22/05/2019

Freud Explica? Medo, Pânico e Desamparo

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22/05/2019 - Por: Carlos Eduardo de Sousa Lyra

 

A psicanálise é uma área do conhecimento voltada para o entendimento do sujeito a partir das diversas formações do inconsciente, quais sejam: os sonhos, os sintomas, os atos falhos, os chistes etc. Nesse sentido, Freud desenvolveu um método sistemático de análise do psiquismo, de suas motivações inconscientes, bem como de suas manifestações na clínica e na cultura. Tal método estava fundamentado originalmente na associação livre de ideias, em geral utilizada na interpretação de sonhos ao longo do tratamento psicanalítico, tendo, posteriormente, avançado para a interpretação de fenômenos clínicos como a resistência e a transferência.

Com base nos dados obtidos por meio da aplicação do método psicanalítico, Freud estabeleceu alguns pressupostos fundamentais: 1) o psiquismo é dividido em instâncias: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente, sendo que este último atua de modo dinâmico e ativo, influenciando as demais instâncias psíquicas; 2) o inconsciente está diretamente associado à existência de pulsões sexuais e agressivas, que são reguladas pelo ego, por meio de seus mecanismos de defesa; e 3) a origem dos sintomas está relacionada com eventos traumáticos ocorridos na infância, que apontam para a existência de uma sexualidade infantil, de natureza pré-genital, cujo desenvolvimento realiza-se em estágios relacionados a zonas erógenas específicas do corpo (oral, anal e fálica). Além disso, as formações do inconsciente também sofrem influências da cultura, sendo condicionadas pelas contingências históricas que determinam a existência de um mal-estar na civilização, com impactos sobre o sujeito na clínica psicanalítica e em outras áreas, a exemplo das artes, da literatura, da filosofia, da ética, da educação etc. Assim, na contemporaneidade, observamos uma maior incidência de sintomas como a depressão e a ansiedade, e de quadros psicopatológicos como o transtorno de pânico.

Os sintomas relacionados ao transtorno de pânico já haviam sido classificados por Freud, no final do século XIX, como neurose de angústia. Esta era caracterizada por ataques de ansiedade, acompanhados, muitas vezes, de agorafobia ou depressão periódica. A neurose de angústia era considerada – juntamente à neurastenia e à hipocondria – uma neurose atual, em contraposição às psiconeuroses de defesa – histeria, neurose obsessiva e paranoia.

É interessante fazer uma distinção entre o transtorno de pânico e a fobia. Para ilustrar melhor essa diferença, imaginemos o contexto da Guerra Fria nas décadas de 1970 e 1980. Os estadunidenses viviam num estado de ansiedade, temendo um ataque por parte da União Soviética e vice-versa. Assim, havia uma tensão permanente entre as duas nações inimigas. A qualquer momento, o conflito poderia ser desencadeado. Contudo ambas as nações estariam supostamente preparadas para se defender, caso isso viesse a acontecer. Sabia-se quem era o inimigo. Já em 2001, o contexto era outro: Nova York é atacada repentinamente, sem qualquer possibilidade de defesa. Não se sabia quem era o inimigo. Apenas num momento posterior, elegeu-se um responsável pelos ataques. As pessoas entraram em pânico. O medo de um novo ataque terrorista tomou conta dos Estados Unidos e de outras nações mundiais. Não havia como prever ou se defender de um ataque terrorista, pois poderia acontecer em qualquer lugar e a qualquer momento.

Podemos, então, comparar o contexto da Guerra Fria à fobia, na qual o inimigo é conhecido e pode ser combatido. Dessa forma, o indivíduo fóbico é capaz de se defender da ansiedade ao associá-la a um objeto externo, o que caracteriza a sua fobia ou medo. Por outro lado, podemos comparar o contexto dos ataques terroristas de 2001 com os ataques de pânico, em que o inimigo é desconhecido. O indivíduo portador do transtorno de pânico não pode prever um ataque, por isso é incapaz de se defender quando ele acontece e, como afirmado, um ataque de pânico pode ocorrer a qualquer momento e em qualquer lugar. A ausência de um objeto definido, contra o qual o sujeito possa se defender, pode gerar, muitas vezes, uma sensação de morte súbita ou de iminente loucura. É somente na fase de ansiedade antecipatória e de esquiva fóbica que o indivíduo pode eleger uma representação para sua ansiedade. Contudo qualquer representação é incapaz de conter a possibilidade de um novo ataque de pânico, pois nesse quadro psicopatológico a defesa não é tão consistente quanto na fobia.

Assim, a característica principal do ataque de pânico é o desamparo diante de uma situação ameaçadora. Esse desamparo aponta para uma origem inconsciente, podendo estar relacionado a algum evento traumático da infância.


Carlos Eduardo de Sousa Lyra é professor adjunto da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Doutor em Ensino, Filosofia e História das Ciências (UFBA/UEFS). Mestre em Psicologia (PUC-Rio). Graduado em Psicologia e Filosofia (UFPB). Possui artigos publicados em periódicos científicos nacionais nas áreas de Psicologia, Psiquiatria, Neurociências, Filosofia e História. É autor do livro Da angústia ao pânico: sonhos, sintomas e desamparo (2018), publicado pela Editora Appris.