08/06/2021

Política aplicada ao infinito no humano e não humano

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08/06/2021 - Ascêncio Franco dos Santos

É do presente que fazemos nossas leituras e descrições do meio no qual estamos inseridos. Como vemos esse meio é produto construído por poderes/saberes nos seus diferentes espaços/tempos, ou seja, uma inteligibilidade. Com Michel Foucault aprendi que nos séculos XVIII e XIX foram lançadas as bases das sociedades disciplinares, que chegaram ao seu ápice na primeira metade do século XX. Nessa sociedade disciplinar, estávamos encerrados em diversas instituições, que são elas: a família, a escola, o quartel, a fábrica e, às vezes, nos hospitais e prisões. Esta última é instituição de confinamento por excelência.

Quais são as práticas ditas e não ditas em cada instituição disciplinar? Nesse espaço/tempo é possível concentrar, distribuir, ordenar, disciplinar, construir e constituir cada sujeito, ou seja, assujeitá-lo, para que este venha a ser útil para desenvolver determinada função na sociedade contemporânea. Nesses espaços de confinamento, a vida fica melhor gerenciada, administrada, governada e há economia nas instituições disciplinares. Há toda uma “arte” de distribuição dos corpos, as marcas, os sinais, que necessariamente produzem determinados comportamentos, olhares, gostos, desgostos, enfermidades, desejos e, com sinais específicos, identifica-se cada sujeito pela sua ação.

Foucault anunciou a crise dessas instituições, em especial das prisões e, segundo o pensador, já nasceram em crise, porém, na crise, ou no insucesso, no caso das prisões, reside a sua utilidade social, se assim posso dizer sobre essa instituição de confinamento por excelência. As prisões existem para colocar medo no indivíduo que está “livre”, caminhando e realizando suas atividades na sociedade capitalista. Quem é esse indivíduo? É o bom pai, o empresário, o trabalhador, o bom estudante, o bom filho etc. Aquele que destoa das convenções, das sociais, fica bem encerrado, encarcerado e melhor administrado para corrigir seus atos.   

As instituições disciplinares foram abandonadas? Não! A crise que assombra a família, a prisão, a escola, o hospital e o quartel, dá espaço para algo diferente, um modelo que usa essas instituições passa a ocupar as pessoas (micropoderes/saberes) e, assim, aplica mais um exercício com a finalidade de extenuar e extrair energias para exaurir as energias. Ocupar o tempo com eficácia. Extrair a vida, ou o que resta dela, o que há de capital em vida em cada indivíduo no interior/exterior das instituições é um exercício que se estende a toda população. Isso pode ser identificado nos cem números de propostas de reforma dos dispositivos de lei e de normativas que permeiam cada instituição. Cada novo governo tenta a bel prazer instituir uma nova prática, outros discursos. Mas o que se vive é a morte agonizante do confinamento.

Essa morte lenta que se instala nas instituições de confinamento, ao mesmo tempo em que constitui um novo tipo de sujeito e sujeito de conhecimento produz um novo modelo de instituição, onde tais dispositivos que serão entregues aos operadores, ou a operacionalização dos mecanismos que esse novo modelo exige é o controle absoluto, um certo totalitarismo, é mais eficaz, exige-se um sujeito mais “eficiente”, pois precisa aplicar cirurgicamente as novas práticas.

O biopoder, conceito trabalhado por Michel Foucault, aplica e instala nas instituições/sujeitos os novos dispositivos de poder/saber sobre cada ser vivo, sobre cada indivíduo em escala global, é pleno. E o faz por meio dos saberes/poderes nas diferentes áreas do conhecimento humano. Os agentes que instituem essas novas práticas são os micropoderes, os que realizam campanhas para instituir, esclarecer, implantar, informar à sociedade, justificando a necessidade dessa prática, ou nova instituição.

Tal prática, na maioria das vezes, são discursos positivos necessários, há muito desejados, reclamados e exigidos pela sociedade civil. São resultados de campanhas populares, reivindicações dos movimentos sociais, que por sua vez são objetos dos detentores de conhecimento, esses profissionais autorizados com um diploma acadêmico, ou seja, estão autorizados a recolher as informações, sistematizá-las, normatizá-las e depois instituí-las, ou aplicá-las na sociedade.                

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