebaixar as pessoas negras na categoria de sub-humano. Mais tarde, Phillipe Hannibal Price (1891 [1898]) chamou as obras científicas produzidas pelos pensadores colonialistas europeus sobre questões raciais de littérature malsaine (literatura insalubre). Segundo o autor, a linguagem usada por aqueles pensadores era, antes de tudo, uma linguagem colonialista e racista, cujo objetivo era desubstancializar e alienar as pessoas negras.
        Para entender o impacto simbolístico do colonialismo na atualidade, a justificativa apresentada por Mankaa no trecho a seguir é ainda mais sugestivo:


Meu marido tem uma pele preta escura e eu tenho uma pele acastanhada. Foi um casamento de amor e minha sogra sempre tinha problemas com a minha pele porque acreditava que nossos filhos seriam pretos. Em um país como o nosso, é essencial ter uma pele clara. Eu estava sob constante pressão morando com a minha madrasta e eu estava determinada a não deixar meu filho ainda não nascido passar por essa rejeição de "pele preta". (MANKAA, 2019, s/p, grifos e tradução meus).


         Pergunto-me por qual motivo uma criança de pele negra sofreria a rejeição social numa população predominante negra? A essa pergunta, deixo um ponto de interrogação.
         Autores/as que refletiram sobre o impacto da colonização já alertaram sobre a dificuldade que as pessoas negras teriam que enfrentar para viver no mundo branco. Por exemplo, Stephen Alexis publicou, em 1933, o seu “romance” O negro mascarado, chamando atenção para a máscara atrás da qual o colonialismo obriga as pessoas negras a se esconderem. Ao jogar luz sobre a sociedade haitiana na primeira metade do século XX, Alexis discorreu sobre uma de suas personagens principais, Beaudrap Marvil, um negro rico enamorando pela brancura, que rezava para que alguém pudesse descobrir algum soro ou medicamento capaz de desempretecer as pessoas negras (ALEXIS, 1933).
         Frantz Fanon debruçou-se para entender e combater o colonialismo junto de seus fantasmas. Em Pele negra máscaras brancas, de 1952, ele salientou que tinha observado grandes empresas estadunidenses que se lançaram na busca de produtos capazes de ajudar os pobres pretos a se livrarem da sua “maldição corporal” — a negrura da pele. Ao mesmo tempo, afirmou que as pessoas negras devem estar cientes da estrutura para não serem vítimas da ideologia de branqueamento (FANON, 2008 [1952]).
         Na contemporaneidade, enquanto está ocorrendo lutas contra o racismo (todos os tipos de violência: massacre sobre populações pobres e periféricas, encarceramento em massa, marginalização e exclusão de todos os setores sociais etc.) que afeta as populações negras, sobretudo nos países multirraciais, nota-se o crescimento de sites, blogs, canais de YouTube apresentando produtos cosméticos industriais e técnicas caseiras para diminuir a negrura da pele.
         Para além de ser reprodução da racialização do colonialismo, a maximização dos lucros das empresas de cosméticos industriais para desempretecer é o incentivo para que esses produtos encontrem espaços nos mercados. Então, mais uma vez vemos que o mercado de capital se aproveita do racismo para promover a inferiorização e a rejeição estética das pessoas negras. Quer dizer, o capitalismo pela sua natureza predatória encontra grande oportunidade de se lucrar por meio dos preconceitos raciais, oferecendo produtos para gerenciar a tonalidade da pele preta. O crescimento desse mercado expressa como a oferta e a busca por um pouco de brancura está na ordem do dia. Não é por acaso que a OMS tinha considerado que esse mercado, em 2020, ou seja, no ano passado, ia chegar os 23 bilhões de dólares. Isso deixa evidente algo que venho expondo desde o início deste texto: o capitalismo quer sempre lucrar com o racismo.
         Na década de 1980, Naomi Wolf debruçou-se sobre a questão de beleza, mostrando como a beleza tornou-se tão importante quanto a qualificação intelectual para que as mulheres pudessem ter um bom cargo de trabalho. Ela percebeu que a beleza não era mais apenas uma forma simbólica de moeda ¬— literalmente se tornou dinheiro (WOLF, 1980). Embora Wolf tenha denunciado a ideologia da beleza como opressora para as mulheres, ela não aborda a natureza racial da indústria da beleza. Margaret Hunter (2011) argumenta que Wolf não consegue ver, ou evita discutir, como as definições de beleza atendem não apenas a uma agenda sexista, mas também a uma agenda racial poderosa e exclusiva. A “beleza feminina” torna-se, assim, um capital, lamenta Hunter. Sendo a beleza valorizada nas sociedades euro-americanas, e intimamente ancorada na brancura da pele, muitas pessoas negras, ao internalizar essa suposta inadequação estética, acabam por se submeterem a processos de “branqueamento” via produtos cosméticos industriais e outras técnicas considerados nocivas para a saúde pelos/as profissionais de saúde. E, em síntese, o “branqueamento” ou despigmentação voluntária de cor da pele, como se chama, é uma prática com a qual uma pessoa, por sua própria iniciativa, procura fazer desaparecer a pigmentação fisiológica da sua pele, deixando-a mais clara ou menos preta (PETIT, 2007; BORDELEAU, 2012; NGUIMBUS, 2013; DÉUS, 2018). Pesquisadores/as como Antoine Petit, Lilianne Bordeleau, Fatima Ly, entre outros, salientam que o consumo de produtos de clareamento da pele é presente em todos os continentes. No entanto, essa prática torna-se cada vez mais presente no “mundo negro”. De acordo com Célestin Monga (2010), o mundo negro é entendido como uma categorização geográfica e histórica forçosamente controvertida, que incluí tanto as populações subsaarianas quanto as da diáspora que iniciaram com o tráfico negreiro.

         Brevemente, neste artigo fiz algum apontamento do problema de “branqueamento” da pele, explicitando a estreita relação desse fenômeno com o colonialismo. No entanto, para um debate mais profundo dessa complexa problemática, veja: Paradoxo Haitiano: Identidade negra e “branqueamento” na contemporaneidade.


Referências

ALEXIS, Stéphen. Le nègre masqué. Port-au-Prince: Fardin, 1933.

BORDELEAU, Lilianne. Le blanchiment de l'apparence: enjeux identitaires et pratiques corporelles dans un contexte contemporain. Étude chez des femmes d'origine haïtienne de Montréal. Dissertação (Mestrado) – Université Laval Québec, Canadá, 2012.

DELPORTE, Christian. L’imaginaire Colonial. L’Afrique et les Africains dans l’image de l’entre-deux-Guerres In: DELPORTE, Christian. Image et politique en France au XXe siècle. Paris: Nouveau Monde Éd, 2007.

DEUS, F. Rousseau. Le phénomène contemporain de dépigmentation en Haïti: Début d’une réflexion. La peaulogie. Revue de sciences sociales et humaines sur les peaux, v. 1, p. 25, 2018. ISSN 2610-9425.

FANON, Frantz. [1952]. Pele negra máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

FIRMIN, Antenor. De L’égalité des races humaines. Paris: Librairie Cotillon, 1885.

GLÈLÈ-AHANHANZO, Yolaine; KPOZEHOUEN, Alphonse; MARONKO, Boniface. Getting clear skin ……and why not?": voluntary depigmentation among women in a southwest region of Benin. Pan African Medical Journal, 2019. Doi: 10.11604/pamj.2019.33.72.18722.

HUNTER, Margaret L. Buying Racial Capital: Skin-Bleaching and Cosmetic Surgery in a Globalized World. The Journal of Pan African Studies, v. 4, n. 4, 2011.

LY, Fatima. Dépigmentation Cosmétique Volontaire (DCV): enjeux sanitaires, pratiques, motivations et ébauches de solutions, La Peaulogie, 2018.

MANKAA, Elizzette. Comment donner naissance à un bébé au teint clair. Livre électronique, 2019. Disponível em: www.Santepeaunoir.com.

M'BEMBA-NDOUMBA, Gaston. Ces noirs qui se blanchissent la peau: la pratique du Maquillage chez les Congolais. Paris: L'Harmattan, 2004.

MONGA, Célestin. Niilismo e Negritude. Tradução de Estela dos Santos Abreu. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

PETIT, Antoine. La dimension addictive de la dépigmentation volontaire. Dissertação (Mestrado) – Paris, Université Paris 13, 2007.

PRICE, Hannibal. De la Réhabilitation de la Race Noire par la République d’Haïti. Les Editions Fardin, 1898.

SOVIK, Liv. Aqui ninguém é branco. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009.

VASTEY, Baron de. Le systeme colonial devoilé. Cap-Henry: P. Roux, 1814.

VASTEY, Baron de. Réflexions: Sur une Lettre de Mazères Ex-colon français, adressée à M. J.C L. Sismonde de Sismondi, Sur les Noirs et les Blancs la Civilisation de l'Afrique le Royaume d'Hayti. Au Cap Henry: Chez P. Roux, imprimeur du Roi, 1816.

WADE, Peter. Raça: natureza e cultura na ciência e na sociedade. In: HTA, Maria Gabriela (org.). Raça, racismo e genética: em debates científicos e controvérsias sociais. Salvador: UFBA, 2017.

WILLIAMS, Eric. Capitalismo & Escravidão. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

WOLF, Naomi. O mito da beleza: Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Tradução de Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

 


 

 

 

 

Frantz Rousseau Déus é Doutorando em Sociologia na Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP (2019-2022), também é Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) (2016- 2018). Defendeu uma dissertação intitulada Identidade étnico-racial no Haiti: estudo sobre o fenômeno contemporâneo de despigmentação ?voluntária? da cor de pele à luz do indigenisme haïtien. Possui diploma de Licenciatura em Ciências Sociais (2013-2015); Bacharelado em ciências sociais gerais (2013-2015); Bacharelado em Sociologia (2013-2017); Bacharelado em Ciências políticas (2013-2018) pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi bolsista do Programa Pró-Haiti de 2011- 2017. Atualmente está cursando Bacharelado em Antropologia (2013-2019) nessa mesma universidade. Ministra aulas de Sociologia no Cursinho Popular Dandara dos Palmares desde 2015 - 2018. Foi estudante regular em Ciências da Educação (2008-2011) na Universidade Autônoma de Porto-príncipe (UNAP) no Haiti. Trabalha com seguintes temas: ideias tóxicas, despigmentação ? voluntária? da cor de pele, produção social do corpo, sociologia de consumo, identidade étnico-racial, discriminação, raças, desigualdade, movimento indigenista haitiano, intelectualidade afro-diaspórica.