28/07/2022

Sobre Ego e quartinho dos guardados

Tags: BLOG

28/07/2022 - Por: Rita Francis Gonzalez y Rodrigues Branco autora de Velhos Sim, Assexuados Jamais! A sexualidade no envelhecimento 

Muito se comenta hoje sobre “Ego inflado” em um sentido bastante pejorativo. Geralmente esse termo, no vocabulário leigo, aparece como um quase sinônimo de narcisismo. Quando uma pessoa “se acha” nas redes sociais, por exemplo, ou mesmo no dia-a-dia, logo alguém imprime esta etiqueta:

— Fulano tem um Ego inflado!

Afinal, do que se trata a utilização desse termo que estranhamente tem relação entre a teoria psicanalítica e a linguagem popular coloquial?

Bem, vamos começar com o que seria mais “didático” para podermos compreender a questão do Ego. Primeiramente, quem cunhou este termo foi Sigmund Freud em sua segunda tópica.

Mas o que seria isso afinal? Segunda tópica?

Diante dessa questão, iremos seguir para a gestação da teoria psicanalítica. Quando Freud percebeu que havia algo dentro de nós basicamente inacessível, como se existisse um “quartinho de entulhos” onde vamos “jogando” os móveis estragados, a louça quebrada, os papéis com velhos escritos, cartões antigos, brinquedos sem crianças para brincar e bicicleta sem pneu. Pois é, entocamos nossas velharias esquecidas no “quartinho dos guardados” e lá elas ficam, realmente esquecidas! Muitas vezes com a porta emperrada, ou até mesmo com a chave perdida...

O mesmo ocorre em nossa mente, e esse lugar esquecido com velhos guardados e portas emperradas, Freud chamou de Inconsciente. Foi quando ele escreveu sua primeira tópica, ou seja, sua primeira elaboração teórica sobre a vida mental. Descreveu o Consciente, o Subconsciente e o danado do Inconsciente, o “dono da casa”!

Ah... Nessa parte surge um terrível atrito: uma ferida narcísica que nos dói por demais!

E como assim? Ferida narcísica?

Primeiro foi a constatação de Copérnico que o Homem não era o centro do mundo e a Terra tão pouco era o centro do universo. Que decepção para toda a geração que se considerava importante a ponto de se pensar centro do mundo... Pensar-se tão importante é uma expressão de narcisismo, e a dor sentida pela verdade apresentada por Copérnico nada mais foi que uma ferida (narcísica) aberta e sangrante.

Anos depois, outra constatação dolorosa para os seres humanos:  Charles Darwin, após observações e estudos, proclamou que o Homem era o resultado da evolução natural, não sendo, portanto, uma criação especial de Deus. Outra ferida narcísica que se abriu e doeu... doeu muito. Saber-se fruto de uma evolução natural abalou de maneira profunda as pessoas que se sentiam especiais por serem “semelhantes” a Deus, quem as teria criado.

 Posteriormente veio o velho Freud nos dizer que nós, seres humanos, não somos donos de nossa própria casa, ou seja, não somos os donos de nossa própria vida mental! Pois o dono da casa é o tal Inconsciente, o quartinho dos guardados de porta emperrada.

Chega a parecer que a nossa casa é, na verdade, um castelo mal assombrado onde o dono está dentro, porém trancado no quartinho dos guardados! Que dor intensa para todos nós que pensávamos ser o centro do mundo, a semelhança de um Deus e os donos de nossas próprias vidas...

Mas Freud foi além e acabou na segunda tópica, ou seja na segunda grande proposição de sua teoria. Dessa forma ele descreveu o Ego, também chamado de Eu, o Superego ou Supereu e o Id, também conhecido como Isso. E ambos se entrecruzam, se movimentam, se organizam, se desorganizam, se comunicam ou não, e transitam um pouco mais, um pouco menos ou totalmente por meio dele, o Inconsciente.

O Id ou Isso é todo o Inconsciente, sendo o exemplo típico do “quartinho dos guardados ou dos entulhos”. Ele é arcaico, ancestral, primitivo. Ele é a nossa primeva fagulha da vida mental. Ele é a louça quebrada, o brinquedo sem criança e a bicicleta sem pneu. O Id não tem compromisso com a moral, com a ética, com o processo civilizatório. Já o Superego ou Supereu, ao contrário, é desenvolvido a partir da vivência triangular na relação com os pais ou com as pessoas que maternizam e paternizam a criança. As interdições, os “nãos” que a criança enfrenta, vão dando contornos a esta instância mental que funciona como “tábuas da lei”, cujas inscrições não advém de um Deus, mas de uma organização pela lei do Pai (ou de quem faça este papel social na vida da criança).

Portanto, o Id deseja fazer tudo o que pode e não pode, e o Superego chama a atenção, coloca de castigo e muitas vezes violenta a pessoa através de terríveis punições.

E quem vai articular, moderar e negociar este conflito?

Aqui vale pensar no modelo da família nuclear tradicional, onde a criança deseja fazer o que não pode. O pai zangado e raivoso pune a criança, e quem faz a mediação desse conflito familiar? A mãe! Obviamente que este é um modelo antigo, frágil, simplista, usado para facilitar o entendimento da função egóica.

É o Ego que tem por função mediar o conflito, organizar os desejos que não garantem nada, mas que são importantes na existência humana. É o Ego que modera, negocia, explica, organiza, defende, aponta possibilidades, enfim, é o Ego o elemento de equilíbrio na vida mental.

Muitas vezes esse Ego é tão pequenino, tão pouco desenvolvido, tão inapropriado para realizar tais funções, que a pessoa faz uso de um falso Eu. Um Eu que não existe enquanto um Eu verdadeiro, mas que disfarça muito bem e busca responder ao desejo da pessoa de um ideal, de ser o que não é. Tal situação resulta em um grande sofrimento mental a partir de uma busca inconsciente, constante e inatingível de ser algo idealizado e, portanto, diferente do que poderia vir a ser na realidade.

Ter um “Ego inflado”, um Ego desenvolvido, ao contrário do que a linguagem popular nos aponta, seria o melhor que poderíamos encontrar, pois teríamos mais elasticidade para viver os conflitos, organizar possibilidades, conhecer nossos desejos e nossas limitações, dar conta das interdições, dos amores e dos desamores, também nos protegendo de riscos à nossa integridade e saúde mental.

O Ego e o Superego não nascem conosco totalmente prontos e funcionais. São eles construções sociais que ocorrem através das relações humanas e permitem que o sujeito se torne civilizado o bastante para viver em uma sociedade.

E o quartinho dos guardados? Ah! Essa é uma outra conversa que vai ficar para um outro momento...


Rita Francis Gonzalez y Rodrigues Branco (Rio de Janeiro, 08/05/1954) é médica Cardiologista pela Universidade Federal de Goiás, psicanalista com formação pelo Instituto Sedes Sapientiae, mestre e doutora em Educação pela Universidade Federal de Goiás. Mãe de Arturo Alejandro, Victor Guillermo e sogra de Ana Carolina Gonzalez, juntos formam uma família goiana de coração e espanhola de ascendência, vivendo na bela cidade de Goiânia, Goiás. Como idosa, profissional, pesquisadora e professora de relação médico-paciente percebeu, ao longo dos anos, a lacuna que existe no conhecimento da sexualidade, principalmente em idosos. Criou o módulo de Sexualidade Humana no curso de Medicina da PUC Goiás, onde lecionou por 10 anos. Escreveu vários capítulos de livros de Medicina e de Educação e é autora do livro A Relação com o Paciente: teoria, ensino e prática. Tem como paixões as artes, especialmente o cinema, o teatro e a dança.