07/06/2022

O patrimônio alimentar brasileiro revelado nos livros de receitas culinárias

07/06/2022 - Mônica Porto Carreiro Monteiro autora de Receitas Culinárias – 9ª edição

         

“Dize-me o que comes e te direi qual deus adoras,

sob qual latitude vives, de qual cultura nascestes e em

qual grupo social te incluis” (MACIEL,2005).

 

        O campo de estudos sobre a antropologia da alimentação vem se formando, desde a década de 1970, a partir de pesquisas sobre a alimentação que associam interesses, desde a observação dos modos de vida das classes populares e os estudos qualitativos sobre saúde e doença às conexões entre a alimentação, religião e cultura. Dessa forma, ao se distanciar das ideias positivistas da alimentação para a saúde ou para a nutrição, esse campo de estudos, em sentido mais amplo, informa que a alimentação conecta significados que envolvem herança cultural e material, memória afetiva e sociabilidade. 

        Alguns aspectos da alimentação que se revelam com base na observação das práticas alimentares, dos hábitos sociais, dos regionalismos culinários,  das questões econômicas e políticas que permeiam as escolhas alimentares nos encaminham à afirmação de que a alimentação é um ato simbólico e fisiológico, cultural, econômico e político: “comemos de acordo com a distribuição de riqueza dentro da sociedade, de acordo com o grupo e classe de pertencimento, representações coletivas, crenças e tabus” (CANESQUI, 2005).

        Dessa forma, como nos expõe Canesqui (2005) a alimentação é um tema antropológico por excelência. É universal e particular; é prática experimentada cotidiana e ritualmente por todos para viver; todos os seres humanos precisam se alimentar. Mas, antes de tudo, é um ato social e cultural alicerçado em significados que agregam pessoas, ritma o cotidiano, marca os momentos festivos, requer conhecimentos técnicos para a preparação das receitas e cuidados para a manipulação e o cozimento dos alimentos.

        Além desses, ainda de acordo com Canesqui (2005), a alimentação envolve aspectos morais, religiosos, econômicos e sociais expressos em contextos diferentes. As práticas e ofertas alimentares também são organizadas observando-se, e em alguma medida, determinando, as formas de consumo e os gostos, em contraposição a movimentos de valorização de produtos, processos de patrimonialização de pequenos produtores e de valorização de saberes locais.

        É no contexto do saberes locais, regionais ou específicos que os livros e/ou cadernos de receitas culinárias podem desvelar práticas sociais, econômicas e culturais, que sedimentam a ideia de patrimônio da alimentação pertencente a um povo, a um grupo familiar, a uma nação.      

        Para cada grupo social existem pessoas detentoras de saberes alimentares próprios, que legitimam a identidade do grupo e transmitem a prática cotidiana da culinária familiar que geralmente está nas mãos das mães de família. Diria mais: está nas mãos das mulheres. Como se pode ver em Monteiro (2022) é recorrente a denominação de nomes de mulheres às receitas, indicando homenagens ou que elas são fontes de informação.    

        Assim, o patrimônio alimentar é aquilo que deve ser transmitido de uma geração a outra, que deve ser coletivo, próprio a um grupo social, ser reivindicado por pessoas pertencentes a ele e ter uma carga social simbólica ou afetiva. É através da memória que pratos e receitas são transmitidos de geração em geração, como apontado por Woortmann (2016), mesmo quando as pessoas se distanciam de suas raízes.

        A natureza imaterial do patrimônio alimentar está nos saberes culinários, nos modos de fazer, nas normas alimentares e na estética culinária. Observa-se no livro de Receitas Culinárias, (Monteiro, 2022) reiteradas indicações sobre modos de fazer que extrapolam a junção de ingredientes em determinada ordem, mas alertam para percepções e sentidos que os cozinheiros e cozinheiras devem ter para as suas práticas.      

Referências

CANESQUI, AM., and GARCIA, RWD., orgs. Antropologia e nutrição: um diálogo possível [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2005. 306 p. Antropologia e Saúde collection.

MACIEL, Maria Eunice. Cultura e Alimentação ou o que têm a ver os Macaquinhos de Koshima com Brillat-Savarin? Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 7, n. 16, p. 145-156, 2001. Disponível em: www.scielo.br. Acesso em: 26 maio. 2022

MONTEIRO, Lourdinha Bastos; MONTEIRO, Mônica Porto Carreiro. Org . Receitas Culinárias, 9 edição. Editora Appris. 2022. 

WOORTMANN, Ellen., CAVIGNAC, Julie A. Ensaios sobre a antropologia da alimentação [recurso eletrônico]: saberes, dinâmicas e patrimônios – Natal, RN: EDUFRN, 2016