04/06/2021

Ateísmo e moral: a atualidade de Pierre Bayle

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04/06/2021 -  Marcelo de Sant’Anna Alves Primo.

      Se um deus existisse, sem dúvida, preferiria os ateus, pois estes não usariam o seu nome em vão. Na verdade, não teriam a menor necessidade de usá-lo por conveniência ou quando estivessem diante de uma situação difícil na vida. Na felicidade ou na tristeza, nunca o evocariam. Mas como, desde sempre, supostamente foi preciso nomear mesmo o que não é passível de tal, os que se dispensam dessa necessidade são encarados como aberrações antinaturais. Desamparo e arrogância aos olhos do senso comum, renegar divindades seria o suprassumo e ápice de uma pretensão descrente. Contudo, e inevitavelmente, sempre surgem pensadoras e pensadores que vão à contracorrente da desinformação e do preconceito, um desses autores é Pierre Bayle.
Combatendo filosoficamente a superstição, o pensador francês leva tal combate a um ponto espinhoso para os mais conservadores: ateus podem ser virtuosos e crentes podem ser torpes na imposição e exercício ético, político e social de sua crença. O enfrentamento ao fanatismo e à intolerância, imprescindivelmente, exige um olhar crítico na história e, fazendo-o, fica mais claro para quem a examina no decorrer dos tempos, quem cometeu mais infâmias e atrocidades em nome de uma convicção que finge estar meramente na esfera opinativa. Dessa maneira, certas imagens sucumbem ao crivo da crítica e são desconstruídas por meio de uma reflexão e constatação honestas: ateísmo e moralidade caminharam, caminham e sempre caminharão pari passu.
Assim sendo, Bayle expôs-se ao perigo de pensar diferente: afinal, quem teria a coragem de proferir, em um contexto político, social e religioso conservador como a França de sua época, que os deuses nunca foram necessariamente a régua da boa conduta? Que quem se diz crente, na verdade, só recorre às divindades por uma recompensa no paraíso, comportamento típico de quem é movido por uma moral interessada? Que é preciso recorrer à experiência histórica para ver claramente que qualquer heterodoxia era sufocada pelos instrumentos psicológicos e bélicos das religiões? Aqui desenha-se e se confirma a atualidade do pensamento de Bayle: ateus foram condenados e, até hoje, são de maneira sumária pelo fato de não crerem em um deus. Todas as questões supracitadas ganham um sabor contemporâneo. Se tais reflexões foram aventadas já lá no século XVII, denominado como o Grand Siècle da Razão e da Modernidade e da emancipação perante todo tipo de carolice anticientífica, paradoxalmente, parece que, até hoje, não somos tão esclarecidos assim. Infelizmente, para a grande maioria, descrer ainda é sinônimo de licenciosidade, petulância e loucura.
Já perguntaram outrora em que creem os que não creem. Todavia, a pergunta pode ser reformulada: por que ainda preocupar-se com o que o descrente acredita, já que, por princípio, em nada acredita? Quando Bayle traça a imagem do ateu virtuoso sob sua pena, dá-nos uma importante lição: é possível uma moral e uma ética totalmente desvinculadas de um deus, ou deuses, que ainda pensam ter o status de fundamentadores e monopolizadores da moral.

 


 

 

 

 


Marcelo de Sant’Anna Alves Primo - Possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe (2005), mestrado em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (2008) e doutorado em Filosofia na Universidade Federal da Bahia (2014) com período sanduíche como bolsista do programa PDSE da Capes, na École Pratique des Hautes Études (EPHE), Paris. Atualmente é professor titular do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe (Codap-UFS). Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Ética e Filosofia Política e atua principalmente nos seguintes temas: Pierre Bayle, Holbach, Iluminismo, Filosofia, tolerância, ateísmo, política e moral. E-mail: marceloprimo_sp@hotmail.com