20/07/2021

O esforço etnográfico na Comunicação Social e suas possíveis contribuições éticas

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16/07/2021 -  Vanrochris H. Vieira

Os esforços etnográficos na pesquisa em Comunicação Social no Brasil são esparsos. A imensa maioria dos trabalhos tem caráter midiacêntrico, ou seja, focado nos meios de comunicação. Sabemos o quanto a mídia é essencial na sociedade contemporânea, tendo se tornado o processo interacional de referência, como classifica José Luiz Braga. Olhar para a mídia nos diz sobre a sociedade em que vivemos, assim nos ensinaram os Estudos Culturais Ingleses. Dessa forma, uma pesquisa que busca analisar a representação da mulher nos comerciais de cerveja, por exemplo, é muito importante, porque diz sobre as relações de gênero presentes no nosso país no momento da pesquisa.

Não há absolutamente nenhum demérito em estudar a mídia, como áreas como a Sociologia já pensaram no passado. Pelo contrário, a área científica da Comunicação Social surge a partir dessa demanda, tendo como marco os Estudos de Comunicação de Massa da Escola Americana, no início do século XX. Entretanto, o olhar da Comunicação se estabelece como algo além da mídia, ele pode nos revelar muito também sobre os processos comunicacionais que ocorrem sem o intermédio dela. Afinal, o termo “comunicação” se refere a muitas coisas, como a fala, os signos, a coordenação dos atos compartilhados etc. Antes mesmo de a Escola Americana estudar a mídia, o Interacionismo Simbólico falava da comunicação enquanto interação mediada por símbolos significantes. George Herbert Mead, pai dessa perspectiva, ia além e dizia que é a comunicação que possibilita que o “eu” surja, pois é na relação com os outros que construímos quem somos.

A área da Comunicação Social, entretanto, parece ter esquecido ou abandonado essa perspectiva. É verdade que valiosos esforços para adequar teorias interacionais como as de Erving Goffman aos meios de comunicação existem. Excelentes trabalhos com esse propósito são realizados no Grupo de Pesquisa em Imagem e Sociabilidade da Universidade Federal de Minas Gerais (Gris-UFMG), do qual faço parte e no qual o meu livro, Gays evangélicos: vivendo no front[1], foi concebido. Também é verdade que o potencial etnográfico tem sido acionado por vezes para entender os meios de comunicação ou para usá-los como ferramenta para entender algo. É o caso do importante trabalho de Heloísa Buarque de Almeida, Telenovela, consumo e gênero: “muitas mais coisas”[2], que acompanhou a recepção da novela O Rei do Gado na cidade mineira de Montes Claros. Também há produtivos esforços para criar metodologias de etnografia a partir dos meios de comunicação, o que Carmen Sílvia Moraes Rial chama de “etnografia de tela”. Há ainda estudos voltados especificamente para interações por meio da Internet, o que tem sido chamado de “netnografia”.

Entretanto, é muito raro e ousado nessa área propor um trabalho independente dos meios de comunicação, que volte o olhar comunicológico para as interações imediatas. Faço uma ressalva em relação a estudos de Relações Públicas, que muitas vezes se voltam para processos de comunicação diretos entre organizações e seus públicos. No mais, estudos com essas características costumam ser rejeitados de antemão pelos pares, como se não fossem pertinentes à área: “Essa pesquisa é de Antropologia ou de Sociologia”. Mas será que a Comunicação Social não tem um ponto de vista diferente para agregar ao estudo desses fenômenos? Foi com esse desafio que surgiu a pesquisa que deu origem ao livro Gays evangélicos: vivendo no front, uma etnografia multissituada realizada em quatro igrejas e grupos de militância LGBT de Belo Horizonte. Essa pesquisa usou o conceito de comunicação de George Herbert Mead, alimentando-o com as perspectivas de George Simmel e William Isaac Thomas, e tencionando-o com teorias de Mikhail Bakhtin e Michel Foucault, autores que já são caros e recorrentes na área, mesmo nos estudos midiacêntricos.

Um trabalho etnográfico como esse, porém, traz muitos desafios para a área da Comunicação Social, que há muito tempo já têm sido enfrentados pela Antropologia. Essas questões não são levantadas na formação de um comunicólogo, justamente porque ele não é preparado para realizar esse tipo de investigação. Será que um estudo comunicológico pode dar respostas diferentes aos problemas éticos da etnografia? Na pesquisa de Gays evangélicos: vivendo no front, eu me deparei com muitos dilemas, alguns dos quais um olhar comunicológico poderia lançar alguma contribuição.

Para começar, dividi as interações que tive com as pessoas em campo em dois tipos: públicas e particulares. As falas públicas foram aquelas proferidas para todas as pessoas em um ambiente aberto à participação de qualquer um. É o caso dos cultos religiosos ou das reuniões dos grupos de militância. As falas particulares foram aquelas em que alguém dizia algo para mim ou para mim e mais algumas pessoas isoladamente, sem que todo mundo pudesse ouvir – e na maioria das vezes, com a intensão de que só nós escutássemos. Ao fim da pesquisa, o texto foi escrito dando nomes fictícios a todos os envolvidos, com exceção das figuras públicas mais proeminentes. Mesmo assim, ao final do trabalho, enviei a cada pessoa que tinha me dito algo em particular o que eu havia escrito sobre isso, perguntando se a pessoa concordava com o que eu escrevi. Todos os envolvidos estiveram de acordo, com exceção de um interlocutor. A história dele tinha um papel relevante na pesquisa, então pedi que ele explicasse para mim o que precisava ser mudado, mas ao invés disso, ele me pediu para tirar essa parte do texto da pesquisa. Foi uma perda que fez com que eu tivesse que reelaborar todo o texto, pois havia uma seção inteira dedicada à sua história.

Pelo fato de eu ter dado nomes fictícios a todos os personagens, eu não havia tido a intenção inicial de pedir essa avaliação deles. Entretanto, foi na banca de defesa da pesquisa que uma das avaliadoras me questionou sobre isso. Ela me perguntou: “Se sua intenção é gerar um conhecimento em colaboração com essas pessoas, e não denunciá-las, porque você está falando por elas e não com elas? Você sabe se o que você escreveu realmente representa elas?”. Foi então que eu fiz esse movimento, para entregar o texto final reelaborado. No fim das contas, toda essa dinâmica me fez pensar numa lógica do jornalismo: a das declarações em off. São falas de uma pessoa para o jornalista que ele não pode publicar, porque a pessoa pediu que ele mantivesse em segredo.[3] Essas falas ajudam o jornalista a ter mais conhecimento sobre o caso, mas não podem ser divulgadas. Na pesquisa etnográfica em Comunicação Social, pode ser importante entender quando alguém fala algo em off, a fim de manter essa lógica ética cara à área.

Durante o trabalho de campo, um fato interessante que ocorreu foi em torno da preparação da Parada do Orgulho LGBT do ano em que a pesquisa foi realizada. O grupo de militância que estava sendo acompanhado é o que promove a Parada de Belo Horizonte. Em uma das reuniões das quais participei, foi pedido que cada pessoa desse uma sugestão de slogan para a Parada daquele ano. Em meio a uma observação participante, eu pensei em um e sugeri. No final das contas, a minha sugestão foi a escolhida pelo grupo. Imagine você o pesquisador ser responsável pela temática do evento que agrega milhares de pessoas na cidade? Como comunicólogo, sei da importância que um slogan tem num evento como esse. Por isso, entendi o quanto minha presença em campo alterou de forma muito significativa os processos de comunicação que eu estava tentando compreender. Qual a solução para esse dilema? Eu pessoalmente, tendo defendido a pesquisa e publicado o livro, ainda não cheguei a uma resposta...

Tentei abordar aqui a importância do esforço de pesquisas não midiacêntricas na área da Comunicação Social e levantar algumas contribuições ou questionamentos éticos que a área pode dar para esse método. Espero que meu livro possa ajudar futuros pesquisadores da área a se aventurar por essa perspectiva.

[1] VIEIRA, Vanrochris Helbert. Gays evangélicos: vivendo no front. Curitiba: Appris, 2021.

[2] ALMEIDA. Heloisa Buarque de. Telenovela, consumo e gênero: “muitas mais coisas”. Bauru: EDUSC; São Paulo: Anpocs, 2003.

[3] O uso do termo “em off” no jornalismo pode ter dois significados. O primeiro é que a informação pode ser usada, mas a fonte deve ser mantida em segredo. O segundo é que nem a fonte, nem a informação devem ser reveladas. Essa última é chamada de “off total”. Como explicado, refiro-me a esse segundo uso do termo.


 

 

 

 

 

 

Vanrochris H. Vieira - Doutorando do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGICH/UFSC), área de concentração Estudos de Gênero, linha de pesquisa Gênero e suas Inter-Relações com Geração, Etnia, Classe. Atualmente pesquisa o futebol gay. Mestre em Comunicação Social (linha Processos Comunicativos e Práticas Sociais) pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com financiamento do CNPq. Cursou a graduação em Comunicação Social na UFMG, com habilitação em Jornalismo e período de intercâmbio (seis meses) no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa (ISCSP/UTL), em Lisboa, Portugal, com financiamento do Governo Federal. Também possui formação técnica em Informática Industrial, pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG) e é analista de mídias sociais pela Universidade Aberta e Integrada de Minas Gerais (UAITEC).