16/09/2021

Pedras, plantas e animais: as formas de classificar os seres, no Lapidário de Afonso X, o Rei Sábio (1221 – 1284)

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16/09/2021 - Carlinda Maria Fischer Mattos

Em meados do século XIII, o Infante Afonso torna-se rei de Leão e Castela. Por formação, trata-se de um rei culto, que manifesta intenso interesse pelo comportamento dos astros no céu, pela vida dos animais, pelas virtudes de pedras e plantas; conhece o latim, elabora leis, importa-se com a História de seu reino. Afonso X (1252 – 1284) manda compor várias obras e traduzir outras tantas do árabe para o castelhano, algumas para o latim, tendo merecido, portanto, a alcunha de Sábio.

Entre os vários documentos que manda traduzir, perfila-se o Lapidário, que reúne 360 pedras, cada qual cunhada pelo influxo de uma estrela no céu. A maneira como as pedras são descritas, bem como a forma como se relacionam com outros seres, dão-nos a oportunidade de perguntar ao texto de que forma os seres, na sua diversidade, eram vistos e apreciados na época em que foi traduzido, em Castela, em 1250. Pensar em como as pedras, na qualidade de remédios ou amuletos, agem sobre o corpo supõe uma ideia acerca da maneira como este funciona, que relações estabelece com seu entorno.

Tais concepções não estão destacadas daquelas que são correntes na época. Algumas delas faziam parte do repertório de receitas tradicionais, passadas de geração a geração; outras se apoiavam em ideias populares correntes; outras, ainda, ancoravam-se em pressupostos bastante sofisticados, oriundos de meios cultos. Que concepções seriam essas?

Tal questionamento nos parece tanto mais importante na medida em que Afonso X vive numa época na qual novas formas de ver o mundo e os seres estão sendo elaboradas, combinando-se, articulando-se, enfrentando-se com as anteriores. Há, por um lado, uma maneira de ver os seres que é orientada por critérios anatômico-fisiológicos e que está preocupada em entender como estes se organizam internamente para realizar as funções que promovem a vida; por outro, há formas de ver e categorizar os seres segundo seu comportamento ou de acordo com as qualidades úteis aos homens – se são dóceis ao trato, se servem para tração ou fornecem alimentos, se são venenosos ou se com eles podemos curar muitos males, se são quentes, frios, úmidos ou secos, se com eles podemos ficar alegres ou sentir uma tristeza imensa, se com eles podemos nos sentir protegidos em relação aos inimigos etc.

Há um conjunto de concepções presentes em Castela de meados do século XIII que dão suporte à elaboração e à leitura do documento afonsino, e constitui-se num importante desafio identificar ao menos algumas dessas ideias ali presentes se quisermos entender como os seres – pedras, plantas, animais, seres imateriais, homens e estrelas – são ali descritos, como se relacionam, como são valorados.

Convidamos os leitores a mergulhar nesse mundo medieval, que via a natureza com lentes consideravelmente diferentes das nossas, na obra em questão.


 

Carlinda Maria Fischer Mattos é doutora em História, com ênfase em Cultura e Representações, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Fez estágio de doutorado na Université Denis Diderot (Paris 7), em Paris, França, sob orientação da doutora Maake Van der Lugt, ligada ao Groupe d’Anthropologie Scolastique (GAS)/École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). Atualmente, desenvolve pesquisa em História Medieval, com ênfase em Ciência Medieval. O foco dessa atividade recai sobre a maneira como os homens do período medieval entendiam e explicavam os fenômenos naturais, a organização do corpo e sua relação com os demais seres. É cofundadora e membro atuante do Grupo de Estudos Medievais Vesica Piscis, já coordenou o GT de Estudos Medievais do Rio Grande do Sul.