20/05/2022

Quiproquós da religião: razões e confusões em torno do assunto

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20/05/2022 - Otávio Luiz Kajevski Junior autor de Descartes entre o Possível e o Necessário: Sobre a Livre Criação das Verdades Eternas

A crença em Deus está presente em nosso cotidiano, e é objeto de polêmicas, marketing político, juízos de valor, conversas de bar e especulações filosóficas, seja entre ateus ou teístas, e ganha certa relevância quando estes estão de um lado e aqueles de outro. Contudo, como tantas coisas em nosso cotidiano, temos de saída uma ambiguidade. Quando se diz que João acredita em seu vizinho, José, em regra se quer dizer que João considera que José diz coisas verdadeiras, isto é, que é uma pessoa confiável. Dificilmente se usaria tal afirmação para apontar que João acredita que José existe. O juízo de existência está pressuposto na consideração que João faz de uma característica de José.

Situação diversa da crença de João em José se dá com a crença de João em Deus. Em geral esta afirmação traz a informação de que João faz um juízo de existência de um ser supremo denominado Deus. Quando a conversa de bar ou a especulação filosófica está mais avançada, só então é que uns poucos se detêm a pensar sobre a essência de Deus, isto é, as características deste ser cuja existência se afirma ou nega com não rara veemência.

Um teísta pode dizer que um ateu não está sequer autorizado a falar sobre a essência se não pressupõe a existência, ao que o ateu pode responder que o juízo de existência do teísta é cego, possivelmente vazio, pois crê em algo que não sabe o que é. Em todo caso, uma discussão bem conduzida faria a circunscrição da questão da essência, para que se busque um consenso nesta área, para depois disputar a questão da existência. Um tal consenso existiu em alguma medida e, se não existiu, foi forjado pelos teólogos e filósofos, que definiram há séculos, e ainda definem, Deus como um ser onipotente, onipresente, onisciente, onibenevolente, sumamente justo, em suma, um ser perfeito, do qual não se pode negar nenhuma perfeição sob pena de se incorrer em conceito diverso do de Deus.

Este consenso em torno da essência divina foi a deixa para que um Arcebispo de Cantuária do século XI, chamado Anselmo, lançasse para a posteridade uma das primeiras provas da existência de Deus, uma que seria puramente racional e que por isso mesmo deveria ser aceita até mesmo por quem não tem fé, uma vez que bastaria usar a razão para entender a existência de um ser sumamente perfeito. Digamos que João seja um descrente, um ateu inveterado e ranzinza, mas admite que andar em um carro é melhor do que andar em uma carroça. Ele reconhece que há um grau de perfeição maior no carro do que na carroça, e que é capaz de pensar em coisas ainda melhores que o carro. Digamos ainda que ele admita ao menos o conceito de um veículo flutuante, mais simples que o avião e o helicóptero, não poluente, veloz, imune a acidentes, que é bem melhor do que o carro. João pode, desconfiado, dizer que este veículo não existe, mas isso não importa, pois ele admite que pode pensar neste conceito.

Agora, digamos que João admite que um ser humano pode ser mais justo que outro, mais benevolente que outro, e pelo mesmo raciocínio anterior, admite que pode pensar no conceito de um ser sumamente perfeito, isto é, pode pensar em Deus, no que diz respeito à essência divina. Ele continua a levantar a bandeira do ateísmo, uma vez que ainda não se compromete com a existência de um tal ser. Neste ponto, Anselmo de Cantuária exporia a nosso personagem fictício dois conceitos: o de um ser sumamente perfeito que não existe, em que João estava se detendo, e o de um ser sumamente perfeito que existe, em que ele deveria se deter. João terá de admitir que o primeiro conceito é de um falso ser sumamente perfeito, uma vez que lhe falta um tipo de perfeição: a de existir. Assim, resta-lhe acatar o segundo conceito, de um ser sumamente perfeito que existe, converter-se à fé monoteísta, de preferência cristã, e procurar a igreja mais próxima para se redimir de sua teimosa falta de fé.

O raciocínio é bem conduzido, e possui admiradores e adeptos até hoje. Entretanto, não era nem passou imune a críticas. Trata-se sempre de algo na linha de que a existência não possa ser derivada da essência, que o argumento de Anselmo estaria pressupondo a existência desde o início ao invés de prová-la ao final, enfim, muito foi dito contra e a favor deste argumento que ficou conhecido como argumento ontológico. Tanto que Tomás de Aquino buscou outro caminho, a de um motor imóvel, para provar a existência de Deus, o que ficou conhecido por prova cosmológica da existência de Deus, a qual era uma alternativa à já não tão aclamada prova ontológica.

Tudo isso parece algo distante de nosso cotidiano e, supondo que toda essa consideração fosse feita numa conversa de bar, a embriaguez de algumas bebidas alcoólicas poderia atrapalhar o raciocínio, levando alguém a declarar aquilo um grande quiproquó. Tal declaração, que parece se utilizar de uma herança indígena tão presente na língua portuguesa, não estaria errada, mas o termo na verdade não é indígena, mas vem do latim “quid pro quod”. O termo quiproquó, no dicionário, significa “tomar uma coisa por outra”, mas na etimologia seria tomar o “o quê” pelo “que”. Isto é, se admito a ideia de um veículo flutuante que tem várias características que o tornam melhor do que o carro e a carroça, estou às voltas com “o quê” seria tal veículo, mas nem por isso me comprometo a assumir “que” ele exista. Obviamente, alguém dirá e já disse, que o caso de Deus é diferente, mas o que importa aqui é percebermos o quanto é negligenciada a discussão acerca da essência divina, e quão superficiais são as discussões em torno da existência, que por vezes não são promissoras, mas não tanto pela opacidade do objeto de discussão (pois religião não se discute), mas pela catarata nos olhos dos interlocutores.

Vimos acima as implicações entre existência e essência divina, e como pode dar o que pensar. Pois bem, se colocamos em jogo, também, o conceito de onipotência, a questão pode dar muito mais o que pensar. Pois o que é “poder tudo”? O que é “tudo”? Deus pode criar um elefante com asas? Mesmo um ateu tenderá a dizer que sim, pois isso se depreende do conceito de Deus. É claro que aí está em jogo quem é Deus, pois se pensarmos no Deus de Espinosa um elefante com asas não existe, não é nada, e “tudo” que Deus pode criar é exatamente o que existe: elefantes sem asas, gaivotas sem trombas, e até os acontecimentos de nossa vida são tudo que havia para acontecer, assim não poderiam ser diferentes. Primeiro olhamos o mundo e contemplamos tudo que existe e acontece, e assumimos que isso é “tudo”, e que foi e está sendo estabelecido por Deus, portanto Deus pode tudo. O Deus dos escolásticos, como Anselmo e Tomás de Aquino, está mais para um que pode criar gaivotas com trombas, pois podemos pensar nisso, embora seja um pouco estranho. Assim, o “tudo” espinosano é um subconjunto do “tudo” escolástico tradicional, e assim implicam dois conceitos de onipotência. Agora pensemos em um conjunto maior do que estes dois, que os contém, e temos o “tudo” implicado pela onipotência proposta por René Descartes. Neste caso, Deus pode criar o elefante sem asas, o elefante com asas, e o elefante que não é elefante, ou um círculo quadrado, pois se está para além do conjunto do pensável.

Pois bem, a onipotência divina, tal como pressuposta por Descartes no século XVII, é um dos conceitos implicados e explorados no livro Descartes entre o Possível e o Necessário: Sobre a Livre Criação das Verdades Eternas (Curitiba, Appris, 2022), que é uma adaptação de minha tese de doutorado orientada por Ethel Rocha na UFRJ, e que agora está disponível para o público em geral, não só acadêmico. Espero que a obra ajude a tornar as discussões sobre religião mais profundas e, o que não é um paradoxo, mais leves e amigáveis.


Otávio Luiz Kajevski Junior – Doutor pelo Programa de Pós-Graduação Lógica e Metafísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2015), mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Paraná (2011) e graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (2009). Atualmente trabalha como técnico administrativo em educação.

Orcid: 0000-0002-5857-3907