10/02/2022

Os tempos da viagem

10/02/2022 - Por: Eduardo Henrique Assis Cidade autor de O Chamado da Estrada: Interfaces de Conhecimento de Si, do Próximo e do Distante na China e no Sudeste Asiático

Dizem que as saudades duram seis meses. Depois, a viagem começa.
Tudo que um dia começa, necessariamente terminará. Por mais longa que seja uma viagem, há eventualmente de ter um fim. Lembro-me de quando visitei o ponto mais ao sul da Ásia continental. Para além do mar, somente os arquipélagos da Indonésia, das Filipinas e do Timor Leste. Era o fim de uma viagem antes de regressar à Europa.
Nos últimos dias, sigo lentamente pelas ruas da Chinatown, da Little India, da Little Arabia... e observo os cozinheiros preparando as samosas, os muçulmanos prostrados na mesquita, a produção das sedas...
Sem me dar conta no momento, percebo que, inconscientemente, estou me despedindo na Ásia.
Acredito que há três estágios numa viagem suficientemente longa (a partir de dois ou três meses, creio): o primeiro é o encantamento, a euforia. A percepção do diferente, “nossa, não existe pão-de-queijo ou requeijão aqui! Nossa, não existem parcelas na compra de um engradado de cerveja! Nossa, é possível sacar dinheiro no caixa eletrônico qualquer hora da madrugada sem ser dentro do posto de gasolina! Como é diferente etc.”.
A segunda etapa é a melhor de todas: a banalização; não no aspecto pejorativo da palavra, mas da adaptação, do reconhecimento: tornar-se acostumado com a diferença e, portanto, incorporá-la. É aí que realmente começa, quando é realmente possível se jogar. Quando se está habituado e se compartilha a experiência sem receios.
O terceiro estágio é a véspera do retorno, do “enfanter des belles pensées”, estranhar novamente. De que aquilo tudo não é, para você, realmente o cotidiano. De que em breve aquilo que se tornou normal e cotidiano durante tanto tempo novamente desaparecerá. Você re-estranha, vê com olhos peculiares o que outrora se tornou conhecido.
Samosas? Sarees (saris)? Videoclipes de Bollywood? A mesquita berrando às cinco horas da manhã? Os monges budistas dentro do metrô? Estátuas de elefantes ou dragões por todos os cantos? Tudo se tornou tão normal...
E eis que, olhando devagar, novamente, dá-se conta: é hora de dizer adeus.
Caso o viajante não retorne, o máximo que ele pode almejar é a consciência limpa de quem se jogou no oceano de sua diversidade da melhor maneira possível; a dizer, com o olhar da inocência, sem saber para onde ir...
Para saber mais o que sentem mochileiros e demais viajantes, busque pela obra O Chamado da Estrada: Interfaces do Conhecimento de Si, do Próximo e do Distante na China e no Sudeste Asiático.


Eduardo Henrique Assis Cidade é doutorando em Antropologia pela Universidade Nova de Lisboa (Nova – FCSH). A tese, com conclusão prevista para o final de 2021 e início de 2022, abrange a fronteira porosa entre viajantes e imigrantes. É mestre em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia do Turismo e Antropologia das Emoções, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Já percorreu quase 70 países, oscilando e conciliando viagens, estudos e trabalho. Parte significativa de sua vida transcorreu fora do Brasil. Reveza entre a Europa e a Ásia, sempre quando possível viajando pelos demais continentes e visitando os familiares e amigos de infância no Rio de Janeiro.