19/10/2021

O desafio da formação do educador para o uso das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) e as pesquisas em rede

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19/10/2021 - Maria Goreti Amboni Stadlober. 

O ensino, público e privado, tem por missão uma educação transformadora. A prioridade à formação docente integrada aos signos virtuais, e acompanhada do respeito às diferenças e do diálogo constante poderá fazer a diferença no reconhecimento e atendimento às demandas dos professores em formação inicial em todos os cursos das universidades, não somente públicas, como também privadas[1].

Pesquisas integradoras e qualitativas em rede têm sido a tendência do momento nas universidades públicas. Elas investigam a educação em rede planejada para a formação inicial de professores e para integrar as Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) aos processos de ensino e aprendizagem, e se multiplicam em todo o país.

Em diversas pesquisas observamos que a comunicação e a própria aprendizagem se faz com a utilização de telefones, e-mails, aplicativos Whatsapp, plataformas, instrumentos on-line, elaborados no aplicativo Google Forms, entrevistas e questionários, entre outros. Mídias diversas e aplicativos diversos não têm sido suficientes no que tange à pesquisa, por isso, às vezes é necessário um contato presencial do pesquisador com as universidades.

O pesquisador se vê diante de um grande desafio: o de formar sua rede com o apoio de coordenadores, professores e alunos, a fim de levar a bom termo seu trabalho. O momento presente tem sido ainda mais desafiador para o contato com as Instituições de Ensino Superior (IES) e Instituições de todos os níveis, públicas ou privadas, de acordo com o recorte pretendido. Os coordenadores têm encontrado resistência por parte de alguns docentes em responderem aos instrumentos de pesquisa, tais como questionários, entrevistas, e, mais desafiador ainda, tem sido encontrar estudantes e professores disponíveis para essas participações.

Em muitas ocasiões o convite feito diretamente pelo pesquisador aos coordenadores e à comunidade acadêmica para participações em estudos é simplesmente desconsiderado, pois esse processo requer o mínimo de reflexão para as respostas. Isso, porém, não impede que o pesquisador avance nas suas intenções.

A fim de se obter resultados consistentes e configurar o caráter qualitativo da pesquisa, são requeridos testemunhos de estudantes, docentes e coordenadores das universidades, além de técnicas de cotejo associadas a métodos mistos com documentos oficiais do Ministério da Educação, especialmente a Resolução 02/2015 (BRASIL, 2015), que define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial de cursos superiores — cursos de licenciatura, de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura e para a formação continuada.

Os Planos Orientadores ou Institucionais (PO/PI), conforme determinam algumas universidades, os Projetos Político Pedagógicos dos cursos, as ementas de disciplinas dos referidos cursos também contribuem para essa natureza de pesquisa, embora não seja muito simples encontrar tais documentos disponibilizados nos diversos portais das Universidades.

A investigação ao modo como o uso educativo das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) se integra aos cursos em geral e a análise dos estágios do trabalho desenvolvido pelas Universidades ampara-se preferencialmente nos padrões de competência da UNESCO (2008), que tratam da alfabetização em tecnologia, ou letramento digital, como chamam alguns pesquisadores; do aprofundamento do conhecimento, e da criação do conhecimento.

A fundamentação teórica tem se valido de categorias ecossistêmicas envolvendo a teoria da complexidade, os pressupostos da auto-organização dos organismos vivos, a dialogia. Os princípios da dialogia, estética e a compreensão da teoria da comunicação dialógica, polifônica e intertextual são mobilizados nessas bases e a perspectiva culturalista tem evocado reflexões no que tange à utilização crítica dos recursos da cultura digital.

As reflexões críticas buscam superar concepções tradicionais de educação tecnicista difundidas no passado na Europa e nos Estados Unidos, principalmente. Também abordagens propositivas para um currículo ativo e amplo envolvendo a epistemologia sociopsicopedagógica. Estas reflexões têm dado sustentação também às pesquisas no contexto educacional brasileiro.

Na perspectiva documental e na análise de conteúdo encontramos referências para a organização de dados que estejam vinculados às práticas. Também as pesquisas no âmbito da ação comunicativa, da pedagogia, da formação de professores à metodologia e prática do ensino de línguas e literatura, e no âmbito da análise e produção de textos, têm sido bastante significativas para compor a junção teoria e prática na área das humanas.

O letramento, letramento digital, multiletramentos apontam à prática da experiência de linguagem, com a leitura, escrita, audição e fala, no processo pedagógico de formação inicial. Nessa perspectiva encontramos ênfase aos métodos de alfabetização mais adequados ao contexto da aprendizagem, com foco no público da aprendizagem, na formação da consciência crítica, histórica, antropológica, interativa e colaborativa, não importando o contexto, se midiático ou presencial, em que a alfabetização se aplique.

As pesquisas apontam que tem sido um grande desafio, tanto para os estudantes quanto para as instituições de ensino transpor esta metodologia de ensino à modalidade virtual. Desafios estes, advindos principalmente das parcas condições tecnológicas para a comunicação e aprendizagem virtuais.

Os estudos focam, sobretudo, as linguagens hipermidiáticas, as matrizes da linguagem e do pensamento. Eles trazem em comum a cibercultura, os processos dialógicos, sociológicos e antropológicos na comunicação, interligados em rede e não somente nacionais como internacionais, globalizados. Assim, se destacam as temáticas da desterritorialização, aprendizagem colaborativa, aprendizagem significativa, do “estar junto virtualmente”, da interação pedagógica digital, interação e linguagem, do culturalismo e do uso social das TDIC.

As pesquisas em dialogia digital, mediação partilhada, contratos simbólicos das práticas da comunicação virtual minimamente civilizada, têm sustentado a proposta de formação continuada. Nesse sentido, a discussão sobre multirreferencialidade encontra ressonância em aspectos de heterogeneidade de pontos de vista na perspectiva humanista, aprendizagem colaborativa e tecnologias da inteligência utilizadas por estudantes com necessidades especiais, conhecimento e comunidades virtuais de aprendizagem.

Também, as contribuições no que tange ao valor das pesquisas em ciências naturais e sociais associadas intrinsecamente às ciências exatas e biológicas, demonstram uma trajetória conjugada na formação da cibercultura, em contextos de práticas curriculares em cursos de universidades e mostram-se relevantes à formação do educador.

Os eixos temáticos materializam-se na metodologia utilizada e daí se extraem categorias para dar consistência ao texto das pesquisas envolvendo teoria e prática da formação do educador em rede, uma forma de trabalho docente e discente multirreferenciada e ressignificada pelo conjunto, por aquilo que é “tecido em rede”. 

No aspecto pedagógico e epistemológico, as pesquisas apontam para a preservação, sustentabilidade, teorização de práticas, com o rigor científico e análise etnográfica do objeto, assim como se destacam pesquisas em complexidade, multidisciplinaridade e transdisciplinaridade.

Nas perspectivas citadas, a formação dá-se na horizontalidade pela ação colaborativa e, na verticalidade, pela percepção do próprio comportamento, do comportamento do ambiente e da interpretação e avaliação do significado de conhecimento ora elaborado; avaliação essa que deve ser a mais justa possível, entre pares, avaliação pedagógica, avaliação institucional, e a autoavaliação.

Esses estudos têm sido ressignificados a partir do currículo nas instâncias on-line, semipresencial e presencial e sua reformulação ativa, de acordo com a demanda da comunidade de pesquisa. As atividades produzidas em rede, em qualquer espaço físico, descaracterizam-se quanto ao lugar, uma vez que se configuram no ciberespaço.

Tem-se dado atenção às pesquisas que analisam a cultura de produção de conteúdo de diversas mídias convergentes e interativas, interferindo no comportamento humano e com a “internet das coisas”, o sistema de sensores conectados ao mundo físico e à internet e sustentado pelo “Marco Referencial da Internet”, que regula o seu uso, dando prioridade à democracia virtual. A multirreferencialidade, no prisma de disciplinas como psicologia, sociologia e pedagogia associadas à tecnologia, tem sido bastante enriquecedora em seu objetivo de propor liberdade, respeito e responsabilidade no aprendizado em rede.

No que se refere à inclusão digital, é prudente que se observe a perspectiva da complexidade a partir do enriquecimento social, cultural, intelectual e técnico, no contexto do ensino híbrido, ao qual escolas de todos os níveis tiveram de se adaptar nesses tempos de pandemia. A adoção de períodos on-line e períodos presenciais alternados em momentos críticos, por parte dos professores e das instituições, contribuiu para assegurar o mínimo de escolaridade aos estudantes, em todo o mundo.

Quanto ao comportamento do leitor diante do hipertexto digital, as pesquisas têm destacado a necessidade de explorar conceitos da semiótica e da cognição, entre outros, integrando disciplinas, pois uma nova forma de leitura e de escrita mais aproximadas do esquema mental, emerge. Isto significa que o modo como pensamos em hipertexto extrapola os limites da imaginação no que tange aos sentidos dados a uma palavra. São inúmeras as possibilidades imagéticas, sonoras ou textuais abertas por um link a um novo texto digital. A cada leitura, dimensões cognitivas apresentam-se superpostas, interpenetram-se e assim podemos dar asas à imaginação criando e recriando novas formas de compreensão do mundo e de nós mesmos.

Outra metodologia de análise dos estudos em rede aponta para o modelo misto, que trata os dados do objeto com grande autonomia, rigor e criatividade, visando à construção de sociedades de conhecimento inclusivas por meio das tecnologias digitais, além de conjugar aspectos da legislação vigente, o que também contribui para o reconhecimento da importância dos estudos e usos da temática das TDIC na experiência hipermidiática em qualquer área de formação e atuação docente.

            Em pesquisas acadêmicas com foco nas tecnologias digitais educacionais observou-se não haver ainda um consenso quanto ao uso das tecnologias digitais enquanto disciplinas ou componentes curriculares introduzidos no currículo de formação docente. Embora todos os cursos façam uso das tecnologias, plataformas e aplicativos, nem todas as universidades públicas pesquisadas ofertam disciplinas que abordam a referida temática ou refletem sobre seu uso. Um fator importante para esse resultado nada animador tem sido o pouco incentivo do governo às propostas de formação docente e à formação do educando.

A sugestões de melhorias na comunicação na pesquisa em rede saltam da participação do pesquisador face-a-face com os participantes da pesquisa à aquisição de aparelhos e plataformas atualizados para o uso da tecnologia na sua formação universitária e continuada.

A maioria dos estudantes, sejam de escola pública ou privada, possui computador em casa, porém, uma minoria usa o celular para estudos, alegando as precárias condições da internet na universidade em que frequentam. Ainda não há uma compreensão clara da influência da política na temática tecnológica; embora seja de comum acordo que a tecnologia promove avanços culturais e competências. Grande parte dos alunos e professores acreditam que a tecnologia pode melhorar a interação humana e linguística, e o aspecto pedagógico e metodológico dos cursos.

Uma nova forma de pensar, sentir e criar, não tecnicista, não mecânica e engajada no processo cultural e complexo dos estudantes e professores requer leituras críticas ao sistema econômico, com discussões sobre os grandes desafios originados pela falta de recursos destinados ao ensino público, e ações que sensibilizem representantes do sistema governamental à gestão racional e equacionada de recursos em todos os níveis de ensino, também apontadas nas pesquisas.

Mostram também que caminhar empoderado significa dialogar com a interculturalidade, o interconhecimento, dado que as tecnologias estão integradas no cotidiano das instituições em todos os níveis de ensino e aprendizagem. As tecnologias estão associadas e integradas à “racionalidade comunicativa”, considerada também uma categoria, assim como o são a cibercultura, dialogia, gêneros Multimodais, interação, letramento, letramento digital, multiletramentos, pedagogia digital, formação inicial e continuada e multirreferencialidade. As tecnologias precisam integrar-se a projetos de pesquisa, experiências de integração da cibercultura na formação inicial ou na formação em tecnologia para buscar integração com o ensino básico.

Parece também haver um descompasso entre as políticas públicas e o aparelhamento das Instituições de Ensino Superior (IES), laboratórios, teoria e prática, reflexões sistemáticas sobre dialogia e gêneros multimodais. São desafios da formação e capacitação docente e discente: o pouco interesse pela área na pesquisa; o limitado investimento na formação de professores para o mundo tecnológico; as frágeis políticas de segurança de internet; os insuficientes estudos sobre as TDIC nas culturas locais; nas políticas de formação continuada.

As pesquisas refletem sobre a condição do docente diante das mídias com as quais se depara no seu ensino. Antes de ensinar o estudante a se tornar digital é preciso que o docente se torne digital e engajado com as TDIC. Requer-se, portanto, a oferta de cursos de letramento digital a docentes.

O papel do coordenador de curso também mostrou-se relevante nas pesquisas a esse contexto, uma vez que ele facilita o acesso de alunos e professores ao uso das novas tecnologias, a começar pela aquisição de equipamentos atualizados, promoção de capacitações que facilitem as pesquisas e a comunicação entre equipes acadêmicas locais e de outras instituições. Ele também se ocupa com a revisão do Projeto Político Pedagógico (PPP) do curso, onde se pode incluir as tecnologias digitais como componentes de ensino, também se destaca como prioridade.

A função de coordenador se faz importante desde o momento da concepção de um curso, pois assim a motivação do grupo para criação de cursos, entre outros quesitos no que tange à metodologia e avaliação, podem agregar valor à instituição, trazendo benefícios à comunidade como um todo. Os coordenadores têm um papel fundamental na integração das tecnologias digitais em várias disciplinas do currículo; no incentivo continuado dos professores à pesquisa stricto sensu; na introdução das temáticas ainda não suficientemente trabalhadas nos cursos; e na quebra de resistência para inclusão da comunidade acadêmica nas discussões.

            Em parceria com os professores e a diretoria das universidades, o coordenador contribui para despertar os alunos ao amor pelo conhecimento aliado às novas tecnologias com olhar de criticidade, ao auxílio nas agendas de ensino dos professores, à promoção e gestão de Projetos Integradores, aglutinando tecnologias, à introdução da temática e o uso da tecnologia no estágio supervisionado, que se mostra um momento importante para o aluno obter segurança ao se lançar no mercado de trabalho.

            A associação de análise documental às pesquisas que envolvem o uso pedagógico das TDIC, mostra que as universidades públicas têm considerado fundamental introduzir a temática da ciência e da tecnologia na formação inicial em seus Projetos Institucionais e Projetos Político Pedagógicos. O que acreditamos válido também para as IES não públicas. Mostram também que a introdução das TDIC no ensino e na aprendizagem, apesar de lenta, é progressiva na maioria das universidades, dentre as quais há aquelas cuja temática faz parte da agenda.

Com políticas públicas restritas há impacto, ainda que indireto, na introdução da temática na formação inicial e continuada. Em algumas universidades a tecnologia está em franca expansão, contudo, as pesquisas remetem a alguns alertas. A universidade brasileira, como um todo, parece atenta à sua missão de desenvolvimento tecnocientífico. Porém, a atenção parece não se estender às reflexões necessárias diante de tantas informações inúteis que circulam pelas redes.

Outro alerta se faz no sentido de que a Universidade deve manter e evoluir na triangulação entre tese-antítese-síntese / ensino-pesquisa-extensão. O desafio maior seria estar sempre aberta a novas possibilidades de teses, com suas intervenções e antíteses, considerando todas as variáveis, à exaustão, até mesmo as que aparentemente são descartáveis. Pois é no jogo das contradições que uma pesquisa pode ser validada ou não.

É preciso destacar que Universidades Públicas Tecnológicas têm sido associadas ao foco das pesquisas em tecnologias educacionais, em sua admirável capacidade de articulação ante os diversos setores da sociedade estabelecendo parcerias produtivas com a comunidade acadêmica, mas necessitando ainda de uma integração tecnológica que caminhe pari passu com a sociedade. Os governos federal e estadual, ao aceitarem o desafio de suprir satisfatoriamente as necessidades do ensino superior no que tange à formação do educador para o uso da tecnologia, estariam investindo no processo político civilizatório, o que seria um avanço em termos culturais, contudo ainda estamos longe de atingir o todo.

Há que se pensar, a partir dos achados nas pesquisas em TDIC, em uma reforma da educação, com base no desenvolvimento da capacidade humana para alfabetização em tecnologia ou letramento digital; em aprofundamento e criação de conhecimentos conforme prescrevem as leis e os grandes teóricos na área. Os componentes curriculares (disciplinas) que compõem o currículo, os cursos na área da formação pedagógica, as TDIC, a organização e capacitação profissional fundamentaram os Padrões de Competência nos cursos de formação das universidades que, apesar dos esforços, ainda se encontram em fase de consolidação.

Em razão de estarmos ainda nesta fase, podemos considerar que o estágio atual das TDIC nas universidades, públicas principalmente, tende a ser compreendido a partir de uma “racionalidade instrumental”. As categorias da racionalidade comunicativa, dialogia, integração e formação, culturalismo, empoderamento, aprendizagem compartilhada e colaborativa, multirreferencialidade, letramento digital e letramento começam a despertar o interesse dos professores e estudantes das universidades. A Universidade Tecnológica Pública tem mostrado que a temática da formação tecnológica está em franco desenvolvimento. É preciso que reflexões e ações sobre a introdução da referida temática se espalhem em todas as universidades, uma vez que a legislação acolhe e na esfera das pesquisas em rede há grande incentivo por parte dos pesquisadores.

Na universidade, se prepara o estudante para exercer uma profissão, mas sua missão não se restringe a isso. A instituição tem também a missão de tornar o ser humano humanizado, racional, melhor e não somente instrumentalizado, também ética e moralmente ajustado e participativo dos costumes e da cultura onde vive.

Para saber mais sobre a formação do educador virtual, currículo ativo, entre outros temas da área, acesse:

Complexidade e dialogia em educação. Bases epistemológicas para a formação virtual continuada e o currículo em ação”, publicado pela editora Appris em setembro de 2021:

Acesse a obra por meio desse link: https://www.editoraappris.com.br/busca?s=complexidade+e+dialogia+em+educa%C3%A7%C3%A3o

[1] O teor deste comentário com as referências e justificativas, encontra-se publicado por Stadtlober e Pesce, na Revista Digital Olhares, Guarulhos v. 9, n. 2, agosto de 2021. Disponível em: https://periodicos.unifesp.br/index.php/olhares/article/view/11284/8659 Acesso em: 13 set. 2021.