14/05/2019

Maio de 68: O Desafio do Pensamento Complexo

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14/05/2019 - Por: Maria da Conceição Xavier de Almeida

 

Há 50 anos, em maio de 1968, milhares de estudantes franceses saiam às ruas de Paris e outras cidades da França para pedir reformas no sistema educacional, protestar contra a autoridade, a hierarquia, as regras estabelecidas e promover uma revolução comportamental que marcou todo o século XX e, de certa forma, mudou a história desde então. De lá para cá a imaginação, se não tomou o poder, passou a assombrá-lo de tempos em tempos, desafiando a prática carcomida da ainda insistente velha política.

Os protestos saíram das universidades e ganharam as ruas da Cidade Luz com barricadas, enfrentamentos com a polícia e adesão de operários em greve, ameaçando o poder do então presidente General Charles de Gaulle. Aproximadamente dois terços da força de trabalho no país cruzou os braços. Depois, como rastilho de pólvora, o movimento contestatório espalhou-se por outras partes do mundo, chegando inclusive ao Brasil.

Sob a pressão e o calor do momento, um jovem intelectual francês resolve oferecer algumas chaves de interpretação para aquele enigma que, sob o signo do acontecimento e, portanto, do imprevisível, desafiava as categorias interpretativas dos jornalistas e sociológicos de plantão. Em uma série de artigos publicados no jornal Le Monde, Edgar Morin observa a ascensão de uma classe de idade adolescente em dissintonia com antigos e enrijecidos valores sociais, bem como o crescimento de um mal-estar dentro de uma civilização do bem-estar.

Em contraposição a uma sociologia dominante eminentemente quantitativa e incapaz de enfrentar a multidimensionalidade de fenômenos sociais cada vez mais complexos, Morin vai propor uma abordagem de base complexa, que mantém íntimas relações com o acaso e a incerteza, a ordem e a desordem, o som e o ruído no seio dos sistemas ricamente organizados – como, por exemplo, as sociedades democráticas europeias da década de 1960.

Para Morin, só se poderia compreender Maio de 68 cavando por baixo da crosta superficial das opiniões, percebendo a crise gestada pelo atrito subterrâneo das placas tectônicas da sociedade, abrindo brechas no senso comum (principalmente acadêmico), procurando colocar-se acima e além do saber disciplinar parcelado. Promover o diálogo e a fecundação entre conhecimentos encerrados em hiperespecializações não comunicantes é o desafio inicial abraçado pelo pensamento complexo.

O mesmo seria politizar o pensamento: é necessário reconhecer que por traz de cada fenômeno social manifesta-se uma diversidade de dimensões inter-relacionadas. Restringir o bem-estar de uma sociedade ao seu crescimento econômico, por exemplo, é desconhecer a própria multidimensionalidade da vida social, reduzindo-a a cálculos e planilhas. Quem poderia prever tal explosão de revolta e inconformismo do Maio de 68 em uma Europa majoritariamente agitada por crescimento econômico e distribuição de renda?

O complexo comporta relações de incerteza, imprevisibilidade, inacabamento, emergências, bifurcações, flutuações, contradições, ordem, desordem, interação, reorganização, tensão entre determinismo e liberdade, dependência e autonomia. Como afirma Edgar Morin, a complexidade é uma palavra-problema e não uma palavra-solução. Pretende entrelaçar saberes fragmentados, reconhecendo a condição sapiens-demens do homem genérico, ao mesmo tempo em que enfrenta a incompletude de qualquer conhecimento.

Em 50 anos, vários “Maios de 68” ocorreram no mundo, da Primavera de Praga à Primavera Árabe, da Batalha de Seattle às Jornadas de Junho de 2013 no Brasil. E os modelos explicativos tradicionais parecem ainda claudicar frente a essas irrupções de revolta. Por isso mesmo, algo de muito atual persiste no pensamento de Morin sobre a complexidade. O modelo fragmentado de ciência começa a dar sinais de esgotamento, mas ainda resiste. É preciso superar o velho paradigma científico do ocidente (disjuntor/redutor/fragmentador/simplificador) no sentido de reconstruir uma ciência mais aberta e plural, capaz de se inserir nas diversas camadas dos fenômenos sociais. E isso até mesmo para que a ciência possa cumprir mais adequadamente suas funções sociais: dizer a verdade ao poder, instigar um pensar bem, fazer das ciências um instrumento capaz de instaurar outras práticas sociais, pessoais, cognitivas.

Para saber sobre ciências da complexidade e politização do pensamento de forma mais ampla, conheça a obra Ciências da Complexidade e Educação: razão apaixonada e politização do pensamento.


Maria da Conceição Xavier de Almeida é doutora em Ciências Sociais (Antropologia) pela PUC São Paulo, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN. É autora de diversos livros, entre eles, Ciências da complexidade e educação: razão apaixonada e politização do pensamento, publicado pela editora Appris.