06/08/2021

Os jogos olímpicos, o futebol, as mulheres

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06/08/2021 - Alexandre Jackson Chan Vianna.

Desde 1896 e a cada quatro anos, salvo as interrupções das guerras e da atual pandemia, são disputados os Jogos Olímpicos da era moderna. Para dentro do mundo do esporte, os Jogos representam o auge das performances atléticas, a idealização de excelência de todo praticante e a consolidação de tendências mundiais de técnicas de sucesso que posteriormente serão reproduzidas até por iniciantes de cada uma das modalidades evidenciadas. De uma forma mais ampla e para fora desse mundo, além do espetáculo midiático global e da consequente movimentação econômica que gera, o espetáculo olímpico marca a sincronicidade dos movimentos sociais e políticos mundiais para a História com fatos e imagens objetivas. O processo de busca da igualdade de gênero é um caso relevante.

As mulheres se metem nos Jogos criados pelos e para os homens da aristocracia europeia desde sua segunda edição. De lá pra cá, o crescimento absoluto e relativo aos homens é evidente, chegando a dividir a participação em igual parte de atletas nas edições de 2016 e 2020. No exemplo mais específico do nosso país, a entrada e o aumento do número de mulheres são os principais fatores do crescimento no número de medalhas conquistadas e a subida no ranking entre os países competidores. Além da participação geral, a cada edição dos Jogos as mulheres competem em mais modalidades até então exclusivas dos homens e são criadas regras ou esportes para competições mistas com equipes reunindo homens e mulheres. Os resultados medidos pelo tempo, a distância ou a performance também marcam a cada edição os limites que as mulheres são capazes de alcançar. Todas essas realizações, apresentadas no olimpo, tornam parvos os argumentos gerais de uma natureza incapaz das mulheres para determinadas tarefas.

Mais recentemente se uniram aos fatos da participação e do desempenho marcas de como as mulheres querem não apenas ser, mas parecer diante dessas façanhas. O caso do direito de utilizarem capuz para cobrir a cabeça como peça do uniforme, permitindo a participação sem quebrar uma norma religiosa e de costumes regionais, é um exemplo. O mais recente, porém, de atletas recusarem as tradicionais roupas que promovem mais a sexualização dos corpos que auxílio para o desempenho não trata em nada de concessão para serem aceitas, pelo contrário, de correção de como querem ser vistas e evidenciadas.

No entanto, se os Jogos marcam e disseminam os feitos das mulheres da elite esportiva para a sociedade no decorrer do tempo, não são capazes de apresentar a trajetória e as transformações da mulher anônima no processo para conquistar o direito de um estilo de vida esportivo.

Tomemos o caso do futebol para as mulheres em nosso país. Mesmo com uma das principais seleções nacionais do mundo, ainda nos debruçamos no debate do senso comum se a modalidade é um espaço feminino e, se é, quem seriam essas mulheres que fazem a opção pela modalidade de tradição e pelo predomínio masculino. Apesar dos constrangimentos legais e sociais, não são poucos os lugares no país em que ser mulher e ser jogadora de futebol ainda é sinônimo de algum desalinho entre esses dois papéis, o que imputa um estigma que atinge até a intimidade dessas mulheres. Aquelas que chegam à excelência – distante de nós portanto – de alguma forma recebem o reconhecimento e respeito pelas escolhas que fizeram, mas e aquela que está ao nosso lado ou frequentando nosso cotidiano?

Como em geral em todas as práticas esportivas, as meninas que tentam e permanecem jogando futebol o fazem ainda criança e inicialmente pelo gosto para depois construírem sonhos de se tornarem atletas olímpicas. Dadas as circunstâncias do talento individual e da trajetória de vida que o campo de possibilidades de cada uma permitiu, em algum momento grande parte dessas meninas precisam reorganizar seus projetos de vida e incluir o futebol como lazer, portanto, desprovido de funcionalidade social. Nesse processo, sem mais as justificativas da profissionalização, cada menina que insiste em jogar bola necessita construir uma narrativa, uma identidade que equalize ser mulher e praticante de futebol para se apresentar para a família, a comunidade e, de forma reflexiva, para si mesma.

O livro Meninas que Jogam Bola descreve como esse processo ocorre com jovens mulheres dos subúrbios do Rio de Janeiro. Reflexividade sobre ser mulher, a relação esporte e diversidade sexual, as transformações da intimidade, a importância da escola pública no início da trajetória esportiva, a família, a profissão e as redes de sociabilidade são temas caros que elas apresentaram para equalizar uma narrativa de si e para permanecerem jogando. A fundamental importância do lazer esportivo como espaço de transgressão e construção de projetos de vida reflexivos divergentes das imposições de uma feminilidade tradicional dada em nossa cultura é analisada no livro. Resposta que nem mesmo o poder midiático os Jogos Olímpicos consegue descrever.


Alexandre Jackson Chan Vianna é doutor em Educação Física pela Universidade Gama Filho/RJ (2010), tendo realizado estágio na Universidade do Porto – Portugal (2009). Especializado em Gestão de Recursos Humanos (1996) e Basquetebol (1992). Licenciado pleno em Educação Física (1990). É docente dos cursos de Educação Física e chefe do Centro Olímpico da Universidade de Brasília – UnB.