Por Gabrielle A. G. Lobo, autora de Jogo de um Assassino

O perfilamento criminal e a análise comportamental podem auxiliar investigações complexas, mas compreender a lógica de um crime exige método, conhecimento técnico e, sobretudo, evidências.

O que leva uma pessoa a cometer um assassinato? É possível compreender aspectos de sua personalidade a partir da maneira como o crime foi executado? E como identificar um assassino em série quando as vítimas não apresentam vínculos aparentes e as ocorrências acontecem em locais e momentos distintos?

Essas perguntas estão entre os desafios que despertam o interesse de pesquisadores, profissionais da segurança pública e do público em geral. Embora não existam respostas simples, a análise das evidências, o estudo da dinâmica dos crimes e o perfilamento criminal podem contribuir para a compreensão de determinadas condutas e para a formulação de hipóteses investigativas.

Investigar um homicídio, entretanto, vai muito além de identificar vestígios ou reconstruir a sequência dos acontecimentos. Em determinadas circunstâncias, também é necessário compreender o comportamento demonstrado pelo autor, identificar possíveis padrões, analisar a vitimologia e avaliar se diferentes crimes podem estar relacionados. Essa tarefa exige uma abordagem cuidadosa, capaz de integrar conhecimentos policiais, periciais e psicológicos sem transformar hipóteses em certezas prematuras.

A cena do crime: quando os detalhes se tornam pistas

Uma cena de crime pode revelar informações importantes sobre o que aconteceu, mas sua interpretação exige método e cautela. A posição dos vestígios, as características do ambiente, as condições em que a vítima foi encontrada, os métodos e a arma utilizados e os demais elementos materiais podem contribuir para a reconstrução dos fatos.

Uma pergunta fundamental nesse processo é: o local onde um corpo foi encontrado corresponde necessariamente ao lugar em que o homicídio aconteceu?

Não. Em determinadas situações, o corpo pode ter sido transportado e desovado em local diverso, o que torna necessário distinguir o local em que o crime ocorreu daquele em que os investigadores encontraram a vítima. Essa possibilidade modifica as perguntas que precisam ser respondidas e pode influenciar a busca por evidências, testemunhas e outras informações relevantes.

A análise também pode considerar as circunstâncias da ocorrência, a relação entre a vítima e o possível autor, a sequência provável das ações e a existência de elementos e características que se repetem em outros crimes.

Entretanto, nenhum vestígio deve ser interpretado isoladamente. Um mesmo elemento pode admitir diferentes explicações, e a reconstrução dos acontecimentos depende da avaliação conjunta das evidências disponíveis e é justamente nessa combinação entre observação, análise e verificação que a investigação ganha consistência.

Perfilamento criminal: o comportamento como ferramenta de investigação

O perfilamento criminal é uma abordagem que busca formular hipóteses sobre características comportamentais e possíveis aspectos de um autor desconhecido a partir da análise do crime e de suas circunstâncias, ou seja, em vez de se limitar à descrição do que aconteceu, essa análise procura examinar como o crime foi cometido, quais decisões podem ser inferidas das ações observadas e que informações essas circunstâncias podem oferecer aos investigadores acerca do possível suspeito.

Entre os aspectos considerados estão a dinâmica da ocorrência, a escolha da vítima, a sequência de ações, as características do local e os comportamentos que podem indicar planejamento, oportunidade, adaptação às circunstâncias ou outras particularidades relevantes; informações essas que podem auxiliar na identificação de linhas de investigação, na comparação entre ocorrências e na formulação de perguntas que orientem a busca por novas evidências.

É importante, contudo, compreender os limites dessa ferramenta. O perfilamento criminal não permite identificar automaticamente o responsável por um delito, tampouco substitui a investigação policial tradicional. Suas conclusões são hipóteses que precisam ser confrontadas com informações verificáveis.

Uma característica comportamental pode sugerir determinada possibilidade, mas não comprova, por si só, a identidade de um suspeito ou sua participação em um crime.

O valor do perfilamento está em contribuir para a interpretação dos fatos, definir algumas possíveis características dos suspeitos, e ampliar as possibilidades de investigação, por isso, compreender esse fenômeno exige uma abordagem multidisciplinar, que reúna investigação policial, conhecimentos psicológicos, análise comportamental e evidências técnico-científicas.

Modus operandi e comportamento: o que pode revelar a maneira de agir?

Na análise de crimes, é importante distinguir o modus operandi de outros comportamentos que podem apresentar significado particular para o autor.

O modus operandi corresponde à maneira como o criminoso executa suas ações para realizar o delito. Esse modo de agir pode sofrer alterações ao longo do tempo, seja em razão da experiência adquirida, seja pelas circunstâncias específicas de cada ocorrência.

Já determinados comportamentos podem, em algumas situações, ultrapassar aquilo que seria necessário para a execução do crime e apresentar características particulares que mereçam investigação ainda mais aprofundada.

A análise dessas diferenças pode ajudar a compreender a dinâmica dos acontecimentos e a comparar crimes potencialmente relacionados. Entretanto, não é adequado atribuir automaticamente uma motivação psicológica a cada comportamento observado.

A repetição de uma ação, por exemplo, não significa necessariamente que ela represente uma necessidade emocional específica do autor. Para chegar a uma interpretação consistente, é preciso considerar as circunstâncias, as evidências e as possíveis explicações alternativas. Portanto, o desafio está em reconhecer padrões relevantes sem ignorar as particularidades de cada ocorrência.

Psicopatia e psicopatologias: os limites da interpretação psicológica

O interesse pela mente de pessoas que cometem crimes violentos frequentemente conduz a questionamentos sobre psicopatia e outros transtornos mentais. No entanto, esses conceitos precisam ser compreendidos com precisão para que não sejam utilizados como explicações simplistas para comportamentos criminosos.

A psicopatia é um conceito utilizado para descrever um conjunto de características interpessoais, emocionais e comportamentais, que podem incluir, em especial, manipulação, insensibilidade emocional, reduzida empatia ou sua total ausência e ausência de remorso.

Embora exista sobreposição entre psicopatia e transtorno de personalidade antissocial, os conceitos não são equivalentes. O transtorno de personalidade antissocial é uma categoria diagnóstica reconhecida, enquanto a psicopatia é um conceito utilizado em avaliações e pesquisas clínicas e forenses, com instrumentos e critérios próprios.

Outro equívoco comum é presumir que toda pessoa com características psicopáticas cometerá crimes violentos. Da mesma forma, frieza aparente, capacidade de mentir e manipular ou ausência de demonstrações emocionais não são suficientes para estabelecer esse tipo de caracterização.

As psicopatologias, por sua vez, abrangem diferentes condições que podem afetar pensamentos, emoções e comportamentos. Sua presença não significa, automaticamente, que uma pessoa tenha propensão à prática de crimes.

A violência é um fenômeno complexo, influenciado por diferentes fatores individuais, sociais e situacionais. Por isso, atribuir um homicídio ou crime violento exclusivamente a um transtorno mental pode produzir uma interpretação incompleta dos acontecimentos e reforçar estigmas.

Na investigação criminal, a análise psicológica pode contribuir para a compreensão de determinadas condutas, mas não autoriza diagnósticos baseados apenas na observação de uma cena de crime, em relatos incompletos ou em informações divulgadas publicamente.

O comportamento observado deve ser analisado dentro de seu contexto, respeitando os limites do conhecimento disponível e as competências dos profissionais envolvidos.

Assassinos em série: o desafio de conectar crimes aparentemente isolados

Entre os cenários mais complexos da investigação criminal está a possibilidade de diferentes homicídios terem sido cometidos pelo mesmo indivíduo.

Os assassinos em série são geralmente caracterizados pela prática de homicídios em eventos distintos, separados por intervalos de tempo. Diferentemente dos crimes que envolvem múltiplas vítimas em um único episódio, esses casos podem se desenvolver ao longo de períodos prolongados, e diferentes regiões, dificultando a identificação de conexões entre as ocorrências.

As vítimas podem não apresentar relações pessoais conhecidas, os crimes podem acontecer em bairros, cidades ou estados diferentes e as investigações podem ser conduzidas por equipes distintas, dificultando a correlação entre os casos, especialmente se não houver registros em bancos de dados. Em algumas situações, as circunstâncias não oferecem, de imediato, elementos suficientes para estabelecer uma ligação entre os delitos.

Como identificar, então, se existe um mesmo autor por trás dessas ocorrências?

Um dos caminhos é a comparação sistemática dos casos, onde os investigadores podem examinar características das vítimas, circunstâncias dos crimes, dinâmica das ocorrências, elementos periciais e outras informações que permitam avaliar possíveis semelhanças.

A construção de cronologias, o compartilhamento de informações entre unidades policiais e a revisão de casos anteriores também podem ser fundamentais para reconhecer conexões que não eram evidentes inicialmente.

Entretanto, é necessário distinguir semelhanças relevantes de coincidências. Dois homicídios podem apresentar características semelhantes sem terem sido cometidos pela mesma pessoa. Por outro lado, diferenças entre as ocorrências não são suficientes, isoladamente, para descartar uma possível relação.

A análise comportamental pode contribuir para essa avaliação, mas não deve ser utilizada como único critério para vincular crimes, necessitando da integração de informações, da cooperação entre equipes e da capacidade de revisar hipóteses à medida que novos elementos são identificados.

Existe um perfil psicológico único para assassinos em série?

A imagem popular do assassino em série costuma reunir características como inteligência acima da média, frieza, capacidade de manipulação e planejamento meticuloso. Embora determinadas características possam aparecer em casos específicos, não existe um perfil psicológico único que represente todos esses criminosos.

As histórias pessoais, as motivações, as características de personalidade, possíveis psicopatologias existentes e as formas de atuação podem variar significativamente. Por isso, tentar enquadrar todas as ocorrências em um modelo previamente estabelecido pode limitar a investigação e desviar a atenção de informações relevantes.

O mesmo cuidado deve ser aplicado à busca por uma motivação. Embora compreender possíveis fatores motivacionais possam contribuir para a análise de um caso, nem sempre é possível estabelecer uma explicação definitiva para as ações de um autor.

Na prática investigativa, é mais seguro partir dos comportamentos efetivamente observados na cena do crime e das evidências disponíveis do que tentar confirmar uma imagem preconcebida de como um assassino deveria agir. Essa postura permite considerar diferentes possibilidades e reduz o risco de que expectativas pessoais influenciem a interpretação dos fatos.

Compreender o comportamento para investigar melhor

Estudar o comportamento de um criminoso não significa justificar suas ações nem pressupor que exista uma explicação simples para a violência, e sim, buscar compreender as decisões observadas, identificar padrões relevantes e reconhecer como essas informações podem contribuir para a investigação.

O perfilamento criminal oferece possibilidades importantes, mas seus resultados dependem da qualidade das informações analisadas, da consistência das hipóteses e da verificação por meio de evidências.

Da mesma forma, o estudo da psicopatia e de outras condições psicológicas pode ampliar a compreensão de determinados aspectos do comportamento humano, desde que não seja utilizado para estabelecer associações automáticas entre transtornos mentais e criminalidade.

Na investigação de assassinos em série, esse equilíbrio torna-se ainda mais importante, já que conectar crimes, compreender possíveis padrões e identificar o responsável exige um trabalho sistemático que reúna análise comportamental, investigação policial, conhecimentos periciais e compartilhamento de informações.

Uma pista pode abrir uma nova possibilidade. Uma semelhança pode sugerir uma conexão. Uma hipótese pode orientar diligências. Mas nenhuma dessas etapas, isoladamente, encerra uma investigação.

Compreender o comportamento, portanto, pode ajudar a formular as perguntas certas e afunilar as possibilidades, mas são a análise rigorosa e a verificação das evidências, todas em conjunto, que permitem avançar na busca pelas respostas.

Para saber mais sobre o tema, conheça Jogo de um Assassino, de Gabrielle de Araújo Gonçalves Lobo, obra de suspense psicológico e investigação policial.


Gabrielle de Araújo Gonçalves Lobo é policial federal e escritora, autora de Jogo de um Assassino, obra de suspense psicológico e investigação policial. Em sua produção literária, explora os desafios da investigação criminal, os aspectos do comportamento humano e os mistérios que envolvem crimes aparentemente desconexos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *