Herdeiros de Sísifo: trabalho e trabalhadores no norte do antigo Goiás

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ISBN: 978-85-8192-100-6


Edição:


Ano da edição: 2013


Data de publicação: 00/00/0000


Número de páginas: 179


Encadernação: Brochura


Peso: 200 gramas


Largura: 21 cm


Comprimento: 27 cm


Altura: 2 cm


1. Marcos Borges.

O homem, ao penetrar as duas portas que levam ao paraíso diabólico dos seringais, abdica as melhores qualidades nativas e fulmina-se a si próprio, a rir com aquela ironia formidável. É que realmente, nas paragens exuberantes das héveas e castiloas, o aguarda a mais criminosa organização do trabalho que ainda engenhou o mais desaçamado egoísmo. De fato, o seringueiro e não designamos o patrão opulento, se não o freguês jungido à gleba das estradas, o seringueiro realiza a tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se (Euclides da Cunha). 

No segundo semestre do ano de 2002 e ao longo do primeiro semestre de 2003 tive a oportunidade de trabalhar como professor no curso de História da Universidade do Tocantins campus de Araguaína, meio norte do estado do Tocantins. Durante a estada nesta cidade comecei o estudo sobre o trabalho e os trabalhadores nesta porção da Amazônia Oriental . Conversas informais mantidas com amigos, colegas de trabalho e moradores suscitaram o interesse pela fábrica Cimba, Companhia Industrial e Mercantil da Bacia Amazônica, uma das primeiras, e também mais importantes, indústrias estabelecidas no antigo norte goiano. 

Toda uma série de tabus e narrativas de violências que envolvem a fábrica assinala o elo desta empresa com as frentes de expansão que devassaram a Amazônia nas décadas de 1960 e 70. Neste período, o norte do velho Goiás se caracterizou por ser uma fronteira econômica impulsionada por frações do capital nacional deslocado pelo capital monopolista do centro do país. A chamada frente pioneira identificada com empresários, fazendeiros, grileiros, autoridades públicas, administradores, técnicos, policiais, gatos e pistoleiros entrou em antagonismo com as formas de organização social estabelecidas pelas frentes de povoamento e com as sociedades indígenas. Araguaína, localizada nas margens da rodovia Belém-Brasília, surgiu neste movimento de expansão econômica e logo se tornou a maior cidade do norte goiano. 

Sua posição estratégica, verdadeira dobradiça entre as áreas deprimidas do Nordeste e as frentes de expansão agrícola, mas também seu papel mediador entre a região Norte e o Centro-Sul brasileiro, torna a localidade um observatório privilegiado para o estudo das relações de trabalho em situações de fronteira. No setentrião goiano, e mais especificamente na localidade de Araguaína e seu hinterland, que, grosso modo, corresponde ao meio-norte do atual Tocantins, tais transformações ganharam expressão no início da década de 1960, quando pioneiro vindos do Centro-Sul passaram a adquirir terras devolutas áreas ocupadas há várias décadas por camponeses e/ou grilar terras pertencentes a antigos lavradores. 

Estas percepções sobre a fronteira foram como que ¿objetivadas¿ quando me deparei com as ruínas da Cimba. Numa área com cerca de mil metros quadrados - tomada pela capoeira - restos de máquinas enferrujadas em meio a prédios derruídos, vítimas da ação do tempo e da depredação, conferem ao cenário o aspecto de um cemitério ou mausoléu abandonado. A imagem diferia das minhas concepções habituais, pois não se tratava de vestígios de antigas culturas, incluindo aí fragmentos de períodos anteriores da história da indústria e do trabalho. Afinal, o sistema fabril, como outras realizações da modernidade, constitui fato da história recente da região.

Aliás, poder-se-ia sincronizar a construção da Belém-Brasília, o surgimento de Araguaína, a criação de grandes fazendas de gado e o estabelecimento da Cimba com o processo de modernização acelerada experimentado pelo norte goiano no período em tela. Contudo, como tantas obras da sociabilidade moderna na Amazônia, este estabelecimento industrial foi precocemente reduzido a ruinarias. Com efeito, a fábrica, que começou a funcionar em 1964 já havia encerrado suas atividades no início da década seguinte. Portanto, num curto espaço de tempo, foram consumidas florestas, cocais, instalações, maquinismos e homens. Aí as próprias ruínas fabris remetem a este tempo acelerado, impulsionado por processos predatórios de valorização do capital, e cujo corolário era o esgotamento precoce das forças produtivas, notadamente da força de trabalho.