15/06/2022

Aprendendo com a vida no campo

15/06/2022 - Aleny Terezinha Gomes Duarte autora de Caja-Manga

   A natureza, ao ser transformada, nos permite aprender sobre os desafios do dia a dia. Ao cuidarmos da terra, estamos cuidando de nós mesmos, no sentido da construção de princípios, como dignidade, valores e a construção da cultura. Aprendemos com a natureza que precisamos de todos os fatores a ela relacionados, como tempo, espaço e clima, para podermos viver de maneira digna, buscando a sobrevivência, num meio comum.

   A vida na roça é simples. A roça é a zona rural, onde se criam animais e plantam tanto para o comércio como para a própria subsistência, é um lugar que pode ser perto de um pequeno riacho, nascente ou lagoa. Pessoas que residem na roça tem um maior contato com a natureza, a qualidade de vida é melhor livre de poluição e correria das cidades. A vida é mais tranquila.

   Os trabalhos de quem vive no campo são quase todos feitos a mão, usando utensílios como enxada, foice, machados e facões, sem a tecnologia dos grandes latifúndios — embora alguns pequenos trabalhadores já podem adquirir seu trator. Esses trabalhadores da roça, são pequenos agricultores ou lavradores e/ou boiadeiros, cada um correndo atrás da sua sobrevivência, passando por muitas dificuldades como o clima, que muitas vezes prejudica a plantação; bem como as pragas que destroem o cultivo de meses, trazendo muitos prejuízos, para estes trabalhadores, chegando a faltar o próprio alimento.

   O dia na roça começa cedo, ainda com escuro, o homem inicia a luta com seus afazeres como cuidar de seus animais, carpir, plantar, aproveitando o frescor matinal. O serviço não acaba, pois, tem que garantir o sustento de sua família, e como tudo é realizado manualmente demanda mais tempo. Ir atrás do leite da criança, socar o arroz, escolher o feijão e matar o frango. É uma vida pesada, ainda mais se o pequeno roceiro não tiver um ajudante e contar apenas com seus familiares.

   Na roça se cultiva o arroz, feijão, milho, mandioca e verduras também, quando se planta uma horta, alguns têm um pomar com laranjas, goiabas, bananas, mangas, cajás, jabuticabas.

   O trabalho na roça é árduo e diário. A criação de animais através da domesticação e reprodução demanda tempo e paciência, o trato com cavalo, porcos, galinhas, peixes, abelhas e outros animais consume as forças do trabalhador. É uma luta constante, dia após dia, buscando o sustento e, nessa labuta, a paciência é fundamental, semear, cuidar, esperar e colher. É uma relação interminável com a natureza.

   A vida na roça tem seus momentos leves e simples, quando a comunidade ou alguns trabalhadores se reúnem para o chamado mutirão, um costume antigo do campo que é se reunir em algum dos sítios para trabalhos comunitários como fazer pamonhas, farinha, bem como para o conserto de cercas, currais, construções de casas, açudes, poços, escolas, alojamentos, etc. Então esses momentos são aproveitados para o divertimento, com a contação dos chamados causos da roça; tem também as cantorias, que ao som de violão, sanfona e pandeiro vazam a madrugada nos finas de semanas regados com a famosa cachaça, e alguns casais se arriscam a dar seus passinhos de danças.

   Quando não tem mutirão, reúnem-se somente com a família, enquanto esperam a digestão da boia antes do descanso noturno. As camas são feitas de paus de bambus cobertos por um colchão com enchimento de paina, uma planta nativa do cerrado brasileiro e as cobertas são de sacos de estopas. Se for uma noite quente, aproveitam as redes nas varandas.

   No campo, não faltam crianças com suas brincadeiras divertidas. Ali, junto a natureza, tudo se transforma em brinquedos, um osso, um pau com cara de gente, animais domésticos, bonecas de espigas de milho, bola de mangaba, peteca de penas de aves, são construídas estradinhas no chão para os carrinhos de lata, etc. Nada como subir em pés de frutas, balanços de cordas ou galhos, esconde-esconde, roda-roda e pega-pega, passa anel, bom barqueiro, berlinda, e tantas outras brincadeiras. Não faltam também os banhos nos lagos e riachos, onde um adulto sempre os acompanha.

   Muitos nascem no campo, e se criam ali, construindo uma relação de integração e comunhão com as pessoas e com a natureza. Às vezes, essas relações se perdem quando as famílias mudam para a cidade, para que os filhos tenham estudos e um futuro melhor.

  Apesar de muito trabalho, o campo pode ser um lugar produtivo, quem tem condições de trabalhar duro, com sua família, pode usufruir de muita fartura. Quando não é possível trabalhar pessoalmente nas terras, é necessário contratar um funcionário para cuidar de seu sítio, garantindo um lugar organizado para que os donos aproveitem a tranquilidade e a beleza do lugar.

   Apesar de o comércio estar aproveitando esse campo para comprar do pequeno produtor, para o camponês a relação com o outro ou mesmo com a cidade preservam os valores da gratuidade que a natureza proporciona. A vida no campo é rica, no sentido de criar uma relação de trabalho entre as famílias, construindo valores, culturas, conhecimentos e lazer, que não se pode vender ou comprar, pois, não tem preço. O contato com a natureza é de valor imensurável, contemplar a beleza do nascer do dia, a chuva mansa e fresca, o ar sem poluição e até mesmo andar por uma plantação olhando os brotinhos nascendo, o feijão florindo, realmente não tem dinheiro que pague.

   Se quiser saber mais sobre o tema, leia: Cajá-Manga de Aleny Terezinha Gomes Duarte.


Aleny Terezinha Gomes Duarte Natural de Guiratinga, Mato Grosso, 12/3/1956, viúva, professora aposentada. Começou como alfabetizadora, mais tarde tornou-se professora de História para o ensino fundamental. Gosta de poesia, filmes, músicas românticas, costura e leituras. O primeiro trabalho foi em uma biblioteca municipal, onde teve acesso aos livros de alguns autores como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Castro Alves, Graciliano Ramos, Graça Aranha, entre muitos outros. Sempre gostou de escrever e interpretar textos, na escola, as amigas pediam que escrevesse cartas de amor e poemas. A ideia de escrever um livro surgiu aos 14 anos, mas somente agora teve a oportunidade de publicá-lo, sendo este o primeiro de outros já prontos.