Por Wellington Bruno, autor de Leito 7: A Medicina Sem Pressa (Slow Medicine)
Nas últimas décadas, assistimos ao necessário desenvolvimento da Medicina Baseada em Evidências (MBE) em detrimento da medicina baseada em simples experiência e impressões muitas vezes falsas ou enganosas. Ela derrubou dogmas antigos e fez a medicina avançar na nossa capacidade de fazer diagnósticos e fornecer tratamentos eficazes de forma extraordinária. Infelizmente, a MBE que caminhou pari passu com o avanço científico e tecnológico destas últimas décadas foi acompanhada por uma crescente medicina “tecnologizada” (desculpem o termo!), despersonalizada, protocolizada e apressada nos meios acadêmico e assistenciais públicos e privados, semelhante ao que ocorre na vida moderna.
A disponibilidade de verdadeiros parques tecnológicos necessários nos hospitais (apesar de caros) em vez de somente contribuir para confirmar ou facilitar diagnósticos e tratamentos precoces e eficazes, acabou por reduzir a valorização e o espaço para o ensino da escuta ativa e atenciosa das narrativas dos pacientes (suas histórias desde o início dos primeiros sintomas) , do exame físico minucioso, do toque, do olhar, da empatia, da conexão, da arte da comunicação entre médicos e pacientes, da atenção a outros aspectos além dos orgânicos, ou da comunicação com familiares ou mesmo entre médicos e outros profissionais de saúde. As relações tornaram-se impessoais, e a comunicação, extraordinariamente, difícil e fria. O bom estudante de medicina deixou de ser aquele capaz de desenvolver uma boa relação médico-paciente. O bom estudante passou a ser aquele bom em informática e hábil no tratamento de dados estatísticos nos programas de informática para apresentação em congressos médicos e publicações científicas em periódicos internacionais. Para utilizar uma linguagem técnica atual dos gestores, o produto final a sair da faculdade pode ser aquele profissional de saúde com dificuldades de comunicação com pacientes e familiares, e com uma medicina baseada exclusivamente em ciência, gestão de dados e tecnologia para atender nas comunidades e consultórios particulares, mas é um profissional de saúde.
A medicina sem pressa (Slow Medicine) contempla a ‘medicina centrada na pessoa humana’ em seus aspectos biopsicossociais e espirituais, segundo a necessidade do paciente individual, valorizando a comunicação efetiva e as narrativas dos pacientes (medicina narrativa), com atenção ao estilo de vida e necessidades de intervenções (medicina do estilo de vida), além de uma avaliação clínica e funcional do paciente, sempre fundamentada em MBE.

Wellington Bruno, MD, MSc, PhD, Fesc
Fellow of the European Society of Cardiology (Fesc), pós-doutor em Medicina e doutor em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mestre em Cardiologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), pós-graduado em Gerontologia e Geriatria Interdisciplinar (UFF), em Geriatria Clínica pela Universidade do Porto (Portugal) e PUC do Rio Grande do Sul (Brasil), em Cuidados Paliativos pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia/Associação Médica Brasileira (SBC/AMB), especialista em Medicina do Tráfego pela Abramet/AMB, Cardiologista da UFF e graduado em Medicina (UFF). Palestrante convidado da pós-graduação de Gerontologia e Geriatria Interdisciplinar da UFF, da disciplina de Medicina e Espiritualidade da Faculdade de Medicina (UFF) e da disciplina de Odontogeriatria da Faculdade de Odontologia (UFF). Ex-vice-presidente e ex-diretor científico da Associação Médica Fluminense (AMF), diretor do Departamento de Cardiogeriatria da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro (Socerj), membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), membro da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), instrutor do Projeto EMERGE BRASIL (2001-2016), primeiro-tenente bombeiro militar médico da reserva (não remunerada) do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (1991-1996) e bibliófilo confesso.