30/05/2022

Das Coisas Simples da Vida: Um Mundo de Poesia

30/05/2022 - Marcello Medeiro Borges autor de Das Coisas Simples da Vida: Um Mundo de Poesia

A muitos, a ideia de vida simples é pautada numa forma de viver, de ter, de ser e de realizar, marcados pela carência e/ou ausência de conflitos que tornam tudo muito mais confortável. Mas o fato de ser simples, nessa perspectiva, subtraindo os conflitos que o mundo traz em suas tantas e tantas voltas, parece não ser tão completo, porque — a meu ver — é essencial que haja um movimento constante de conquistas e fracassos que culminem na descoberta de um universo diferente do que estamos acostumados a transitar. Uma vida simples, numa visão poética, é, na verdade, um estado, uma visão de mundo sem idealizações irreversíveis; é a interiorização dos conflitos diários que vivemos neste mundo por meio dos quais temos a sensibilidade de sentir e compreender o quanto podemos aprender e, mais que isso: o quanto podemos desbravar novos universos.

            O mundo em que vivemos hoje reflete o quanto a evolução das coisas mudou os cenários das relações humanas. O conceito de vida boa, de relacionamento bom e duradouro, a ideia sobre amor e paixão, de sucesso e fracasso e de vida e morte foram afetados gradativamente. Muitos querem ter mais tempo, anseiam por relacionamentos menos sufocantes e mais livres. O amor virou, em muitos casos, comércio, e é vendido por quem sabe administrar as ferramentas necessárias. O ato de perder — não que isso seja bom, é claro — passou a revelar uma fragilização ainda mais profunda a qual as pessoas carregam em si. Quando se perde, a vida perde sentido em segundos. Quando se ganha, o sentimento de ganhar mais ainda logo aparece, porque o certo é “ter tudo”. Há muita gente criando raízes na superfície da mediocridade, da materialização dos sentimentos e cresce a incapacidade de se perceber além disso. Há muito para se viver sobrando pelos cantos das cidades. Há muito amor sendo descartado em razão do prazer momentâneo. A vida está em degradação precoce.

            As pessoas mudaram. Os sentimentos se tornaram confusos e mais efêmeros. As boas lembranças dos tempos de outrora oscilam com a rapidez de tantas outras coisas que acontecem ao longo do tempo, porque não são intensas. É triste pensar assim, mas parece que as coisas simples e verdadeiras ficaram em segundo plano, e o produto que se extrai de muitas relações é sempre cheio de conflitos desnecessários. O que deveria ser explorado se perde. Onde estão os romances, as declarações, as paixões sinceras? Onde foi parar a habilidade de ser forte? Onde está a poesia da vida?

            É preciso superar a degradação da existência nesse cenário. Não me refiro à tentativa de fugir da morte — eu seria um tolo se pensasse assim. Mas quem disse que o que fazemos aqui não nos mantém vivos como uma boa recordação? Aprenda a viver com o tempo, a repensar as relações, vivê-las e aprender com as quedas da vida. Se nos permitirmos olhar para ela com mais calma, aprenderemos, quem sabe, a remontar os nossos conceitos, a reutilizar nosso o raciocínio substituído por facilidades e a restituir nossa habilidade de aprender com as nossas experiências, sejam elas boas ou não. Não se esqueça de que a poesia da vida está em tudo o que vivemos: dores, quedas, traições, perdas; conquistas, alegrias, amores reais, amizades. Interiorize cada sentimento não para se afogar nas improbabilidades, mas para descobrir que, além desse mundo, existe um mundo de outras verdades que podem ser exploradas e reveladas com muita maestria. Nesse caso, poderemos entender que as coisas simples têm muito mais a nos ensinar do que a complexidade do nosso universo de experiências vazias.