Por Flávio Vicente, autor de Dois Homens, um Sonho e um Útero: A Jornada de um Casal Homoparental em Busca da Paternidade

Durante muito tempo, falar sobre família significava, para grande parte da sociedade, pensar em um modelo considerado tradicional: um homem, uma mulher e seus filhos. Mas as famílias sempre foram mais diversas do que os modelos sociais conseguiram representar.

Hoje, diferentes caminhos podem levar à parentalidade. Há quem se torne pai ou mãe por meio da gestação, da adoção, da reprodução assistida, da gestação por substituição e de tantas outras possibilidades que surgem quando o desejo de construir uma família encontra diferentes circunstâncias e escolhas.

Mais do que compreender os procedimentos envolvidos em cada caminho, é importante compreender o que existe antes deles: o desejo de cuidar, proteger, educar e estabelecer um vínculo com uma criança.

O desejo de ter um filho

Para algumas pessoas, tornar-se pai ou mãe acontece de maneira planejada e relativamente previsível. Para outras, o caminho pode ser longo, envolver decisões complexas, expectativas, frustrações, custos, aspectos jurídicos e, sobretudo, muita espera.

Quando se trata de homens que desejam exercer a paternidade, especialmente em casais homoafetivos, algumas possibilidades de constituição familiar exigem planejamento e participação de outras pessoas.

A gestação por substituição é uma dessas possibilidades. Nesse processo, uma mulher realiza a gestação para que outra pessoa ou casal possa exercer a parentalidade. No Brasil, a prática está inserida em regras específicas e envolve aspectos médicos, éticos e jurídicos que precisam ser cuidadosamente considerados.

Mas, por trás de qualquer procedimento, existe uma dimensão que nem sempre aparece nas discussões: a dimensão emocional.

Esperar por um filho é também aprender a conviver com a ansiedade, a expectativa e a incerteza. É imaginar um futuro que ainda não chegou e, ao mesmo tempo, começar a construir emocionalmente o lugar daquela criança na família.

Parentalidade não começa necessariamente no nascimento

Uma das ideias mais importantes quando falamos sobre diferentes formas de constituição familiar é compreender que a parentalidade não se resume ao vínculo biológico.

Ser pai ou mãe envolve presença, responsabilidade, cuidado e construção de vínculo.

O nascimento pode marcar a chegada de uma criança ao mundo, mas a relação entre pais e filhos é construída diariamente: no colo, na rotina, nas conversas, nos limites, nas descobertas, nas noites mal dormidas, nas brincadeiras e também nos momentos difíceis.

Por isso, quando discutimos famílias formadas por diferentes caminhos, talvez seja necessário ampliar a pergunta.

Em vez de perguntar apenas “como essa criança chegou?”, podemos perguntar: “Como essa família está construindo seus vínculos?”

Essa mudança de olhar é importante porque evita reduzir uma família à maneira como ela foi formada.

Quando a diferença ainda causa estranhamento

Apesar das transformações sociais, famílias que fogem do modelo tradicional ainda podem enfrentar perguntas, julgamentos e situações de constrangimento.

Para uma criança, isso pode ser especialmente delicado.

Ela não deveria precisar explicar ou defender a própria família para ser respeitada. Cabe aos adultos — família, escola, profissionais de saúde e sociedade — criar ambientes nos quais diferentes configurações familiares possam existir com dignidade.

Isso também exige cuidado com a linguagem.

Perguntar a uma criança “onde está sua mãe?” pode parecer uma pergunta inocente, mas pode gerar desconforto quando sua realidade familiar é diferente. Da mesma forma, atividades escolares que pressupõem que todas as crianças têm a mesma estrutura familiar podem, mesmo sem intenção, produzir exclusão.

Reconhecer a diversidade familiar não significa ensinar uma criança a ser diferente. Significa reconhecer que ela já vive em uma realidade familiar que merece ser respeitada.

O que realmente transforma pessoas em pais?

Talvez essa seja uma das perguntas mais profundas quando pensamos sobre parentalidade.

É o DNA? O nascimento? A gestação? A adoção?

Esses elementos podem fazer parte da história de diferentes famílias, mas nenhum deles, isoladamente, explica a complexidade do vínculo entre pais e filhos.

A parentalidade é construída no cotidiano.

É assumir responsabilidades quando ninguém está olhando. É estar presente. É cuidar quando é fácil e quando é difícil. É estabelecer limites e oferecer segurança. É acompanhar uma criança enquanto ela cresce e, pouco a pouco, constrói sua própria história.

Por isso, diferentes caminhos podem levar à formação de uma família, mas existe algo que atravessa todos eles: o compromisso de cuidar de uma criança e ajudá-la a crescer em um ambiente de amor, segurança e pertencimento.

Uma nova maneira de olhar para as famílias

As transformações na sociedade nos convidam a rever algumas certezas.

Talvez a pergunta mais importante não seja se uma família corresponde a determinado modelo, mas se aquela criança encontra nela cuidado, proteção, afeto, segurança e vínculos capazes de sustentá-la ao longo da vida.

Famílias podem nascer de diferentes maneiras. Algumas histórias começam pela gestação; outras, pela adoção; outras, depois de longas esperas e caminhos que exigem decisões difíceis.

Não existe uma única porta de entrada para a parentalidade.

Existem diferentes histórias.

E, quando olhamos para elas com menos julgamento e mais humanidade, percebemos que talvez aquilo que realmente define uma família não seja a forma como ela começou, mas a maneira como seus integrantes escolhem estar uns para os outros todos os dias.


Flávio Vicente é educador, gestor educacional e escritor, com mais de 25 anos de atuação na área da Educação. É graduado em Letras e Pedagogia, mestre em Educação, possui MBA em Gestão Escolar pela USP e especialização em Metodologias Inovadoras com foco no estudante pela PUC-RS. Atua nas áreas de gestão educacional, gestão pedagógica, liderança, formação de educadores, diversidade e relações humanas no contexto escolar.

É autor de obras que abordam educação, família, parentalidade e as diferentes formas de constituição familiar. Sua trajetória profissional é marcada pela reflexão sobre os desafios contemporâneos da Educação e pela construção de ambientes escolares mais acolhedores, inclusivos e atentos à diversidade.

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