20/05/2022

A AUSÊNCIA DO HERDEIRO OU A MORTE DO GRILO FALANTE

20/05/2022 - Por: Rita Francis Gonzalez y Rodrigues Branco autora de Velhos Sim, Assexuados Jamais! A sexualidade no envelhecimento 

 

Em princípio deixo claro que faço aqui um recorte sobre o comportamento da sociedade em tempos de Covid. Ressalto que a pandemia ainda não acabou, nem no Brasil, tão pouco em alhures...Trago este texto para pensar, para refletir, para contrariar o que está posto...

O que tem a ver a velha história de Gepeto, seu boneco Pinóquio[1] e o Grilo Falante com Freud em tempos de Covid?

Talvez pareça com o conhecido samba de Sérgio Porto que se tornou famoso na voz dos Demônios da Garoa, intitulado “Samba do Criolo Doido”[2]. Pois que não pretendo aqui enlouquecer com estas referências, mas falar um pouco da minha observação sobre o enlouquecimento social que temos visto no Brasil e em todo o mundo globalizado.

Freud em seu texto Totem e Tabu[3] levanta uma questão ontológica do ser humano que seria o parricídio e a interdição do incesto. Ao longo do texto, Freud reflexiona com a possibilidade de que as sociedades em seus momentos mais primevos, enfrentaram uma imposição patriarcal do não acometimento do incesto. Segundo seu escrito, a revolta social ocorreu em busca do gozo desejado levando ao assassinato do Pai (ou pode-se dizer, do chefe do clã!). Não sendo um antropólogo ou um sociólogo, Freud foi na época muito contestado por este texto, como se tudo isso não passasse de uma mitologia freudiana sobre os impulsos inconscientes e a formação social dos sujeitos. Ainda que assim o fosse, não se perderia nada em relação à concepção do sujeito em Freud.

Em outros textos muito polêmicos, Freud[4] ousa falar de uma sexualidade infantil confrontando-se com a ideia, na época vigente, de que a sexualidade humana surgiria na adolescência. Assim, seguia Freud, chocando a sociedade vienense do final do século XIX e início do século XX, com seus estudos que escancaravam a mente humana e afrontavam os conceitos “morais” da época.

Mas... Freud tinha razão. Claro! Ele explica. E explica muito bem o que ocorre de horripilante, de grotesco, de violento, de brutal e de estranho que vem do ser humano. Coisas estas, a que muitas vezes denomina-se de “desumano”, mas que são na verdade extremamente humano e cruel.

De Totem e Tabu vou pular para a Dissolução do Complexo de Édipo[5] para costurar o samba enredo da Covid em tempos atuais. Freud vai chamar de Édipo a fase dos 2 aos 5 anos, quando as crianças de ambos os sexos desenvolvem um amor erótico inconsciente por ambos progenitores, vivenciando assim uma bissexualidade ontológica e desejando sim, apesar de inconsciente, uma possibilidade de incesto que não pode e nem deve ocorrer, pelo bem da saúde mental da criança que vai se tornar um sujeito civilizado, social e imerso em uma cultura. Por aí começa a se abrir a cortina do palco da tragédia humana. Ou seja, tornar-se sujeito civilizado, social, coletivo, respeitoso, imerso em uma cultura e, em uma história pessoal e grupal, está intimamente ligado à dissolução da fase edípica, ou seja, está em diálogo constante com a sexualidade humana.

Freud vai mostrar que a necessária interdição do incesto, inconscientemente desejado pela pequena criança, vai colocá-la em uma posição de reconhecimento de sua impotência, vai assim levar à ruptura do pensamento de onipotência da mais tenra idade, que Freud denominou, muito apropriadamente, de “Sua Majestade o Bebê”. Assim, frente ao não poder, ao ser impedido, ao ser proibido o incesto, a criança se depara com a impossibilidade ou com um reconhecimento da castração e vai compreender que querer ou desejar é humano, mas poder alcançar o gozo desejado depende da lei e das interdições. Nasce, neste momento a instância mental a que Freud denominou de Superego. Por isso, o Superego é conhecido como o herdeiro do Édipo.

E o que tem tudo isso a ver com Pinóquio, Gepeto e o Grilo Falante?

Não por acaso esta história cai muito bem em crianças de 2 a 5 anos, pois fala de uma realidade vivida inconscientemente por elas e dialoga com a introjeção da lei. Gepeto queria ter um filho e fez um boneco bastante tosco, primitivo, de madeira articulado, nada muito tecnológico, tampouco bem acabado ou bonito e agradável ao toque. Um boneco de madeira rude, mas muito amado por Gepeto. Chega um momento em que Pinóquio vai em busca de seus desejos, justos aqueles que não poderiam ser vivenciados por completo. Aí surge a personagem do Grilo Falante que não é outro senão o Superego que vai aos poucos impedindo Pinóquio de realizar os seus desejos que lhe expõe ao perigo e à destruição. Ao passar por toda uma sequência de conflitos com o Grilo Falante, Pinóquio se submete à lei e torna-se um sujeito de verdade, um “menino”!

E o que tem tudo isso com a pandemia de Covid-19?

O que percebo frente à situação da Covid que apesar do desejo dos governantes e da população ainda não acabou, é a dificuldade das pessoas, em especial dos mais jovens, em aceitarem a lei da ciência permanecendo em certo distanciamento social, usando máscaras, respeitando os mais velhos, evitando aglomerações, aceitando a vacinação, não desafiando o vírus mortal, o que sugere uma ausência na formação da instância mental Superego. Faz-me lembrar a revolta da horda assassina do pai relatada no texto freudiano Totem e Tabu. E quando eu digo “assassina do pai” penso que efetivamente muitas pessoas jovens se expõe ao vírus e, depois, visitam seus velhos pais colocando-os em risco concreto de morte... Isso não é uma mitologia freudiana, mas é a situação real aqui no Brasil e em outros países deste mundo globalizado.

O que ocorreu nesta sociedade contemporânea, hedonista, especular, exibicionista, que acredita em sua própria onipotência a ponto de matar não só o suposto Pai, mas, também e por consequência, o Grilo Falante de cada um?

As pessoas, que na concepção filosófica não se configuram realmente como sujeitos, parecem, nos dias atuais, a Sua Majestade o Bebê, acreditando que todo o desejado é passível de se ter. Assim, tenho escutado coisas do tipo: “eu tenho o direito de ir e vir”, “ninguém pode proibir meu direito”, “a pandemia já acabou”, “não vou usar máscara” e por aí vai... Ora, ser sujeito de uma sociedade, ser sujeito de cultura, ser civilizado, inclui reconhecer que o direito de um termina ao esbarrar no direito de outrem, sendo essa uma regra básica do viver em sociedade. Desta forma, a liberdade se pauta pela premissa da interdição ao violento, ao cruel, à tortura, à agressão ao Outro.

Concluindo, para mim, estamos frente a uma sociedade global que, lamentavelmente, está mostrando-se sem herdeiro do Édipo, sem Grilo Falante e sem lei! Um verdadeiro samba de uma sociedade doida...

Rita Francis Gonzalez y Rodrigues Branco (psicanalista) autora do livro Velhos Sim! A sexualidade no envelhecimento.

[1] Collodi, Carlo. As Aventuras de Pinóquio. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2002

[2] Samba do Criolo Doido – capturado: https://pt.wikipedia.org/wiki/Samba_do_Crioulo_Doido. Acesso em 20/03/2022

[3] Freud, Sigmund (1912-1914).  Totem e Tabu, Contribuição à História do Movimento Psicanalítico e Outros Textos In Freud. Obras Completas Vol. 11. Rio de Janeiro: Ed. Companhia das Letras, 2012

[4] Freud, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905). In Freud. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira- Um Caso de Histeria, Três Ensaios sobre Sexualidade e Outros Trabalhos (1901-1905). Vol. VII. Rio de Janeiro: IMAGO Editora, 1996

[5] Freud, Sigmund (1923-1925). A Dissolução do Complexo de Édipo (1924). In Freud. O Eu e o Id, “Autobiografia” e Outros Textos. Obras Completas Vol. 16. Rio de Janeiro: Ed. Companhia das Letras, 2011


Rita Francis Gonzalez y Rodrigues Branco (Rio de Janeiro, 08/05/1954) é médica Cardiologista pela Universidade Federal de Goiás, psicanalista com formação pelo Instituto Sedes Sapientiae, mestre e doutora em Educação pela Universidade Federal de Goiás. Mãe de Arturo Alejandro, Victor Guillermo e sogra de Ana Carolina Gonzalez, juntos formam uma família goiana de coração e espanhola de ascendência, vivendo na bela cidade de Goiânia, Goiás. Como idosa, profissional, pesquisadora e professora de relação médico-paciente percebeu, ao longo dos anos, a lacuna que existe no conhecimento da sexualidade, principalmente em idosos. Criou o módulo de Sexualidade Humana no curso de Medicina da PUC Goiás, onde lecionou por 10 anos. Escreveu vários capítulos de livros de Medicina e de Educação e é autora do livro A Relação com o Paciente: teoria, ensino e prática. Tem como paixões as artes, especialmente o cinema, o teatro e a dança.