12/11/2021

O COSMOS – como totalidade – está em nós: ultrapassa-nos, abraça-nos e constituí-nos

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12/11/2021 -  Albenides Ramos e Mario Luis Grangeia

 


O COSMOS –
como totalidade está em nós:  ultrapassa-nos, abraça-nos e constituí-nos[1]

Albenides Ramos e Mario Luis Grangeia

O Cosmo é tudo que existe, sempre existiu e sempre existirá, desse modo, incorporaremos as divisões temporais, o ontem, o hoje e o amanhã. Essa é a melhor forma de dizer o que é o Universo - o que influenciou o passado, influencia o presente e influenciará o futuro, seja com matéria, planetas, estrelas, luas, gravidade, tudo. Ele é formado por bilhões de galáxias, incluindo a Via Láctea, onde está a Terra, outros planetas, estrelas, nebulosas, satélites, cometas, asteroides e radiações - e outras coisas que ainda não descobrimos. Contudo, tentando simplificar, apesar de todo o desenvolvimento tecnológico, ainda existem incógnitas que acompanham a humanidade e respostas são dadas pela Teologia, pela Filosofia e outros campos do saber. Reconhecemos que a Ciência é uma forma histórica de conhecimento por estar em quase todos os momentos da vida do ser humano. É uma baliza para outras formas de conhecimento. Porém, o conhecimento científico não é mais considerado o “único” caminho para a verdade.

E a educação científica, como se concretiza em nossas escolas? Em nossas salas de aula? Poderemos derrubar os muros que separam os cientistas, os versados dos leigos? Ou, ainda, os negacionistas, terraplanistas e obscurantistas? Concordamos com o físico italiano Carlo Rovelli[2] quando ressalta:

         (...) “nós, seres humanos, somos laços de uma rede de trocas, em que nos transmitimos imagens, instrumentos informações e conhecimento. Todavia, do mundo que vemos, somos também parte integrante, não somos observadores externos. Estamos situados nele. Nossa perspectiva dele se origina de dentro. Somos feitos dos mesmos átomos e dos mesmos sinais de luz trocados entre pinheiros nas montanhas e a estrelas nas galáxias. (...) Somos como um filho único que cresce e aprende que o mundo não gira somente ao seu redor, como ele pensava quando era pequeno. Ele deve aceitar ser um entre os outros. (...). Se somos especiais, somos tanto quanto cada um pode ser especial para si mesmo, tanto quanto toda mãe é para o seu bebê.“.

O autor escreve sobre hipóteses da Física Quântica – que rege a dança das partículas, que são à base de tudo o que existe no Cosmo afora. Como a Ciência está em um contexto sociocultural, precisamos dar importância à Literatura e à Arte para explorar o imaginário e a criatividade dos alunos. Em suas palavras: “a ciência é muito parecida com a música. Não é fácil construir instrumentos nem compor magistralmente uma bela canção que agrade a todos. (...) Apreciar a ciência significa admirar a compreensão de tudo o que se sabe no mundo, e do que ainda se há de saber dele, tarefa prazerosa para qualquer um que tenha contato com ela.” (grifo nosso). De mãos dadas com a Ciência – especificamente com a Física e a Astronomia, tentaremos responder a três questões fundamentais: (a) de onde viemos? (Nossa origem no passado); (b) quem somos? (Nossa permanência no presente); e (c) para onde vamos? (Nossa existência no futuro). Para respondê-las, a Ciência criou um novo ramo: a Cosmologia ou o estudo do Cosmos.

Originalmente concebida na Grécia Antiga, como a Ciência da natureza, a Física tem a tarefa de investigar as leis do Universo no que diz respeito à matéria e à energia, que são seus constituintes e suas interações. O matemático grego Pitágoras reconheceu a existência de uma ordem celeste, intrínseca ao céu à sua volta. Para ele, a ordem é a fonte da beleza e esse “todo organizado” – o termo Cosmos (do grego) está na origem da palavra “cosmético”. As questões (b) e (c) são as que nos amedrontam mais: o Universo teria existido desde sempre. Se surgiu assim, como lidar com o fato de que tudo que aí está ou estará teve origem a partir de um “nada”? Em síntese, podemos afirmar com certeza que em determinado momento (14 bilhões de anos atrás) o Universo começou a se expandir com o Big Bang – expressão cunhada por George Gamow (na década de 1940?), essa teoria estabelece um poderoso paralelo com os mitos de criação teológicos (o mais comum em nossa cultura é a gênese bíblica, o “faça-se a Luz”). Assim, o Universo faz coisas inusitadas e interessantes e o futuro das pesquisas cosmológicas é brilhante, misterioso e cheio de promessas! Com efeito, “tudo está em tudo e reciprocamente”, nós mesmos, do ponto de vista cósmico, somos uma parte no todo cósmico: as partículas que nasceram nos primeiros instantes do Universo se encontram em nossos átomos. O átomo de carbono necessário para a nossa vida formou-se em um sol anterior ao nosso, ou seja, “a totalidade da história do cosmos está em nós, que somos, não obstante, uma parte pequena, ínfima, perdida no cosmos”.[3]

            “Siga a Ciência” é o mantra que mais ouvimos durante a pandemia e chama ao debate público pelas esperanças e confirmações em relação às descobertas das vacinas contra o inimigo da humanidade – o Sars-Cov.2 que, em menos de um ano de pesquisas, está contribuindo decisivamente ao desenvolvimento tecnológico e ao processo de vacinação para salvar a humanidade, com mais intensidade às populações nos países desenvolvidos e detentores das tecnologias. Contudo, há 40 anos, Carl Sagan, astrônomo conceituado, já nos convocava para “ (...) não considerar a ciência como um sacerdócio fechado, demasiado difícil e misterioso para a compreensão de uma pessoa mediana, o perigo do desentendimento será maior. Se a ciência, porém, for um tópico de interesse e consideração geral, se seus encantos e consequências sociais forem discutidas com competência e regularidade nas escolas, na imprensa e à mesa de jantar, teremos aumentado as possibilidades de aprender como o mundo realmente é, para melhorarmos a ambos, a nós e a ele”.[4]  Ora, quando começamos a respirar com certo alívio vislumbrando a possibilidade de controlar a pandemia, com a real redução de número de mortos no Brasil, por exemplo, é o momento de acreditarmos na Ciência para distinguirmos, com grandeza, as diferenças entre a opinião a favor de uma causa maior do bem comum, e os preconceitos ou crendices claramente ultrapassadas como na controvérsia de “uma mentira repetida mil vezes vira verdade assimilada”. Tenhamos confiança, portanto, de que podemos – ao tomarmos consciência crítica[5]da realidade, do Universo (ou Cosmos) que rodeia o ser humano, descobre suas relações, suas conectividades com os outros e demais seres vivos e respeitarmos o planeta, pois a Terra não nos pertence, somos nós que pertencemos à ela. Afinal, passados dois milênios que Demócrito elucidou sua teoria dos átomos comparando-os a tijolos que formam todo o conhecido, a Ciência tornou-se mais complexa e mais popular, ultrapassa os muros da academia e dos círculos intelectuais e está em todas as mídias, no cinema, na TV, nos best-sellers é como se ouvíssemos Beethoven ou Mozart, ver e contemplar as figuras humanas e divinas da Capela Sistina, ou algumas músicas populares e “rodar num carrossel de estrelas”.

Curtiu? Para operacionalizar os conceitos-chave em itálico negrito e ampliar o horizonte do seu conhecimento e da sua visão de mundo, recomendamos o livro Conectando as Ciências Humanas, p. 52-58.

 

[1] RAMOS, Albenides; GRANGEIA, Mario Luis. Conectando as ciências humanas: novos olhares sobre a transdisciplinaridade. Curitiba: Appris, 2020, p. 30

[2] ROVELLI, Carlo. Sete breves lições de física. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015, p. 74

[3] RAMOS, Albenides. Metodologia da pesquisa científica: como uma monografia pode abrir o horizonte do conhecimento. São Paulo: Atlas, 2009, p. 11.

[4] SAGAN, Carl. Cosmos. (apud RAMOS, Albenides. idem, p. 169).

[5] Segundo Paulo Freire consciência crítica é substantivo (consciência) adjetivado (crítica) que indica “conhecimento de si”. Ele afirma que a “consciência se reflete e vai para o mundo que conhece: é o processo de adaptação”. A consciência é assim, temporalizada. O ser humano é consciente e, na medida em que conhece, tende a se comprometer com a própria realidade.