23/06/2021

Dos balões aos raios catódicos: grandes ideias da Física Clássica (um encontro entre a arte e a ciência)

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23/06/2021 - Waldir Leite Roque  

            Em 1999, escrevi um artigo para a seção de Ciência e Tecnologia & Meio Ambiente (CT&MA) da Radiobrás[1] com o título “Divulgação Científica e Tecnológica no Brasil: Uma Tarefa Difícil”[2]. O artigo abordava a importância de os cientistas escreverem artigos e livros de divulgação científica e, especialmente, as dificuldades encontradas pela comunidade científica brasileira para promover a divulgação científica. Dentre as razões citadas no artigo, estava o pouco reconhecimento dado pelas agências de fomento do país aos trabalhos de divulgação científica. Outra, era a falta de espaços na mídia brasileira para a divulgação da ciência e tecnologia. Os jornais diários alegam que não disponibilizam espaços porque a população não lê tais artigos. Por outro lado, como não temos tais espaços disponíveis, não há divulgação científica e a população não tem como adquirir a cultura de ler artigos dessa natureza. É como a história de quem vem primeiro: o ovo ou a galinha?

            Apesar das inúmeras dificuldades, houve algum progresso durante esses anos, especialmente depois do amplo acesso à internet e da persistência de pesquisadores brasileiros. Por isso, é com grande satisfação que vejo a publicação (e fiz a leitura) do livro Dos balões aos raios catódicos: grandes ideias de Física Clássica (um encontro entre a arte e a ciência), publicado pelo físico Prof. Luiz F. Pires, da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná.

            O livro aborda, de forma simples, em 21 capítulos, vários tópicos importantes da Física Clássica. Os capítulos são curtos, o que permite uma leitura rápida, com grande capacidade de síntese, partindo sempre de ideias elementares construídas a partir de desenhos criados pelo próprio autor para servir de conexão entre o tópico a ser tratado e o mundo real.

            Ao final de cada capítulo o autor incluiu três blocos. O primeiro é “Quem é Quem”, de modo a permitir ao leitor uma breve informação sobre os pesquisadores citados. O segundo é “Notas Técnicas”, no qual algumas definições e dados técnicos sobre grandezas físicas são apresentados. Por fim, o terceiro é “Cultura Geral”, que traz uma descrição informativa sobre algumas citações e curiosidades empregadas no texto, sem a necessidade de se fazer uma busca na internet, porém, houve uma preocupação do autor em acrescentar no final do livro os endereços dos sítios na internet, nos quais o leitor poderá encontrar conteúdo mais completo.

            O livro está bem escrito e, embora não apresente fórmulas para mostrar as relações entre as grandezas físicas, os conceitos físicos apresentados no livro estão claros e, tecnicamente, consistentes. O leque de tópicos apresentado pelo autor é bastante amplo, o que dá ao leitor uma visão geral dos fundamentos da Física Clássica.  

            Olhando com os olhos de um leitor comum, percebi que alguns pontos poderiam ter recebido um pequeno esclarecimento. Dentre estes, no capítulo 1, a escala Kelvin é mencionada como escala absoluta de temperatura, mas não foi dada a relação entre ela e a escala Celsius, o que facilitaria a compreensão do leitor. No capítulo 3, quando cita o Big Bang, o leitor pode entender que esse é o único modelo cosmológico que trata da evolução do universo. Na verdade, Cosmologia é a parte da ciência que procura descrever a evolução do universo em larga escala e há vários modelos que partem de um estado extremamente denso e quente. No capítulo 5, o autor utiliza a expressão “espaço-tempo”, que por ser um conceito fundamental para a distinção entre a Física Clássica e Teoria da Relatividade Geral merecia uma descrição nas Notas Técnicas. No capítulo 7, o autor cita “maniqueísmo”, mas nem todos os leitores, especialmente os mais jovens, têm ideia do que significa. Quando o autor menciona a energia produzida por segundo pelo Sol (cerca de 4 x 1023 quilowatts) poderia ter feito uma comparação com a energia produzida pela Hidroelétrica de Itaipu, que desde a sua inauguração até hoje produziu algo em torno de 7,5 x 108 quilowatts por segundo, uma diferença de ordem de grandeza de 1015, algo extraordinário. No capítulo 14, o autor poderia ter colocado nas Notas Técnicas a definição física sobre vácuo, pois muitos leitores imaginam vácuo como a ausência exclusivamente de ar. No capítulo 15, quando menciona a velocidade de propagação do som como 340 m/s, seria interessante ter indicado que isso equivale a 1224 km/h, que é a velocidade para o rompimento da barreira do som pelos aviões de caça. Claramente, a ausência de tais notas não compromete a qualidade do conteúdo do livro, apenas facilitaria ao leitor a compreensão do conteúdo.

            Para os leitores com maior aguçamento pela física, o autor teve a perspicácia de sugerir alguns experimentos simples, que podem ser realizados sem necessidade de grandes recursos técnicos ou noções mais apuradas de física. Alguns exemplos de caso são a propagação e interferência de ondas em um lago, a fibra ótica caseira, entre outros.

            Uma comprovação do que mencionei no artigo sobre as dificuldades da divulgação científica no Brasil pode ser notadamente constatada na lista de livros citados pelo autor como sugestão para consulta e futura leitura. Nela, vemos que quase todos os livros foram escritos por autores estrangeiros, tendo sido traduzidos para o português. O que me conforta é que em uma próxima lista, o livro do Dr. Luiz F. Pires poderá constar e que, até lá, este livro tenha estimulado os nossos jovens à ciência e o público em geral à leitura de livros e artigos de divulgação científica e tecnológica no Brasil.

[1]A Radiobrás foi criada em 1975 e em 1988 foi incorporada à Empresa Brasileira de Notícias (EBN). Em 2008, foi criada a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), que passou a gerenciar as antigas atribuições da Radiobrás.

[2] Disponível em: shorturl.at/isxDJ.