31/05/2022

CARTA PARA CAROLINA -   À Memória de Carolina Maria de Jesus

20/05/2022 -  Iara Clarice Sabino autora de O Domador de Palavras

 

CARTA PARA CAROLINA

À Memória de Carolina Maria de Jesus 

Eu acordei no meio da madrugada com uma sensação de aperto no peito. Fui até a cozinha. Tomei um copo d'água e olhei o relógio. Eram duas horas da madrugada. Fui até a janela. O céu estava estrelado. Aos poucos percebi que a sensação de aperto no peito era saudade. Só não sabia de quem.

Fiquei ali um bom tempo em vigília admirando o céu. Uma estrela com brilho de rubi me fez lembrar aquele provérbio: “Mulher virtuosa quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis”.

Uma lembrança nunca vem sozinha. Logo brilhou em minha mente a lembrança de alguém que não conheci pessoalmente, mas que eu sabia que me era muito especial. Então descobri de quem eu estava sentindo saudade.

Junto à descoberta surgiu uma necessidade urgente de expressar esse sentimento. Eu precisava escrever. Busquei com ansiedade, caneta e papel. Poderia ter usado o computador, mas achei impessoal. Era como se apenas através do meu contato físico com a caneta e com o papel eu pudesse extravasar o que se passava na minha alma. E sob a proteção do silêncio da madrugada comecei a escrever:

Carolina, seus antepassados atravessaram tantos mares para chegar aqui. Mas e você? Quantos mares de incompreensão teve que atravessar para viver sua vida?

Eu sei, Carolina. Eu sei da sua luta. Havia a favela povoada pela pobreza, e havia a injustiça. Mas também havia o verbo, e existia você.

Eu vi Carolina as ruas que você percorria catando papel, catando o fio de esperança do dia a dia. Senti suas mágoas e me emocionei com a sua emoção. Entendi suas angústias e sonhei seus sonhos quando você se sentava ao sol para escrever e refletir sobre a vida.

Enxerguei o seu olhar de poeta, aquele olhar diferente sobre as coisas comuns. Você me mostrou que dignidade e amor à vida são valores caríssimos, que independem de raça e condição social. Porém, só consegue tê-los quem sabe respeitar o seu semelhante e principalmente respeitar a si mesmo. E, Carolina, você sabia, por isso era tão rica.

E alguém com tanta riqueza de sabedoria só poderia mesmo registrar tanto conhecimento em um livro. Sim, Carolina, eu li Quarto de Despejo. Você conta que morava na Favela do Canindé, mas alguém como você não se limita ao espaço de um pequeno barraco, porque você sempre morou nos seus sonhos.

Carolina “Negra”, Carolina “Mãe”, Carolina “Catadora de Papel”, Carolina “Favelada”, Carolina “Escritora”, Carolina “Inabalável”, fiz um poema para você:

 

INABALÁVEL

 

Os sonhos comandam a realidade.

Tantos sonhos...

Tantas expectativas...

 

A resignação sustenta os sonhos.

Eu apenas aceito,

e creio na minha fé.

 

Ninguém entende nada.

Coitados,

eles jamais poderão compreender.

 

Coleciono ruínas.

E quando mais uma vez o castelo vem abaixo,

Eu não lamento.

O meu castelo ruiu,

porém,

a minha fortaleza continua indestrutível.

 

Carolina Maria de Jesus, mulher-cristal-multifacetado, eu quero te agradecer pela lição de vida, e finalmente dizer que você será sempre a “Estrela Carolina”.

Com o sentimento expresso na carta, e com o coração alegre e a alma serenada fui dormir o sono dos justos, enquanto prosseguia a madrugada.