Por Malu Guilhermino, autor de O último voo da águia: doces lembranças também matam

A geografia dos espaços públicos fora do eixo central está mudando o perfil das cidades de porte médio. Esta afirmação, no entanto, não pode ser tomada como um conceito final. Apenas como um ponto de vista. A razão está também no fato de não podermos colocar num mesmo espaço todas as micro regiões que, por si só, são distintas conforme o país, o povo, sua cultura e seus interesses.

Difícil dizer que isto ocorre numa vila no interior do Japão, por exemplo, onde a vida da comunidade, sua preservação cultural e sua identidade, estão acima dos investimentos oficiais. Ainda é possível observar naquele país os vilarejos milenares onde ainda se produzem os mangás, o kendo e o ikebana que chegaram com requinte ao resto do planeta.

No ocidente, a França – especificamente -entre outros países de origem milenar, mantêm inabalável sua cultura preservando castelos, muralhas, fortalezas e locais históricos, muitos eternizados pelos pintores e artistas medievais que, através da arte, contam a história do país e de seu povo como um livro a céu aberto para o mundo.

Por estes caminhos se entremearam obras literárias que se tornaram clássicas ao narrarem hábitos cotidianos, romances, modo de vida, culinária e os prazeres destas civilizações. Através da preservação da história conhecemos o passado dos povos e seus costumes que foram se modificando na superposição das gerações. Para se ter uma ideia, a moda francesa, herdada dos celtas, tem tradição milenar entre os povos de todo o mundo.

Do que se orgulham os países do novo mundo? As Américas?

Praticamente tudo o que aqui existia sucumbiu com a chegada dos europeus que dizimaram a cultura nativa em prol da visão do eurocentrismo, que resultou na destruição de saberes, crenças e modo de vida locais. Os colonizadores menosprezaram o que encontraram nas terras novas por desdenharem as culturas nativas que consideraram antiestética, sem relevância para o mundo que ainda não conhecia aquela realidade de pureza e sabedoria, por considerarem a civilização europeia superior e soberana.

Se encantaram com as terras, mas dizimaram seus ocupantes. Desrespeitaram civilizações como a dos Maia e dos Astecas e desprezaram os valores culturais destas e de outras nações, como as dos indígenas em terras do pau brasil. Os milhares de negros que foram trazidos posteriormente para a mão de obra barata e bruta no período colonial, só reforçaram a ideia dos colonizadores de anularem os traços culturais dos que aqui aportavam e criavam raízes, para impor sua arquitetura, sua culinária, sua vestimenta e seu modo de vida imperial, ainda que num país de clima totalmente diferente daquele de onde vieram.

Sobre isso, bem disse ironicamente o poeta Oswald de Andrade.

“Quando o português chegou / debaixo de uma bruta chuva / vestiu o índio / Uma pena! / Fosse uma manhã de sol / o índio tinha / despido o português.”

Diante de um passado desrespeitoso com a terras tomadas de assalto, ainda hoje a história se repete. Em nome de uma nova geografia de ocupação de espaços vão se perdendo as tradições e as histórias que foram sendo construídas ao longo dos anos. Hoje, no nosso país, quem se lembraria dos fatos relevantes da sua comunidade, da sua rua, do seu meio social, da sua infância ou dos seus antepassados? 

Ao contrário dos castelos, das muralhas e dos mangás que persistiram como fontes de informação sobre a história e hábitos das civilizações através dos tempos, por aqui somente agora lançam arremedos de preservação da identidade dos povos nativos e dos que vieram sequestrados de seus leitos africanos. Mas o que dizer de um povo amnésico que esquece seu linear passado recente? Que desabitou de sua memória a intimidade construída com o padeiro da esquina, o carpinteiro que torneava camas de casais, o artesão das toalhas bordadas e o comerciante com seus bolos e doces de sabores inigualáveis?

Mas ainda há tempo.

Começam a surgir no meio literário obras apaixonadas que forjam o passado com preciosismo de fatos que muitos de nós possivelmente desconhecemos ou ouvimos dizer que existiram.

Entre eles cito, de momento, a obra O Último Voo da Águia, da escritora Malu Guilhermino, que traça o perfil de uma sociedade de décadas entre 50 e 70 com todas as aberrações herdadas de uma sociedade autoritária e discriminatória e um modo de vida que tinha dificuldade de compreender um mundo em constante mutação. A rua e os caminhos que dela saem, como a descrita na obra, não existem mais. As casas daquela rua como em tantas outras foram tomadas por estabelecimentos comerciais e muitas delas, de estilo “art noveau”, trazidas pelos colonizadores, foram jogadas ao chão para atender à demanda dos negócios. Não haviam ali na rua da história narrada no livro palácios, muralhas ou estruturas relevantes, na visão dos modernistas. Mas se pudermos abstrair a lógica do crescimento e suas discrepâncias, podemos degustar na obra. E nela descobrir um pouquinho da riqueza dos traços perdidos de um mundo moldado numa época que hoje sobrevive esquecendo o lastro do passado e corre o risco de decretar a falência da memória.

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