Por Suze Branco, autora de Passaporte não carimbado: histórias sem fronteiras

Há relações que não terminam porque nunca chegaram a começar por inteiro.

Elas nascem em mensagens, atravessam madrugadas, acumulam confidências e criam uma intimidade capaz de diminuir cidades, países e continentes. Duas pessoas passam a conhecer medos, desejos, rotinas e histórias uma da outra. Fazem planos. Imaginam encontros. Projetam futuros.

Mas o futuro não chega.

E surge uma pergunta difícil: como superar uma história que nunca teve um fim porque também nunca recebeu um nome?

Esse é um dos paradoxos das relações contemporâneas. Nunca tivemos tantos meios para encontrar alguém e, ao mesmo tempo, tornou-se muito fácil permanecer durante meses em vínculos indefinidos.

A tecnologia encurtou distâncias geográficas. Não necessariamente as emocionais.

Quando a expectativa também cria vínculos

Uma relação não precisa acontecer inteiramente no mundo físico para produzir sentimentos reais.

Palavras criam intimidade. A frequência das mensagens cria rotina. A expectativa cria presença. Alguém que estava do outro lado de uma tela passa, pouco a pouco, a ocupar espaço no cotidiano emocional.

O problema começa quando existe grande intensidade nas palavras e pouca correspondência nos acontecimentos.

Uma viagem é mencionada, mas nunca marcada.

Um encontro é prometido, mas sempre adiado.

O futuro aparece constantemente nas conversas, embora nada no presente caminhe em sua direção.

É nesse intervalo que nasce o quase.

Quase namoro. Quase encontro. Quase escolha. Quase amor.

E o quase possui uma característica particularmente difícil: mantém aberta uma possibilidade.

Quando uma relação termina claramente, existe uma realidade a enfrentar. Nos vínculos indefinidos, permanecem perguntas.

Será que a pessoa ainda volta? Aquilo que vivemos foi real? E se tivesse acontecido?

Sem uma resposta concreta, a mente continua tentando concluir uma história que a realidade deixou suspensa.

Entre aquilo que foi dito e aquilo que imaginamos


Em qualquer relação, não enxergamos o outro apenas como ele é. Também o percebemos por meio de nossas experiências, expectativas e desejos.

Nas relações construídas principalmente pela comunicação digital, esse espaço pode se tornar ainda maior.

Conhecemos aquilo que a pessoa escolhe mostrar. O restante é preenchido, em parte, pela imaginação.

Uma frase carinhosa pode ganhar o peso de uma promessa.

Uma conversa sobre uma viagem começa a produzir aeroportos e reencontros imaginados.

Uma casa mencionada casualmente pode ganhar janelas, quartos e jardim.

Isso não significa necessariamente ingenuidade. Significa que somos seres capazes de construir sentidos a partir das palavras que recebemos.

Por isso, uma pergunta se torna essencial: Existe coerência entre aquilo que essa pessoa diz e aquilo que realmente faz?

Palavras podem iniciar uma história. São as atitudes que mostram se ela tem onde existir.

Intensidade não é profundidade

Outro equívoco frequente é confundir intensidade com profundidade.

Receber muitas mensagens, conversar durante horas ou sentir uma conexão imediata pode ser emocionante.

Mas profundidade exige algo que nenhuma conversa acelerada consegue substituir: tempo.

É o tempo que revela consistência.

Mostra se os planos deixam de ser frases e se transformam em escolhas. Se há espaço para diferenças. Se a pessoa permanece quando a novidade diminui. Se existe reciprocidade entre aquilo que um oferece e aquilo que o outro está disposto a construir.

Presença também não pode ser medida apenas pela quantidade de mensagens.

Alguém pode escrever dezenas de vezes durante o dia e continuar emocionalmente indisponível. Outra pessoa pode falar menos e demonstrar enorme constância por meio de atitudes.

No fim, talvez uma das perguntas mais importantes seja também uma das mais simples: Essa relação me permite viver ou me mantém esperando?

Quando esperar deixa de ser esperança

Nem todo encontro precisa transformar-se em permanência para ter sido significativo.

Algumas pessoas atravessam nossa vida durante pouco tempo e deixam descobertas profundas. Podem revelar desejos que desconhecíamos, necessidades que ignorávamos e até limites que ainda não havíamos aprendido a estabelecer.

Isso não torna a experiência inútil.

Mas existe um ponto em que esperar deixa de ser esperança.

Passa a ser suspensão.

É quando a própria vida começa a ser organizada em torno de uma possibilidade. Espera-se uma mensagem, uma decisão, uma viagem, um encontro, uma definição. E, enquanto se espera, o presente permanece em segundo plano.

Reconhecer esse limite não significa negar aquilo que foi sentido.

Significa apenas distinguir sentimento de reciprocidade, desejo de realidade, promessa de escolha.

Algumas histórias chegam para permanecer. Outras nos transformam justamente porque não ficaram.

E há aquelas que precisam ser reconhecidas pelo lugar que realmente ocuparam: o território do quase.

Para saber mais sobre encontros, ausências, expectativas e relações atravessadas pelas novas formas de comunicação, conheça Passaporte não carimbado: histórias sem fronteiras, de Suze Branco, publicado pela Editora Appris.



Suze Branco é escritora, educadora e neuropsicopedagoga, com trajetória de três décadas na Educação e formação nas áreas de Gestão Escolar, Habilidades Socioemocionais, Neurociência e Neuropedagogia. É autora do romance Caminhos da Alma: Entre Girassóis e Canções e de Passaporte não carimbado: histórias sem fronteiras, publicado pela Editora Appris. Em sua escrita, transita entre literatura, comportamento humano e as complexidades dos vínculos contemporâneos.

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