20/05/2022

SOBRE MULHERES E FILHOS (OU NÃO!)

20/05/2022 - Por: Rita Francis Gonzalez y Rodrigues Branco autora de Velhos Sim, Assexuados Jamais! A sexualidade no envelhecimento 

Estamos em tempos de transformação. De fato, a sociedade se transforma e a história gira fazendo grandes malabarismos e, muitas vezes, retorna ao ponto inicial. Nos tempos atuais, marcadamente no Brasil, estamos vivendo um certo retrocesso ou, como queiram chamar, uma reedição do patriarcado heteronormativo tradicional com base em religiosidades fundamentalistas que ditam um modelo de família que outrora protagonizou comerciais de margarinas nas redes televisivas.

Tal arranjo familiar, tão conhecido dos referidos comerciais, compunham uma cena onde um homem cisgênero, preferencialmente branco, surgia em um momento de dejejum, quando sua esposa, mulher cisgênero igualmente branca, de pé servia o café, sucos, pães, queijo e, claro, margarina. De repente duas crianças corriam e sentavam-se à mesa: um menino e uma menina. Algumas vezes o menino estava com uma bola e a menina com uma boneca às mãos. Ah! E não podia faltar... Sempre havia um cão abanando a cauda!

Esta conformação familiar embrenhou-se na vida mental dos brasileiros a ponto de tornar-se um símbolo do ideal de uma família, do amor, do bom relacionamento, da fidelidade matrimonial, da virtude aos olhos do sagrado. Uma família representativa do muito debatido “amor romântico”.

No entanto como sabemos, a sociedade se transforma, e paralelamente a este modelo de núcleo familiar, muitas outras conformações foram tomando espaços. Hoje já se fala em famílias ampliadas, famílias monoparentais, famílias homoafetivas, famílias em formato de trisal e por aí vão seguindo possibilidades e novos padrões heterodoxos de arranjos fraternos.

Contudo, ventos de alhures trouxeram estranhezas e julgamentos morais sobre os arranjos afetuosos que possam congregar pessoas em núcleos familiares, como se tudo que não for consonante ao tradicional (entenda-se tradicional como a família do antigo comercial), fosse advindo do mal, do pecado, do profano, daquilo que não agrada a um deus (obviamente com “d” minúsculo!).

Atualmente mulheres tornam-se independentes, namoram, relacionam-se sexualmente, estudam, vão às universidades, trabalham, alcançam sucesso em áreas antes ditas masculinas, tornam-se empresárias, políticas, conseguem construir um patrimônio muitas vezes mais sólidos do que os construídos por homens, mas... continuam desejosas de encontrar um “príncipe de contos de fadas” e serem “felizes para sempre”.

Em meio a este paradoxo social, as jovens mulheres vão postando nas redes sociais os homens com quem se relacionam abrindo um campo para amigas e seguidoras atuarem a inveja e o ciúme em um jogo que parece advindo do século XIX quando Freud ousou refletir sobre a sexualidade feminina.

Freud foi honesto ao dizer que a única questão que lhe permaneceu sem resposta foi exatamente “o que quer uma mulher?”. Desta forma, o pai da Psicanálise escreveu e reescreveu sua 33ª conferência denominada Feminilidade, cuja última versão ainda que não totalmente fechada, foi apresentada em meados dos anos 30 do século XX1.

Neste texto, Freud levanta a questão de que a mulher se organiza na falta, ao que ele denominou de “inveja do pênis”. Ao longo dos anos, outros psicanalistas se debruçaram sobre a questão do feminino e de fato, a anatomia da mulher que é organizada em um genital interno e não externo como o pênis masculino, cria uma falta e introduz uma grande possibilidade de ser penetrada não só no ato sexual, mas metaforicamente ser penetrada por novas ideias e conhecimentos, podendo gerar saberes, ações e criações e, ainda porque não, um bebê, conforme vaticinou o velho e sábio Freud2.

Para Freud o desejo de ter um filho estava ligado a uma tentativa de resolução da falta ou seja, procriar seria então ter a possibilidade de “construir” para si mesma um “falo”, adquirindo um poder simbólico.

Nos dias atuais, nas diversas redes sociais, podemos assistir a um movimento de jovens mulheres desconhecidas ou famosas que postam orgulhosas seus ventres gravídicos em diversas fotos registrando seu poder de ser mulher. Seria então o “falo” tão desejado se construindo dentro do ventre materno e fazendo registro no Instagram e em tantas outras plataformas?

Além das postagens de grávidas, podemos encontrar nas redes sociais imagens do ultrassom apontando o feto como o “bebê de ouro” das jovens mães. As chamadas “Festas de Revelação” tomaram os espaços da moda com cenas memoráveis inclusive tentando firmar o gênero de um ser que ainda se mantém dentro útero (!). As cores “rosa para meninas” e “azul para meninos” são ditadas pela imagem visualizada por um médico ultrassonografista que, viu ou não viu um pênis rudimentar no feto. Ora, dizer que o bebê que ainda vai nascer é uma menina porque não foi visto um pênis na ultrassonografia fetal nada mais é do que corroborar a teoria freudiana da inveja do pênis! Ou não é?

Na moda hoje conhecida como “vintage” que reedita a família nuclear tradicional, o lugar da mulher acaba mesmo sendo o de mãe. E como mãe, ela passa a ter um lugar determinado no núcleo familiar como sendo aquela que possibilita a existência de um filho do homem! Como em tempos antigos, quando uma mulher infértil podia inclusive ser rechaçada pelo marido e era considerada como alguém amaldiçoada, estamos hoje revendo falas de mulheres jovens que fazem de tudo para engravidar, dizendo em bom português que querem dar ao homem amado, um filho!

Ao dizermos “fazem de tudo” para engravidar, podemos pensar em quão trabalhosos, dolorosos e dispendiosos são os procedimentos desenvolvidos na reprodução assistida, tão em voga atualmente. Quantos lutos e quantas lutas estão enlaçadas nesta tentativa infinita de procriar para dar ao amado, o fruto da relação que, muitas vezes, já está declinando até mesmo com uma possibilidade de rompimento. Quantos filhos são gerados na tentativa de suturarem uma ferida narcísica advinda de um relacionamento em pé de separação!

Parece difícil, nestes tempos em que estamos vivendo, negar o fato de que um filho torna-se o falo da mulher abrindo-lhe a oportunidade de sentir-se poderosa, tanto junto aos familiares quanto junto aos seus seguidores nos espaços da internet. Quantas mulheres vivem a fantasia de “segurarem” o companheiro dentro de um casamento através da geração de filhos.

Ser mãe é sim um lugar de respeito, de veneração, de poder, de reconhecimento. Podemos apreciar inúmeros poemas sobre mães que praticamente as divinizam por terem dado à luz a um filho. Criou-se uma fantasia de que ser mãe é uma dádiva e que a maternidade oferece à mulher os prazeres que buscam ao longo da vida. Assim é que o Dia das Mães vem sendo para o comércio, a data comemorativa mais apreciada, festejada e representada pelos inúmeros presentes.

Mas ser mãe pode também ser uma experiência dolorosa, cansativa, decepcionante, de grande impacto emocional. Pode ser frustrante, pode sonegar da mulher outras possibilidades desejadas. Pode ser um caminho pedregoso, solitário, de pesada responsabilidade. Pode acabar afastando a mulher do seu companheiro amado quando o filho a solicita de forma ininterrupta. Ser mãe, como disse o poeta Coelho Neto, é desdobrar fibra por fibra o coração, o que nem sempre é agradável.

Em tempos de século XXI, encontramos mulheres que deliberadamente negam-se à maternidade. Assim é que movimentos internacionais vêm unindo mulheres que não desejam filhos, de forma a propiciar respaldo para tal enfrentamento. Sim, enfrentamento! Porque em sociedades como a nossa no Brasil atual, mulheres que corajosamente rompem a lógica da família tradicional, tornam-se vítimas de questionamentos, de avaliações indiscretas e violentas, praticamente tornam-se párias sociais.

A psicoterapeuta e escritora Jody Day fundou, a partir de sua própria experiência em não ter sido mãe, o grupo Gateway Woman3, para oferecer ajuda psicológica às mulheres que não desejam ter filhos por diversas razões. Afinal gerar e parir deve ser uma escolha e não uma obrigação social que prescreve um modelo de família padrão onde sempre existem crianças para dar continuidade aos pais. 

Outro grupo que vem crescendo no sentido de reafirmar o desejo de não ter filhos é o movimento Geração NoMo4. Trata-se de uma nova geração de mulheres que encontram o poder fálico em suas profissões ou em sua arte ou seja lá o que elas possam criar para se reconhecerem em sendo mulheres. É um novo olhar para a falta e para o desejo instituído, mas inscrito em uma nova versão, já que ser mulher coloca a todas nós a possibilidade de sermos penetradas por inúmeras possibilidades na busca do falo perdido.

Quiçá possamos chegar a um tempo em que a tradição e a inovação não se confrontem em nome do sagrado e do profano, mas abram caminhos para que as mulheres possam ser como queiram, gerando filhos, gerando saberes, gerando oportunidades, gerando amorosidade e paz para uma sociedade mais tolerante e mais inclusiva, onde a complexidade complemente o singular. Que possamos vivenciar os novos arranjos familiares como eles possam se configurar enlaçados em amorosidade fraterna. Que as mulheres possam, ao se transformarem em mães, não deixarem de ser mulheres desejantes.

 

Referências

  1. FREUD, Conferência XXXIII Feminilidade. In FREUD. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996 pg:113-134
  2. CASTELO FILHO, Cláudio. Sobre o Feminino. Cap. 1. In CASTELO FILHO (org.). Sobre o Feminino: reflexões psicanalíticas. São Paulo: Blucher, 2018, 13-47
  3. GATEWAY WOMAN. Disponível em https://gateway-women.com/. Acesso: 23 de abril de 2022
  4. LAGUARDIA, Iñaki. Geração NoMo: A rebelião das mulheres que não contemplam a maternidade. El País (seção Sociedade), 23 de agosto de 2014. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2014/08/23/sociedad/1408813287_310188.html  Acesso: 23 de abril de 2022

Rita Francis Gonzalez y Rodrigues Branco (Rio de Janeiro, 08/05/1954) é médica Cardiologista pela Universidade Federal de Goiás, psicanalista com formação pelo Instituto Sedes Sapientiae, mestre e doutora em Educação pela Universidade Federal de Goiás. Mãe de Arturo Alejandro, Victor Guillermo e sogra de Ana Carolina Gonzalez, juntos formam uma família goiana de coração e espanhola de ascendência, vivendo na bela cidade de Goiânia, Goiás. Como idosa, profissional, pesquisadora e professora de relação médico-paciente percebeu, ao longo dos anos, a lacuna que existe no conhecimento da sexualidade, principalmente em idosos. Criou o módulo de Sexualidade Humana no curso de Medicina da PUC Goiás, onde lecionou por 10 anos. Escreveu vários capítulos de livros de Medicina e de Educação e é autora do livro A Relação com o Paciente: teoria, ensino e prática. Tem como paixões as artes, especialmente o cinema, o teatro e a dança.